sexta-feira, 17 de julho de 2015

O QUE SE FALA NO GOOGLE SOBRE O BRASIL?

 
João Soares Neto
 
“No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Tom Jobim
 
A Folha de São Paulo resolveu pedir ao Google informações sobre as buscas dos seus internautas acerca do Brasil. O Google aquiesceu e informou, mais ou menos, o seguinte: os próprios portugueses ao usar o sistema Google fazem, em busca mais recorrente, a seguinte pergunta: quem descobriu o Brasil? A outra pergunta deles é: quem colonizou o Brasil? É verdade, não é brincadeira. Coisas da pátria-mãe.
 
Sobre o assunto, Patrícia Campo Mello, jornalista, informa: “Para mapear a imagem do Brasil no Mundo, o Google levantou, a pedido da Folha, o que os cidadãos de alguns países buscam em seu site sobre o País desde 2004. Afora os resultados no mínimo curiosos sobre os portugueses, o levantamento mostra que o Brasil começa a se livrar dos clichês "samba, futebol e carnaval’”.
 
Mas, descobriu-se que é no nosso país que os norte-americanos pensam em certos tipos de cirurgia plástica e estética, tais como “Brazil butt lift” (cirurgia para aumentar o traseiro) e “brazilian wax”(depilação dos pelos pubianos). Enganam-se ao pensar que por aqui há sementes nativas que teriam o poder do emagrecimento nos locais certos. Por outro lado, a pesquisa, citada, mostra que ainda há perguntas, tais como: onde fica o Brasil? em que país fica o Brasil? que língua é falada no Brasil?
 
Recorro à Patrícia: “A ignorância também permeia as buscas mais frequentes dos internautas do Iraque como: “Qual é o idioma”, “Onde fica?” e “Qual é a capital?”. Mas o sexo não sai do imaginário dos iraquianos (muçulmanos, diga-se) quando pensam no Brasil. O termo mais procurado por eles é ‘praias de nudismo, seguido de ‘sexo’ e ‘mulheres sexy do Brasil”. Aqui ao lado, na Argentina, os “hermanos” procuram saber de novelas e a que tem mais entrada no Google é “Avenida Brasil”, da TV Globo, que só foi retransmitida para lá em 2014.

terça-feira, 14 de julho de 2015

AS MIL E UMA NOITES

Os orientais criaram um conto para contar a origem do livro de contos das mil e uma noites.
 
A história conta que Xariar, rei da Pérsia da dinastia dos Sassânidas, descobre que sua mulher é infiel, dormindo com um escravo cada vez que ele viaja. O rei, decepcionado e furioso, mata a mulher e o escravo, convencendo-se por este e outros casos de infidelidade que nenhuma mulher do mundo é digna de confiança. Decide então que, daquele momento em diante, dormirá com uma mulher diferente cada noite, mandando matá-la na manhã seguinte: desta forma não poderá ser traído nunca mais.
Passam-se assim três anos durante os quais o rei desposou e sacrificou inúmeras moças, trazidas à sua presença pelo vizir (equivalente a um primeiro ministro) do reino. Certo dia, quando já quase não havia virgens no reino, uma das filhas do vizir, Xerazade, pediu para ser entregue como noiva ao rei, pois sabia de um estratagema para escapar ao triste fim que alcançaram as moças anteriores. O vizir apenas aceita depois de muita insistência da filha, levando-a finalmente ao rei. Antes de ir, Xerazade diz à irmã, Duniazade, que lhe peça que conte uma história quando for chamada ao palácio do rei.
Xerazade, ao chegar na presença do rei, pede-lhe que permita a vinda de sua irmã, para despedir-se. O rei o permite, e Duniazade vem ao palácio e instala-se na câmara nupcial. Após o rei possuir Xerazade, Duniazade pede à irmã que conte uma história para passar o tempo. Após respeituosamente pedir a permissão do rei, Xerazade começa a contar a extraordinária "História do mercador e do gênio" mas, ao amanhecer, ela interrompe o relato, dizendo que continuará a narrativa na noite seguinte. O rei, curioso com o maravilhoso conto de Xerazade, não ordena sua execução para poder saber o final da história na noite seguinte. Assim, repetindo essa estratégia, Xerazade consegue sobreviver noite após noite, contando histórias sobre os mais variados temas, desde o fantástico e o religioso até o heróico e o erótico. Ao fim de inúmeras noites e contos, Xerazade já havia tido três filhos do rei, e lhe suplica que a poupe, por amor às crianças. O rei, que há muito havia-se arrependido dos seus atos passados e se convencido da dignidade de Xerazade, perdoa-lhe a vida e faz dela sua rainha definitiva. Duniazade é feita esposa do irmão do rei, Xazamã.

O SEGREDO DE UMA BOA VIDA

 
O jornalista Hildeberto Aleluia nos enviou este texto sem dizer o autor. Mas vale a dica:

TEXTO SÁBIO DE UM GERIATRA
 
 
Estamos envelhecendo. Não nos preocupemos! De que adianta, é assim mesmo. Isso é um processo natural. É uma lei do Universo conhecida como a 2ª Lei da Termodinâmica ou Lei da Entropia. Essa lei diz que: “A energia de um corpo tende a se degenerar e com isso a desordem do sistema aumenta”. Portanto, tudo que foi composto será decomposto, tudo que foi construído será destruído, tudo foi feito para acabar. Como fazemos parte do universo, essa lei também opera em nós. Com o tempo, os membros se enfraquecem, os sentidos se embotam. Sendo assim, relaxe e aproveite. Parafraseando Freud: “A morte é o alvo de tudo que vive”. Se você deixar o seu carro no alto de uma montanha, daqui a 10 anos ele estará todo carcomido. O mesmo acontece a nós. O conselho é: Viva. Faça apenas isso. Preocupe-se com um dia de cada vez. Como disse um dos meus amigos a sua esposa: “me use, estou acabando!”. Hilário, porém realista.
 
Ficar velho e cheio de rugas é natural. Não queira ser jovem novamente, você já foi. Pare de evocar lembranças de romances mortos, vai se ferir com a dor que a si próprio inflige. Já viveu essa fase, reconcilie-se com a sua situação e permita que o passado se torne passado. Esse é o pré-requisito da felicidade. “O passado é lenha calcinada. O futuro é o tempo que nos resta: finito, porém incerto” como já dizia Cícero.
 
Abra a mão daquela beleza exuberante, da memória infalível, da ausência da barriguinha, da vasta cabeleira e do alto desempenho, pra não se tornar caricatura de si mesmo. Fazendo isso ganhará qualidade de vida. Querer reconquistar esse passado seria um retrocesso e o preço a ser pago será muito elevado. Serão muitas plásticas, muitos riscos e mesmo assim você verá que não ficou como outrora. A flor da idade ficou no pó da estrada. Então, para que se preocupar?! Guarda os bisturis e toca a vida.
 
Você sabe quem enche os consultórios dos cirurgiões plásticos? Os bonitos. Você nunca me verá por lá. Para o bonito, cada ruga que aparece é uma tragédia, para o feio ela é até bem vinda, quem sabe pode melhorar, ele ainda alimenta uma esperança. Os feios são mais felizes, mais despreocupados com a beleza, na verdade ela nunca lhes fez falta, utilizaram-se de outros atributos e recursos. Inclusive tem uns que melhoram na medida em que envelhecem. Para que se preocupar com as rugas, você demorou tanto para tê-las! Suas memórias estão salvas nelas. Não seja obcecado pelas aparências, livre-se das coisas superficiais. O negócio é zombar do corpo disforme e dos membros enfraquecidos.
 
Essa resistência em aceitar as leis da natureza acaba espalhando sofrimento por todos os cantos. Advêm consequências desastrosas quando se busca a mocidade eterna, as infinitas paixões, os prazeres sutis e secretos, as loucas alegrias e os desenfreados prazeres. Isso se transforma numa dor que você não tem como aliviar e condena à ruína sua própria alma. Discreto, sem barulho ou alarde, aceite as imposições da natureza e viva a sua fase. Sofrer é tentar resgatar algo que deveria ter vivido e não viveu. Se não viveu na fase devida, o melhor a fazer é esquecer.
 
A causa do sofrimento está no apego, está em querer que dure o que não foi feito para durar. É viver uma fase que não é mais sua. Tente controlar essas emoções destrutivas e os impulsos mais sombrios. Isso pode sufocar a vida e esvaziá-la de sentido. Não dê ouvidos a isso, temos a tentação de enfrentar crises sem o menor fundamento. Sua mente estará sempre em conflito se ela se sentir insegura. A vida é o que importa. Concentre-se nisso. A sabedoria consiste em aceitar nossos limites.
 
Você não tem de experimentar todas as coisas, passar por todas as estradas e conhecer todas as cidades. Isso é loucura, é exagero. Faça o que pode ser feito com o que está disponível. Quer um conselho? Esqueça. Para o seu bem, esqueça o que passou. Tem tantas coisas interessantes para se viver na fase em que está. Coisas do passado não te pertencem mais. Se você tem esposa e filhos, experimente vivenciar algo que ainda não viveram juntos, faça a festa, celebre a vida, agora você tem mais tempo, aproveite essa disponibilidade e desfrute. Aceitando ou não, o processo vai continuar. Assuma viver com dignidade e nobreza a partir de agora. Nada nos pertence.
 
Tive um aluno com 60 anos de idade que nunca havia saído de Belo Horizonte. Não posso dizer que, pelo fato de conhecer grande parte do Brasil, sou mais feliz que ele. Muito pelo contrário, parecia exatamente o oposto. O que importa é o que está dentro de nós, a velha máxima continua atual como nunca: “quem tem muito dentro precisa ter pouco fora”.
Esse é o segredo de uma boa vida...

quarta-feira, 8 de julho de 2015

ALI BABA E OS 40 LADRÕES

 
 
Ali Baba nunca foi ladrão. Era um pobre lenhador árabe, irmão de Cássim, um dos mais ricos mercadores de Bagdá. Ali Baba cortava lenha na floresta para sustentar a família. Veja como é a história que está no livro de contos das Mil e uma noites:
 
Um dia Ali Babá estava cortando lenha quando viu se aproximar uma nuvem de poeira. "— Que será isso?" — pensou. Percebeu que se tratava de homens a cavalo que vinham em sua direção e, temendo que fossem bandidos, subiu numa árvore, junto a uma grande rocha, e se escondeu em meio à folhagem.
Do alto podia ver tudo sem ser visto. Então chegaram àquele lugar quarenta homens muito fortes e bem armados, com caras de poucos amigos. Ali concluiu que eram quarenta ladrões. Os homens desapearam dos cavalos e puseram no chão sacos pesados que continham ouro e prata. O mais forte dos ladrões, que era o chefe, aproximou-se da rocha e disse:

—
Abre-te, Sésamo!
Assim que essas palavras foram pronunciadas, abriu-se uma porta na caverna. Todos passaram por ela, e a porta se fechou novamente. Depois de muito tempo, a passagem voltou a se abrir, e por ela saíram os quarenta ladrões. Quando todos estavam fora, o chefe disse:

—
Fecha-te, Sésamo!
 
Quando os bandidos se afastaram, Ali os seguiu com os olhos até desaparecerem. Quando se viu em segurança, desceu da árvore, dirigiu-se à rocha e disse:

—
Abre-te, Sésamo!
A porta se abriu e Ali Babá ficou sem palavras diante do que seus olhos viram: uma grande caverna cheia dos tecidos mais finos, tapetes belíssimos e uma enorme quantidade de moedas de ouro e prata dentro de sacos. Ali entrou com os três burros que costumava levar quando ia cortar lenha, e a porta imediatamente se fechou atrás dele. O rapaz carregou os animais com sacos de moedas de ouro e, depois disso, pronunciou as palavras mágicas que abriam e fechavam a porta da caverna e foi em direção à cidade.
Quando viu o ouro, sua mulher pensou que o marido tinha-se tornado um ladrão, mas ele contou tudo o que acontecera, recomendando-lhe que mantivesse segredo absoluto a respeito daquela história. Quando Ali falou em esconder as moedas num buraco, a mulher, então, disse:

—
Boa ideia, mas antes quero contar quantas medidas de ouro temos. Vou pedir um medidor ao vizinho, enquanto você cava o buraco.
O vizinho era, justamente, Cássim, irmão de Ali Babá, que não estava em casa. Ela, então, pediu à mulher dele o medidor emprestado: uma espécie de concha grande, com a qual se calculavam as medidas de açúcar e outros mantimentos. Cheia de desconfiança, a cunhada pensou:

—
Que coisa mais estranha! Para que querem um medidor? O que é que a mulher de Ali Babá está querendo contar naquela casa tão miserável?
Para descobrir o que era, decidiu untar com sebo o medidor; talvez um pouco daquilo ficasse grudado sem que ninguém percebesse...
Enquanto Ali cavava, sua mulher calculou as medidas de ouro; depois, foi devolver o medidor à vizinha sem perceber que uma das moedas ficara presa ao sebo. A vizinha viu a moeda, ficou espantada, ardeu de inveja e, quando o marido chegou a casa, disse-lhe:

—
Você pensa que é rico, Cássim, mas Ali Babá é muito mais: até calcula quantas medidas de ouro tem!
Cássim também foi tomado pela inveja e nem pôde dormir aquela noite. No dia seguinte, foi até a casa do irmão disposto a esclarecer aquilo tudo. Lá, até ameaçou denunciar Ali à justiça, se ele não lhe contasse tudo. Ali Babá, então, acabou por contar o que lhe acontecera; depois, pediu segredo ao irmão, prometendo-lhe, em recompensa, uma parte do tesouro. Cássim concordou e se despediu do irmão. Mas na manhã seguinte, bem cedo, dirigiu-se à caverna sozinho, com dez burros, disposto a voltar carregado de ouro. Ao chegar à porta da rocha, disse:
Abre-te, Sésamo!
A porta se abriu, Cássim entrou e ela se fechou de novo atrás dele. ! Apoderou-se de tudo o que podia levar, carregando os burros, e, quando foi sair, disse:

—
Abre-te, Cevada!
Mas a porta continuou fechada. Foi então que ele se deu conta de que esquecera qual a palavra mágica. Por volta de meio-dia, os ladrões retornaram à rocha. Pronunciaram as palavras mágicas e entraram. Ao verem Cássim, ficaram furiosos e imediatamente o mataram .Para que ninguém ousasse sequer se aproximar da rocha novamente, cortaram o corpo de Cássim em quatro partes e o deixaram pendurado lá dentro. Depois, foram embora.

A esposa de Cássim ficou muito preocupada quando viu cair a noite sem que seu marido regressasse.
 
Foi à casa do cunhado e expressou seus temores. Ali, suspeitando de que algo grave acontecera, foi para a caverna. Quase desmaiou quando viu o corpo do irmão cortado em pedaços. Recolheu-os em dois pacotes e voltou para a cidade com a intenção de sepultá-los.

Os quarenta ladrões ficaram espantados ao retornar à caverna e não avistarem o corpo de Cássim. O chefe disse ao bando:

— Estamos perdidos! Precisamos dar um jeito nisso, ou perderemos todas as nossas riquezas. O corpo desaparecido mostra que duas pessoas conseguiram descobrir nosso segredo: liquidamos uma delas, agora precisamos acabar com a outra.

Um dos ladrões se dispôs a ir à cidade, encarregando-se da missão de descobrir quem era a pessoa que sabia do segredo. Se falhasse, seria morto por seus colegas, que, despedindo-se dele, elogiaram muito sua bravura.

Havia um sapateiro na cidade, muito trabalhador e querido, chamado Baba Mustafá. Ali Babá o encarregara de costurar o corpo do irmão Cássim para o enterrar com decência. Por uma infeliz coincidência, foi justamente esse homem que o ladrão primeiramente viu ao chegar à cidade de manhãzinha, pois a loja do sapateiro era a única aberta àquela hora. O ladrão o cumprimentou e disse:

— O senhor começa seu trabalho muito cedo! Na sua idade, não sei como consegue enxergar para costurar esses sapatos!
— Apesar de velho, meus olhos são muito bons. Há pouco tempo costurei um morto num lugar que tinha menos luz que nesta minha loja — respondeu Baba Mustafá.

Contente com aquela informação, o ladrão colocou duas moedas de ouro na mão do sapateiro, rogando-lhe que dissesse onde ficava a casa em que ele costurara o morto. Depois de olhar para aquelas moedas brilhantes, Baba Mustafá acabou por concordar e levou o ladrão até a frente da casa de Cássim, que agora pertencia a Ali Babá. O ladrão pegou um pedaço de giz e fez uma cruz na porta. Depois, foi-se em direção à floresta.

A esposa de Cássim tinha uma
criada de rara beleza e esperteza, Morgiana. A moça, ao sair da casa, notou o sinal e desconfiou de alguma tramóia:

— Que será isso? Que coisa mais estranha! Certamente querem prejudicar meu patrão!

Pegou, então, um pedaço de giz e marcou com o mesmo sinal três portas à direita e mais três à esquerda.

Os ladrões foram até à cidade e pararam diante de uma das portas que tinham a marca de giz feita por Morgiana. O ladrão que tinha estado ali no dia anterior disse:

— É esta!

O chefe, porém, notou que havia outras seis casas cujas portas traziam o mesmo sinal e perguntou-lhe qual era, de fato, a porta que ele tinha marcado. Confuso, o homem não soube o que responder. Voltaram todos para a floresta, e o ladrão que falhara em sua missão foi executado pelos colegas.

Aquilo já era uma afronta! Um dos ladrões se dispôs espontaneamente a retornar à cidade e descobrir onde morava o homem que descobrira o segredo da caverna. Chegou, como o primeiro, ao raiar do dia, e topou com Baba Mustafá. A história se repetiu: o sapateiro acabou por conduzir o ladrão até a casa de Ali Babá. Para não se confundir como o primeiro, o ladrão marcou a casa com um sinal vermelho e voltou para junto dos seus. Como da outra vez, Morgiana notou o sinal e marcou várias outras portas das proximidades com marca semelhante.

Quando o bando rumou para a cidade, viu-se diante da mesma confusão da outra vez, e o segundo bandido encarregado daquela missão foi executado.

Os ladrões agora eram trinta e oito.
Depois daquele segundo fracasso, o chefe resolveu ele mesmo se encarregar da missão. Foi pessoalmente à cidade, encontrou Baba Mustafá e, diante da casa de Ali Babá, em vez de deixar algum sinal, limitou-se a observá-la cuidadosamente, examinando cada detalhe que a distinguia das outras. Depois, voltou para a floresta e pôs em execução o seu plano.

Mandou comprar trinta e oito grandes barris para guardar azeite. Encheu de azeite apenas um deles e, nos outros, fez com que entrassem os bandidos, fortemente armados. Em cada barril, havia pequenos buracos para que os homens pudessem respirar.

Com os trinta e sete barris que serviam de esconderijo aos ladrões e mais um barril cheio de azeite, carregaram-se dezenove mulas, e lá se foi o chefe à cidade. Localizou facilmente a casa de Ali Babá, que estava na frente tomando ar. Disse-lhe:

— Venho de muito longe e vim à cidade para vender meu azeite. Mas cheguei cedo demais. A noite está caindo e eu preciso dar algum descanso para as minhas mulas. O senhor não poderia me abrigar em sua casa só por esta noite?

Ali Babá não reconheceu o bandido, que estava disfarçado, e aceitou amigavelmente recebê-lo em sua casa. Mandou que Morgiana preparasse para o hóspede um jantar e uma cama. Os barris foram descarregados das mulas e colocados no pátio da casa.

Após a refeição, Ali Babá foi dormir, e o chefe dos ladrões conseguiu às escondidas encaminhar-se para onde estavam os barris. Disse a cada um dos seus homens que neles se escondiam:

— À meia-noite, quando ouvirem minha voz, usem suas facas para abrir a tampa dos barris e saiam.

Após instruir seus homens, foi ao quarto que Morgiana lhe havia preparado e fingiu que dormia. A escrava foi cuidar do serviço de casa. Estava entretida com seus afazeres, quando, de repente, as lamparinas se apagaram. Mas não havia azeite na casa. Que fazer? O escravo Abdullah, vendo-a toda atrapalhada, disse:

— Por que essa tempestade em copo de água? Há tantos barris cheios de azeite no pátio! Por que você não vai lá pegar a quantidade necessária?

Assim fez Morgiana. Mas, ao se aproximar do primeiro barril, ouviu o bandido que estava escondido dentro dele dizer, baixinho:

— Já está na hora?

Assustada, Morgiana ficou um tempo sem saber o que responder. Percebeu que em vez de azeite aqueles barris escondiam bandidos perigosos. Rapidamente, pensou num meio de enfrentar aquela situação delicada. Criou coragem e, imitando a voz do chefe dos bandidos, disse:

— Ainda não é hora. Tenha paciência.

Morgiana foi de barril em barril, dando sempre a mesma resposta aos ladrões que lhe perguntavam se tinha chegado a hora. O último barril continha azeite de verdade. Morgiana encheu um jarro, acendeu uma lamparina e pôs em prática seu plano.

Numa grande panela ferveu azeite. Depois, indo de barril em barril, derramou o líquido fervente sobre cada bandido, matando-os todos.

À meia-noite, o chefe se levantou da cama, foi até o pátio e chamou seus homens. Não houve resposta. Sentindo cheiro de carne queimada, assustou-se. Abriu o primeiro barril, depois o segundo e os demais — e só encontrou cadáveres. Temendo pela sua própria vida, fugiu correndo.

De manhã, Ali Babá levantou-se e foi tomar seu banho, sem desconfiar do que se passara. Ao voltar para casa, estranhou que os barris ainda estivessem no pátio. Morgiana, então, mostrou-lhe o que eles na verdade traziam e contou o que acontecera. Ali Babá ficou muito agradecido e prometeu recompensar a escrava por ela lhe ter salvado a vida. Depois, junto com um criado, tratou de enterrar os mortos numa grande fossa no jardim de sua casa. Escondeu os barris e as armas e vendeu as mulas no mercado.

O chefe dos ladrões voltou para a floresta, furioso e indignado, disposto a se vingar de qualquer maneira. Depois, arquitetou um plano. Com riquezas tiradas da gruta, comprou tecidos finíssimos e abriu uma loja na cidade, fazendo-se passar pelo mercador Codja Hussan. A loja ficava em frente do estabelecimento que pertencera a Cássim e que agora era dirigido pelo filho de Ali Babá. O falso mercador pouco a pouco acabou por fazer com que o rapaz o considerasse seu amigo. O bandido muitas vezes o convidava para jantar.

Um dia, o filho de Ali Babá decidiu retribuir a gentileza, convidando Codja Hussan para jantar. Ali Babá se encarregou de preparar um grande banquete para o amigo do filho. No dia combinado, o bandido, chamado para a mesa, desculpou-se dizendo que não comia comida com sal, pois assim lhe recomendara um médico. Ali Babá, então, mandou que Morgiana não pusesse sal na carne que seria servida no banquete. A escrava ficou aborrecida e disse:

— Mas quem é esse homem que não come sal?

Intrigada, quando foi ajudar a levar os pratos à mesa, lançou um olhar muito atento para o convidado. De repente, estremeceu: era o chefe dos ladrões que desejava atacar seu amo! Por isso, não queria comer sal junto com ele... E imediatamente pensou num plano para salvar seu patrão.

Chegada a hora das frutas, Morgiana as levou junto com o vinho. O falso mercador pensava em seu plano: embriagar pai e filho e cravar um punhal no coração de Ali Babá.

Morgiana vestiu-se de dançarina, colocou um punhal no cinto e cobriu o rosto com um véu. Chamou um criado para tocar tamborim e os dois entraram na sala do banquete, pedindo permissão para se apresentarem. Ali Babá respondeu:

— Capriche, Morgiana, e faça o melhor que puder para entreter nosso hóspede Codja Hussan!

O hóspede fingiu estar encantado com aquela proposta que, na verdade, vinha atrapalhar seus planos. O criado pôs-se a tocar o tamborim e Morgiana a dançar com passos e movimentos delicados. Depois, a dançarina passou para um novo tipo de dança, a que mais agradou: tomou do punhal e com ele fingiu atacar um inimigo invisível. Por fim, parou e pegou o tamborim para pedir aos presentes um pagamento, como faziam os dançarinos profissionais.

Ali Babá deu-lhe uma moeda de ouro, e o mesmo fez seu filho. Quando chegou a vez de Codja Hussan, no momento em que ele pôs a mão em sua bolsa para pegar uma moeda, Morgiana mais do que depressa cravou o punhal em seu coração, matando-o. Ali Babá exclamou:

— O que você fez? Matou um hóspede, um amigo de meu filho. Isso será a minha ruína!

Morgiana, então, contou ao amo o que descobrira. Fez com que ele olhasse atentamente o rosto do falso mercador e reconhecesse o chefe dos ladrões. Mais uma vez, fora salvo pela criada. Agradecido, disse:

— Você me salvou por duas vezes; agora eu lhe concedo a liberdade. Mais: em recompensa por sua lealdade, você será minha nora.

Enterraram, então, o corpo do chefe dos bandidos e, dias depois, festejou-se o casamento do filho de Ali Babá com Morgiana, em meio a cantos, danças e muitas outras diversões.

Ali Babá demorou um ano para retornar à gruta, pois ainda não sabia que todos os quarenta ladrões estavam mortos. Depois de um ano, mais tranqüilo, voltou para lá. Diante da caverna, disse:

— Abre-te, Sésamo!

E a porta se abriu. Ali Babá notou que ninguém mais entrara na caverna; os ladrões, portanto, estavam todos mortos. Agora só ele sabia do segredo. Encheu alguns sacos com moedas de ouro e prata e voltou para sua cidade.

Com o passar do tempo, Ali Babá contou o segredo a seu filho e depois a seus netos. Ali Babá e sua família viveram o resto de sua vida na riqueza, naquela cidade onde um dia ele fora muito pobre.

Graças àquele tesouro, Ali se tornou um homem respeitado e honrado.

BRASILEIROS QUE CONVERSARAM COM SADDAM HUSSEIN EM BAGDÁ

Entrevista exclusiva com Sadan
 
Corria o ano de 1980 quando Toninho Drummond, diretor de jornalismo da Rede Globo em Brasília, teve a ideia de procurar o embaixador do Iraque no Brasil para conseguir uma entrevista com o líder iraquiano. O argumento usado por Toninho foi fatal: se Saddam Hussein queria ser um líder do Terceiro Mundo, precisava dar prioridade a uma televisão do Terceiro Mundo. E provou por A mais B que a Globo tinha todas as condições técnicas para transmitir a palavra do presidente iraquiano instantaneamente no mundo inteiro, tanto quanto a ABC, a NBC ou a BBC.
 
Meses depois, Toninho com o repórter Ricardo Pereira e o cinegrafista Benevides Neto desembarcavam em Bagdá. O que parecia uma missão relâmpago, virou uma angustiante e longa espera. Foram onze dias trancados no hotel. A temperatura na cidade era de 50 graus, verão brabo que não dava ânimo pra nada. A entrevista saiu no décimo primeiro dia.
 
A câmara, uma CP 16mm, pegava um rolo que tinha 400 pés de filme, o que dava para uns 12 minutos de gravação. Ricardo Pereira, que hoje dirige a Globo em Portugal, lembra que a entrevista consumia tempo porque ele fazia a pergunta em inglês, o intérprete traduzia para o árabe, o Saddam respondia em árabe, o cara respondia em inglês. A cada 12 minutos, o cinegrafista tinha que mudar o filme, na frente de Saddam Hussein, cercado de segurança, de metralhadoras. O cinegrafista suava, fazia um calor danado. E ele tinha que enfiar a mão dentro de um saco preto e trocar o filme. Na terceira troca ele, nervoso, não conseguia colocar o filme. Foi uma eternidade a espera. Finalmente, no dia 29 de junho de 1981, o Globo Revista exibe a entrevista exclusiva com Saddam Hussein, realizada no palácio presidencial em Bagdá. O presidente do Iraque falou sobre a paz no Oriente Médio, as eleições em Israel e sobre as relações do seu país com o Brasil. Disse que os países árabes precisavam ter a bomba atômica para conseguir equilíbrio de forças com Israel, mas negou que estivessem construindo uma.
 
Em 1990, às vésperas do Iraque invadir o Kuwait, o deputado federal Marcelo Linhares chega a Bagdá com os jornalistas Rangel Cavalcante e Luiz Solano, a convite do governo de Hussein. Rangel conta que o clima tenso e os rigores da segurança prenunciavam a guerra. Depois de alguns dias visitando os principais pontos da histórica Bagdá, são levados para uma conversa com Saddam.
 
No aeroporto , já de saída para Frankfurt, de retorno ao Brasil, os três brasileiros se espantaram com o aparato bélico. Soldados com metralhadoras e fuzis, controlavam tudo e a todos. A bagagem, depois de revista no check-in era colocada debaixo da asa do avião. Cada um abria a sua para uma revista final para só então ser levada para o porão do Jumbo. Enquanto aguardavam a hora do embarque, um segurança começou a implicar com o deputado cearense Marcelo Linhares, tio da jornalista Ana Felícia. Ele, com 1m80 de altura, elegantemente vestido, tinha porte europeu e deve ter despertado na cabeça do agente a suspeita de que podia ser um espião. Tomaram-lhe o filme e as pilhas da máquina fotográfica. Foi revistado mais de três vezes e o passaporte dele passava de mão em mão. Os policiais só falavam árabe, não dava para explicar que ali estava um convidado do governo. Foi aí que o jornalista Luíz Solano resolveu acabar com aquele constrangimento, com toda aquela hostilidade. Rangel conta que ele acenou para um guarda, que parecia ser o chefe da segurança, e chamou-o para um canto. Abriu uma pasta, tirou um papel de um envelope e mostrou. Pareceu um milagre. O tratamento mudou imediatamente. Os carrancudos seguranças passaram a sorrir e escoltaram os três ao avião, abrindo caminho, fazendo reverências, rendendo vassalagem.
As malas estavam no avião. Já a bordo, acomodados na primeira classe, bebendo um escocês, Marcelo e Rangel resolvem, então saber o que diabo o Solano tinha naquele papel que exibira ao agente iraquiano. Solano, sem falar, repetiu o gesto. Meteu a mão na pasta e mostrou o milagroso papel. Era uma foto em que os três apareciam ao lado de Saddam que os recebera em palácio no dia anterior. O Rangel diz que nunca viu uma foto valer mais que mil e uma palavras.
 
Saddam foi o líder da grande revolução iraquiana, que tirou o povo da miséria, resgatou sua milenar história, fez do Iraque um país moderno, nacionalizou o petróleo. Foi traído por Bush: ““Sou Sadam Hussein Al-Majid, presidente do Iraque” e “este tribunal é uma farsa de Bush, o criminoso, para ajudar sua campanha eleitoral”.
 
O velho aliado dos Estados Unidos dos anos 80 foi enforcado no dia 30 de dezembro de 2006. Saddam Hussein não aceitou que cobrissem sua cabeça com um capuz. Antes do enforcamento leu a frase de lei islâmica: “Não há outro Deus senão Alá e Maomé é seu profeta”. O Iraque nunca mais foi o mesmo.

REFEITÓRIO DOS FUNCIONÁRIOS DO VATICANO





segunda-feira, 6 de julho de 2015

PEDRO NAVA POR MONIQUE LE MOING

|Pedro Nava

João Soares Neto

 “Que somos nós!? Pronomes pessoais”. Mário de Andrade


Gosto de ler biografias. Agora, li “A Solidão Povoada” uma biografia sobre Pedro Nava, escrita, em 1996, em português, pela acadêmica francesa Monique Le Moing, para a sua tese de doutoramento.
Pedro Nava, mineiro de Juiz de Fora, era filho de Diva Mariana Jaguaribe, “moça de recursos”, e do médico cearense José Nava, membro da Padaria Espiritual, movimento fortalezense do fim do século 19. Nava nasceu em 1903 e viu seu pai morrer logo em 1911. A a sua primeira grande perda. Foi criado pela mãe Diva e pelos tios Alice e Antônio Sales, poeta e também padeiro espiritual.
Formou-se em medicina em Belo Horizonte e, em seguida, clinicou no oeste paulista. Aos 30 anos voltou ao Rio de Janeiro, onde havia concluído o ensino médio no Colégio Pedro II. Em 1942 casou-se com Nieta Penido. Com ela conviveu até a sua morte em 1984. Não tiveram descendentes.
Paralelo à sua vida como médico - dirigia clínica de reumatologia e era professor da Faculdade de Medicina no Rio - participava de papos com intelectuais tais como, os “sabadoyles”, na casa de Plínio Doyle. Da roda faziam parte, entre outros, Carlos Drummond de Andrade, Afonso Arino de Melo Franco e Joaquim Inojosa. Porém, Nava só começou a escrever literatura aos 70 anos.
O livro em análise é um trabalho sério de pesquisa, com a vantagem de ter sido escrito por uma não brasileira, o que pressupõe a isenção de Monique. Ela já havia - em sua tese de mestrado - dado a lume “O ciúme na obra de Machado de Assis e de Allain Robbe-Grillet: Dom Casmurro e La Jalouisie”, orientada pelo professor Silviano Santiago.
Monique justifica o caminho que tomou na biografia: “Uma polemica agitava então os meios intelectuais do Rio quanto ao fim de Pedro Nava: suicídio? Assassinato? Dizia-se que frequentava certos meios homossexuais do Rio de Janeiro e ninguém acreditava que ele fosse capaz de ter uma vida dupla, que tinha sido objeto de uma chantagem qualquer e compelido a um gesto de desespero. Meu interesse por seus escritos, incrementado pelo mistério que de repente envolvia a sua morte, assim como a recente descoberta dos arquivos, decidiram a orientação do meu trabalho”.
Ao meu olhar, bastaria Monique pesquisar a estreita ligação – e correspondência - de Pedro Nava com Mário de Andrade, nos anos 1920, para dar uma pista de sua preferência sexual. Foi Pedro Nava o autor das ilustrações do famoso livro “Macunaíma, um herói sem nenhum caráter”, de Mário de Andrade.
Sobre Mário, agora foi aclarada e publicada, se bem que de todos sabida, a sua homossexualidade. Monique, diga-se, foi, igualmente, a tradutora para o francês do livro de Mário de Andrade, “O Turista Aprendiz”, em que ele tenta compreender o Brasil, lapidar sua formação, narrar as suas peripécias, tirar fotografias, o que fez em duas viagens etnográficas ao norte e nordeste do Brasil, entre 1927 e 1929. Foi entre essas duas viagens que Andrade resolveu publicar “Macunaíma”, sua obra capital, em 1928.
Em ensaio da colunista Adriana Küchler, da revista sociocultural paulista “Serafina”, na Folha-SP, há uma declaração, talvez nova, sobre “Macunaíma”. Carlos Augusto Kalil, curador da Casa Mário de Andrade, diz que Mário quase copiou a obra “Vom Roraima zum Orinoco”, do etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg. E tem mais, na “bricolagem” usa trechos de Couto de Magalhães e até de Capistrano de Abreu.
Vou ficando por aqui, mas antes quero dizer que “A Solidão Povoada” é sólido em informações bem trabalhadas por Monique que, inclusive agregou ao texto o nome de todas as obras publicadas por Nava, incluindo poemas, trabalhos científicos e literários, memórias, prefácios, discursos, conferências, entrevistas, obras inéditas, correspondências – ativa e passiva –e, por fim, artigos escritos sobre médico/escritor, dentre eles, o do cearense Edigar de Alencar que o refere como “Um líder de inteligência nordestina”, por ele ter raízes cearenses.

Homenagem 80 anos Wilson Ibiapina