sexta-feira, 30 de março de 2012

Repito um velho conselho, cada vez mais válido, sobretudo pro Congresso: Quando alguém gritar “- Pega ladrão”, finge que não é com você.
Millôr Fernandes

B. DE PAIVA RECEBE TROFÉU NO CEARÁ



No dia 13 de março, por ocasião do reinício das atividades do Cine Clube Avenida, aconteceu a entrega do troféu “Pedra Furada” ao professor José Maria Bezerra de Paiva, conhecido nacionalmente como B. de Paiva.

Ator e diretor de teatro, B. de Paiva atua também no cinema e na TV. Sua ligação com o Cinema vem da adolescência em Fortaleza, quando chegava a assistir até cinco filmes por dia. Participou de várias produções cinematográficas cearenses e teve oportunidade de passar muito de sua experiência aos jovens atores e realizadores.

O troféu lhe foi concedido no “II Festival de Jericoacoara – Cinema Digital”, ocorrido em junho de 2011, ao qual não pode comparecer por problemas de saúde. 

B. de Paiva é certamente um dos artistas mais importantes que o Ceará já produziu. Merece portanto todo o nosso respeito e admiração.

AS "MENINAS" DE BRASÍLIA




Wilson Ibiapina

Elas estão em toda parte do Distrito Federal. Chegaram quando Brasília começou a ser construída. Nos anos 50 só existiam barracões nos acampamentos repletos de candangos. As famílias, nas cidades de origem, viravam saudade. O trabalho frenético para erguer a cidade em três anos e meio podia ter transformado a vida deles num inferno não fossem as “meninas”, uma fonte de diversão, que aliviava atensão.

E não foi preciso chamar Pantaleão Pantoja, personagem de Mario Vargas Llosa que, numa missão sigilosa, criou um serviço de prostitutas para atender as Forças Armadas do Peru que trabalhavam na selva amazônica.

Chegaram aqui atraídas pelo mercado de homens, que até hoje não para de crescer. Elas se estabeleceram no início da Cidade Livre, lá do lado de quem vem de Anápolis e Goiânia. Formaram a primeira favela que logo foi batizada de invasão Placa da Mercedes, uma homenagem a marca dos primeiros caminhões que chegavam carregados de materiais para a construção e de mulheres que pegavam carona em busca do Eldorado. É dessa época o diálogo entre um candango e uma dessas moças: “Você é de Pissirico, minha filha? Não, sou de Anapis.”

Quando surgiram os primeiros apartamentos e o Núcleo Bandeirante fervilhava de gente, as “meninas” já estavam instaladas no quilometro-7, na divisa do DF com Goiás. A chegada do DTUI – Departamento de Telefones Urbanos e Interurbanos (depois vieram a Cotelb e a Telebrasília), facilitou o contato com as prostitutas. Bastava discar para Madame Zu que ela promovia o encontro.

Com a transferência do Congresso Nacional, fato que esvaziou a noite carioca, a alegria contaminou a Capital. As moças pobres e ignorantes que no começo socorriam os candangos, perderam espaço para as concorrentes de luxo e beleza. Os políticos se divertiam no golden room do hotel Brasília Palace. Quando o hotel pegou fogo, já estava na moda o “Man's bar” do Hotel Nacional. Era lá que hóspedes, políticos, empresários, jornalistas e boêmios tomavam seus drinques ao cair da noite e encontravam graciosas meninas dispostas a fazer qualquer um feliz.

Como Brasília não tem cabaré, foi inevitável que casas fossem alugadas como pontos de encontro. Orlando Brito, o repórter fotográfico que viu Brasília nascer, lembra que a mais famosa era a Casa Amarela, que ficava no Lago Norte. A prostituição se banalizou de tal forma que qualquer promotora de festa pode ser confundida com cafetina. A cearense Jeanne Mary Corner, por exemplo,teve que explicar na Polícia Federal que não é cafetina. Ela foi citada como suspeita de agenciar garotas de programa para políticos envolvidos no escândalo do mensalão.

A revista “Meiaum”, editada em Brasília por Hélio Doyle, mandou a repórter Rafania Almeida ao Congresso. Durante três semanas ela conversou e observou. Na revista número 5, edição de agosto, ela conta que uma dessas garotas, usando crachá falso, chegou ao plenário da Câmara, onde “literalmente, fez o corpo a corpo com os deputados”. O contato é no Congresso, mas as aventuras são vividas na noite brasiliense. Os lugares favoritos são a casa de show Pathernon, no Setor de Indústrias Gráficas, e a boate do Hotel Bonaparte, na Asa Sul.

Uma delas contou à repórter da “Meiaum” que foi com um deputado nordestino que teve uma de suas noites mais inusitadas. Ela diz que o deputado puxou do bolso uma calcinha vermelha rendada. Achou que era presente. Ficou boquiaberta quando viu o deputado se despir e vestir a lingerie. A moça revelou que o parlamentar nordestino “desfilava pelo quarto como uma lady, andando na ponta dos pés”. Foi aí que descobriu que o papel dela naquela noite não seria o de mulher fatal e sedutora.

Uma outra foi bastante explicita ao revelar: “Se os políticos fizerem greve, nós quebramos as pernas”.

quinta-feira, 29 de março de 2012

FRANCIS REPERCUTE MILLÔR


Em 1964 (ou 1965), o Francisco Augusto Pontes, também conhecido como Chico Pontes, resolveu encenar a peça do Millôr "Do Tamanho de um Defunto". Juntou um elenco do bom: João Falcão, Misael Fernandes, Lurdinha Martins e o Ednardo "MileUm". Ensaiaram alguns meses, aprontaram tudo. 

Às vésperas da estréia, o Augusto desentendeu-se com todo o elenco (até hoje não sei porque), mandou tirar o nome do cartaz (como diretor) e transferiu a direção para o João Falcão. 

No dia da estréia, fui ver a peça  e sentei ao lado do Augusto. Acontece que, nos momentos mais engraçados, em que o pessoal mais ria, ele me catucava com o cotovelo e dizia: "esse João Falcão é um danado!!!" Só que as marcações eram dele, Augusto. 

A partir daí, o João virou personagem do Augusto. Ele inventava as histórias, dizia que era o João e quando as pessoas duvidavam ele dizia: "o João anda numa crise de criatividade enorme..." 

Em 1966, o Evanry resolveu produzir um  espetáculo, juntando a peça  a um show do Grupo Cactus e fazer um giro pelo interior. Foram a Iguatu, Crato e Juazeiro, se não me engano. Nessa excursão o Misael não pode viajar e  foi substituído pelo Zé Humberto. O Cactus era Rodger, Petrúcio, Renatinho (baterista), Nonato Freire e não me lembro o resto. 

A Lurdinha pode se lembrar de mais histórias. Acredito que foi a primeira peça do Millôr levada ao palco do Zé de Alencar. Em 66 ou 67, o B. de Paiva dirigiu "Liberdade, Liberdade", com Aderbal, Carlinhos, Eliete e mais outra atriz cujo nome não recordo.

Abs.Francis

REPERCUTINDO MILLÔR


Jornalista  Paulo José Cunha comenta a morte de Millôr:
 
Decorei o último verso da Criação do Mundo segundo Millôr, que provocou o fechamento do Pif-Paf, e ainda na semana passada disse num programa sobre a imprensa alternativa que fiz aqui:

"Esta pressa incontida demonstra o inconsequente: Por que criar o mundo em sete dias se tinha a eternidade pela frente?"

quarta-feira, 28 de março de 2012

O luto é grande: MORRE MILLÔR FERNANDES








Chico Anysio e Millôr Fernandes 
Assim fica tudo sem graça. Como se não bastasse o Chico Anysio, agora chamaram o Millôr Fernandes. O rei das frases de efeito, tipo “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem” ou “As pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades”. Ele se auto-definia “um escritor sem estilo”.

Certa noite, no Rio de Janeiro, eu conversava com o Aderbal Freire Filho no apartamento em que ele morava em Ipanema. Papo furado, aquele que vara a madrugada. De repente, um vizinho vai até a janela que ficava bem perto do apartamento onde estávamos. Nos olha e fecha a janela na base da porrada. O Aderbal perguntou: “Viu quem era?” Antes que eu respondesse, ele continuou: “Era o Millôr. Pronto, vai fazer charges e frases com os dois babacas que lhe acordaram de madrugada”. Foi só uma preocupação nossa. Ele sabia quem era o vizinho conversador e escapamos de sua fina ironia. Apenas dois chatos na madrugada, deve ter pensado. Chato, que ele definiu um dia como “o indivíduo que tem mais interesse em nós do que nós temos nele”.


Era pra ser Milton Viola Fernandes. Por um problema de caligrafia no Cartório Carioca foi registrado como Millôr, história que só soube adolescente. Desde pequeno disse a que veio. Aos dez anos de idade vendeu o primeiro desenho para a publicação O Jornal do Rio de Janeiro. Recebeu dez mil réis por ele. Em 1938 começou a trabalhar como repaginador, factótum e contínuo no semanário O Cruzeiro. No mesmo ano ganhou um concurso de contos na revista A Cigarra (sob o pseudônimo de "Notlim"). Assumiu a direção da publicação algum tempo depois, onde também publicou a seção "Poste Escrito", depois assinada por "Vão Gogo".
Em 1941 voltou a colaborar com a revista O Cruzeiro, onde por 18 anos assinou como "Vão Gogo" a coluna "Pif-Paf". Deixou a revista por conta da polêmica causada com a publicação de A Verdadeira História do Paraíso, considerada ofensiva pela Igreja Católica. A partir daí passou a conciliar as profissões de escritor, tradutor (autodidata) e autor de teatro. Além de escrever peças de teatro, textos de humor e poesia, traduziu, do inglês e do francês, várias obras, principalmente peças de teatro, entre estas, clássicos de Sófocles, Shakespeare, Molière, Brecht e Tennessee Williams.


Millôr Fernandes faleceu aos 88 anos no dia 27 de março de 2012 em decorrência de falência múltipla dos órgãos e parada cardíaca. Sua obra é extensa. Deixou três livros de poesias, quatro de artes plásticas, vinte e nove de prosa, entre elas Eva sem costela, – Um livro em defesa do homem (sob o pseudônimo de Adão Júnior) - Tempo e contratempo (sob o pseudônimo de Emmanuel Vão Gogô), Esta é a verdadeira história do Paraíso, -Trinta anos de mim mesmo, Livro vermelho dos pensamentos de Millôr, Devora-me ou te decifro, Millôr no Pasquim,  Reflexões sem dor, Novas fábulas fabulosas, Que país é este?, Todo homem é minha caça, Eros uma vez,  Humor nos tempos do Collor (com L. F. Veríssimo e Jô Soares), Millôr definitivo - A bíblia do caos, Tempo e contratempo (2ª edição), Millôr revisita Vão Gogô, Crítica da razão impura ou O primado da ignorância, Desidratada.

Sobre teatro ele deixa as seguintes peças em livros: Uma mulher em três atos - 1953, Do tamanho de um defunto - 1955, Bonito como um deus - 1955 e A gaivota – 1959, Um elefante no caos ou Jornal do Brasil ou, sobretudo, Por que me ufano do meu país – 1962, Pigmaleoa – 1965 Computa, computador, computa – 1972, É... – 1977, A história é uma istória – 1978, O homem do princípio ao fim – 1982, Os órfãos de Jânio – 1979, Duas tábuas e uma paixão – 1982 – (nunca encenada)
Teatro não editado em livro: Diálogo da mais perfeita compreensão conjugal – 1955, Pif, tac, zig, pong – 1962, A viúva imortal – 1967, A eterna luta entre o homem e a mulher – 1982, Kaos – 1995 (leitura pública em 2001 – nunca encenada).
Espetáculos musicais: Pif-Paf – Edição extra! – 1952 (com músicas de Ary Bizarro), Esse mundo é meu – 1965 (em parceria com Sérgio Ricardo), Liberdade, liberdade – 1965 (em parceria com Flávio Rangel), Memórias de um sargento de milícias - 1966 (com músicas de Marco Antonio e Nelson Lins e Barros), Momento 68 – 1968, Mulher, esse super-homem – 1969, Bons tempos, hein?! – 1979, Vidigal: Memórias de um tenente de milícias – 1982 (com músculos de Carlos Lyraseso), De repente – 1984, O MP4 e o Dr. Çobral vão em busca do mal – 1984, China! Outros 5000, Uma Pope Ópera (com músculos de Toquinho e Paulo César Pinto).

Algumas frases que Millôr Fernandes emplacou ao longo de sua vida:
Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor.

Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem.

De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência.

Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim
Inúmeros artistas contemporâneos não são artistas e, olhando bem, nem são contemporâneos.

Jamais diga uma mentira que não possa provar.

Machão não come mel - come abelha.
Acreditar que não acreditamos em nada é crer na crença do descrer.


domingo, 25 de março de 2012

O QUE DÁ PRA RI DA PRA CHORAR


Homenagem do artista Ayrton Rocha a Chico Anysio.

Passou a vida toda
Nos fazendo sorrir,
E agora nos faz chorar
Nos faz chorar com sua ausência
Onde a alegria de sua vida
Nos ajudou a viver
Momentos de felicidade
Nos mostrando e nos ensinando
Que o humor, além da alegria,
É uma arma forte contra as injustiças sociais,
A corrupção e poderes corruptos
Onde o seu humor alegre, bonito, elegante e talentoso
Era a voz do povo que o amava
Era a voz dos pobres e injustiçados
Que viam nele, o pai de suas esperanças
Era a voz do bom gosto
Era a voz de um sábio
Que veio ao mundo
Para trazer toda sua inteligência criativa e criadora
Mostrando para várias gerações
Que o riso, é a força do viver
E nos ensinando, que a solidariedade com os colegas mais velhos,
É simplesmente um ato de ternura.
E para os jovens iniciantes,
Com suas mãos generosas,
Ele mostrava como se estivesse pondo em prática
O pensamento de Mao Tse-Tung :
“O perfume das Rosas, não fica nas mãos de quem as recebe,
“E sim de quem as dá”.
Valeu Chico, você nos fez tanto ri
E agora, só nos faz chorar.
Chorar as lágrimas da tua saudade
E de sua eterna lembrança.

Ayrton Rocha

CHICO ANYSIO



Um minuto de risada no lugar de um minuto de silêncio para homenagear Chico Anysio, o artista maior que o Ceará deu ao Brasil.
Humorista, foi também compositor, cantor, escritor, artista plástico, comentarista esportivo, dublador. Atuou como ator em vários filmes e novelas.
Chegou ao Rio aos 7 anos de idade. Sonhava  ser advogado e jogador de futebol. Começou a trabalhar muito cedo. Aos 17 anos fez teste para locutor da rádio Guanabara e ficou em segundo lugar. Perdeu para Sílvio Santos. Foi na Guanabara, nos anos 50, que começaram a surgir os tipos que depois ele levou para a televisão.

O diretor Carlos Manga, para quem Chico Anysio já havia escrito 18 chanchadas da Atlântida, aproveitou o surgimento do video tape e propôs ao humorista gravar um programa com seus personagens. Surgia aí o "Chico Anysio show", a base dos outros programas que o comediante estrelaria na TV durante os anos seguintes.
Walter Clark conta no livro Campeão de Audiência que Chico Anysio foi o pioneiro da edição em vídeo tape. Não existia ilha de edição. Eles cortavam a fita do tape com gilete. Como não tinha como ver a imagem, se orientavam  pelo áudio, depois colavam a fita com durex.
Ao longo de seus 65 anos de carreira, Chico Anysio criou mais de 200 personagens e foi um dos maiores humoristas do Brasil. Se destacou no rádio, na TV, no cinema e no teatro.

No cinema começou no tempo das chanchadas da Atlântida, passou pela pornochanchada (O doce esporte do sexo) e participou de longas como a Hora e a vez de Augusto Matraga e Tieta, de Cacá Diegues, entre outros.
Compôs belas músicas como a Praça Onze gravada por Dalva de Oliveira; Rio Novo, Filha de Chico Brito, que foi gravado até por Elis Regina. Mas bonito mesmo é Rio Antigo. Veja a letra:

Quero um bate-papo na esquina
Eu quero o Rio antigo
Com crianças na calçada
Brincando sem perigo
Sem metrô e se frescão
O ontem no amanhã
Eu que pego o bonde 12 de Ipanema
Pra ver o Oscarito e o Grande Otelo no cinema
Domingo no Rian
Me deixa eu querer mais, mais paz

Quero um pregão de garrafeiro
Zizinho no gramado
Eu quero um samba sincopado
Baioba, bagageiro
E o desafinado que o Jobim sacou
Quero o programa de calouros
Com Ary Barroso
O Lamartine me ensinando
Um lá, lá, lá, lá, lá, gostoso
Quero o Café Nice
De onde o samba vem
Quero a Cinelândia estreando "E o Vento Levou"
Um velho samba do Ataulfo
Que ninguém jamais agravou
PRK 30 que valia 100
Como nos velhos tempos
Quero o carnaval com serpentinas
Eu quero a Copa Roca de Brasil e Argentina
Os Anjos do Inferno, 4 Ases e Um Coringa
Eu quero, eu quero porque é bom
É que pego no meu rádio uma novela
Depois eu vou à Lapa, faço um lanche no Capela
Mais tarde eu e ela, nos lados do Hotel Leblon
Quero um som de fossa da Dolores
Uma valsa do Orestes, zum-zum-zum dos Cafajestes
Um bife lá no Lamas
Cidade sem Aterro, como Deus criou
Quero o chá dançante lá no clube
Com Waldir Calmon
Trio de Ouro com a Dalva
Estrela Dalva do Brasil
Quero o Sérgio Porto
E o seu bom humor
Eu quero ver o show do Walter Pinto
Com mulheres mil
O Rio aceso em lampiões
E violões que quem não viu
Não pode entender
O que é paz e amor

Chico também foi artista plástico. Apaixonado pela pintura, retratou paisagens ao redor do mundo a partir de fotografias que tirava dos países que visitava. Realizou exposições de seus quadros em diversas galerias do Brasil e chegou a afirmar que gostaria de ter dedicado mais tempo à atividade.



No vernissage de Inspirações, na Proarte Galeria, na capital paulista, ao lado da mulher, Malga Di Paula,
o artista recebeu, entre outros vips, Tom Cavalcante e sua Patrícia
Como escritor deixa 21 livros, tendo publicado vários best-sellers na década de 70, como "O Batizado da vaca", "O telefone amarelo" e "O enterro do anão". Sua última publicação foi “O canalha”, lançada em 2000. Em entrevista à revista Época ele diz que é a história do cara que participou de todos os governos, desde Eurico Gaspar Dutra até o primeiro mandato de Fernando Henrique. Foi ele o responsável por todas as canalhices que ocorreram de lá para cá, como dar um revólver de presente a Getúlio Vargas.”
Outra de suas obras de destaque na literatura é o bem humorado manual “Como segurar seu casamento”, também de 2000. Na época, advertiu os leitores: “Não dou conselhos, transmito os erros que cometi e foram cometidos em cinco casamentos. Conviver é a arte de conceder. Essa troca de concessões gera a convivência harmônica”.
Livros de Chico Anysio

Estive com ele três vezes. A primeira nos anos 60, quando ele foi ao Palácio da Luz, em Fortaleza, fazer uma visita ao governador Plácido Castelo. A segunda foi quando cheguei ao Rio, em 1969, desempregado, ele me deu 200 cruzeiros. Peguei a grana e fui ao Cabral 1.500, na esquina da Bolivar com a Atlântica. Paguei a despesa da mesa onde bebiam diretores da Confederação Nacional da Indústria. Dias depois, o primo dele, Danilo Marques encontra-se com ele e pergunta por mim. – Tá fazendo relações públicas em Copacabana.
Nos anos 80 Chico foi fazer um show em Belém. Passou mal e foi internado. Eu estava também lá, cobrindo as eleições para Rede Globo. A  pedido do Rômulo Maiorana  fui ao hospital e disse que o dono da Tv Liberal estava  colocando um avião à disposição dele para levá-lo ao Rio. Ele preferiu continuar em Belém. Dizia que só teve um arrependimento na vida: ”Me arrependo enormemente de ter fumado durante 40 anos .
Chico Anysio foi, sem dúvida, o cearense mais genial. Colocou Maranguape no mapa do Brasil.
O corpo de Chico Anysio foi cremado domingo, 25 de março, no Crematório do Cemitério do Caju, Rio de Janeiro. Conforme o pedido feito em testamento, suas cinzas serão divididas em duas porções, sendo que uma ficará em uma floresta localizada atrás do Projac, no Rio de Janeiro, e a outra será enviada para Maranguape, sua cidade natal no Ceará.

terça-feira, 20 de março de 2012

UM RECANTO DENTRO DA NOITE

Wilson Ibiapina


O Lustosa da Costa pede que escreva sobre a boite Alabama, uma das primeiras a funcionar em Fortaleza. Me socorro do Narcélio Limaverde, o nosso Google.


Aí lembrei que aqui em Brasília moro na casa que o dono da boite, o Antônio Pompeu, construía para morar. Depois que vendeu a boite, Pompeuzinho mudou-se para Brasília. Antes de concluir a casa desapareceu da obra. Foi encontrado morto no apartamento que tinha na Asa Norte. Nunca se soube o que aconteceu. O carro dele desapareceu. Morte trágica para um homem que viveu parte da vida em meio à música, amigos e mulheres bonitas.

A boite Alabama ficava ali onde hoje é o hotel Esplanada. A freqüência era a mais refinada possível. Toda quinta-feira, o radialista Irapuan Lima transmitia pela rádio Iracema, direto da Alabama, “um recanto agradável dentro da noite calma”.

A rapaziada em Fortaleza, no inicio dos anos 60, freqüentava mesmo era as pensões do centro da cidade. A boite Alabama veio mudar o estilo de diversão da moçada. Na boite tomava-se um drinque, dançava-se ao som de uma boa música. Tudo na penumbra. Podiam levar à namorada. 

Paulo Tarso, que tocava um violão elétrico de quatro cordas, fazia o som com seu conjunto. Paulo havia participado dos Vocalistas Tropicais. O Carlos Alberto Cajazeira, que cantava também nos programas de auditório da Rádio Iracema, se apresentava quase todas as noites. Digo quase porque nas quintas a atração era Joran Coelho. Segundo o Narcélio Limaverde, Joran conquistava os freqüentadores da boite, principalmente quando cantava Molambo (“Eu sei que vocês vão dizer que é tudo mentira.”)

O garçon mais famoso era o Simbá. Era ele quem atendia os radialistas e jornalistas que apareciam por lá, todos lisos, mas cheios de boas intenções. O Antônio Pompeu tinha um quarto anexado à boite.

As paredes eram cheias de papeis e cheques. O Narcélio jura que eram os vales e cheques voadores dos radialistas e jornalistas que decoravam as paredes do local.

A boite fechou pressionada pelo progresso. No local foi erguido o hotel Esplanada, depois vendido e hoje passando por uma lenta e gradual reforma.

O garçon Simbá virou dono de restaurante na Beira Mar. O Pompeuzinho, em Brasília, montou uma loja de espelhos e molduras para retratos. A casa que era dele foi concluída por mim depois que a comprei dos herdeiros. 

Nostalgia regada a Cuba Libre.


Hoje, quando estou em casa nos fins de semana, vez por outra, preparo  uma dose de rum com coca-cola, que era a bebida da época, e coloco o disco da Elizeth Cardoso pra tocar. A faixa é Molambo, samba canção de Jaime Thomás e Augusto Mesquita que foi sucesso desde o momento em que foi gravado pela primeira vez em 1953. Fico recordando a boite Alabama, que marcou toda uma geração de fortalezenses. 



Fecho os olhos e parece que estou vendo o Pompeuzinho, todo solicito, olhando para todos os lados para ver se falta alguma coisa. É quando a voz da Elizeth vai mudando... aí começo a ouvir o Joran Coelho, com aquele bigodinho de ator do cinema mudo, cantando com aquele vozeirão: “... ficou pra matar a saudade/ A tremenda saudade que não me deixou....”

JUMENTO TIPO EXPORTAÇÃO


Com o recente anúncio de que os chineses pretendem importar 300 mil jumentos por ano do Nordeste, ainda no campo das intenções, os protetores de animais e defensores do jegue começam a ganhar espaço na internet e blogs em protesto contra a negociação.
No site Petição Pública, circula abaixo-assinado pedindo que os Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente vetem o que consideram ‘verdadeira carnificina’. ‘Por um tratamento digno aos jegues, que ajudaram a erguer muitas das grandes cidades nordestinas’, defende.
Já o site Acorda Cordel destaca ‘o massacre do jumento nordestino’, com o poeta Cancão de Fogo conclamando os parceiros a se mobilizarem em defesa do ‘nosso irmão’. Jô Oliveira o atendeu, propondo a campanha ‘Adote um jumento. O Menino Jesus lhe agradecerá’.
Os jumentos, companheiros do agricultor do semi-árido nordestino, começaram a ser substituídos pelas motos no trabalho de cercar o gado, buscar água e transportar materiais e pessoas, especialmente depois da política de distribuição de renda do governo federal e facilidades de crédito para compra do veículo.
Para o secretário adjunto de Agricultura do Rio Grande do Norte, José Simplício Holanda, a exportação para a China criaria nova cadeia econômica no Estado, ao mesmo tempo em que seria uma solução para os jumentos abandonados por donos de terra, que ‘fecham as porteiras ao animal’.
Em julho de 2011, o secretário assinou um protocolo de intenções com a Empresa Shan Dong Dong E.E. Jiao Co. Ltda., visando à criação do animal para produção, comercialização e industrialização da carne e derivados. “Por enquanto, nada há de concreto, só intenção”, adiantou Holanda.

VIVA A IRREVERÊNCIA CEARENSE! VIVA QUINTINO CUNHA!





Começou pela Internet uma campanha que pretende divulgar a memória de Quintino Cunha, precursor da molecagem cearense.

A preocupação de quem iniciou a campanha procede. Hoje, a maioria dos cearenses não sabe quem foi Quintino Cunha. Nem mesmo os moradores do bairro que leva o seu nome o conhecem.  Vamos divulgá-lo para que ele não caia no esquecimento.

CASA DE QUINTINO CUNHA EM ITAPAJÉ
O poeta Quintino Cunha nasceu em Itapagé, Ceará, em 1873 e faleceu em Fortaleza, em 1943. Emigrou para o Amazonas durante o ciclo da borracha onde passou a publicar seus textos nos jornais locais da época. Foi com o poema "Encontro das Águas” que o poeta ficou mais conhecido:

"Vê bem, Maria, aqui se cruzam: este

É o rio Negro, aquele é o Solimões.

Vê bem como este contra aquele investe,

Como as saudades com as recordações.



Vê como se separam duas águas,

Que se querem reunir, mas visualmente;

É um coração que quer reunir as mágoas

De um passado as aventuras do presente.

É um simulacro só, que as águas donas

Desta terra não seguem curso adverso.

Todas convergem para o Amazonas,

O real rei dos rios do universo;



Para o velho Amazonas, Soberano

Que, no solo brasileiro, tem o
Paço;
Para o Amazonas, que nasceu humano,

Porque afinal é filho de um abraço!



Olha esta água, que é negra como tinta;

Posta nas mãos, é alva que faz gosto;

Da por visto o nanquim com que se pinta,

Nos olhos, a paisagem de um desgosto.



Aquela outra parece amarelaça;

Muito, no entanto, e também limpa, engana;
É direito a virtude quando passa
Pela flexível porta da choupana.



Que profundeza extraordinária, imensa,

Que profundeza mais que desconforme!

Este navio é uma estrela suspensa

Neste céu d´água, brutalmente enorme.



Se estes dois rios fôssemos,
Maria,
Todas as vezes que nos encontramos,

Que Amazonas de amor não sairia

De mim, de ti, de nós que nos amamos..."

Quintino foi advogado, escritor e poeta. Bacharelou-se pela Faculdade de Direito do Ceará em 1909, e a partir de então começou a exercer a profissão de advogado criminalista.

Foi deputado estadual na década de 1910, mas logo desistiu da carreira de político e encabeçou a campanha do Bode Ioiô para Vereador de Fortaleza, fazendo o animal tirar votos suficientes para ser eleito, caso possível fosse.

Ficou bastante conhecido por seu estilo irreverente e carismático, também lembrado pelas anedotas que contava. É tido como o mais lendário de nossos humoristas literários, o maior de nossos poetas cults. Excêntrico sem ser esnobe. Feio, mas cativante. Eternamente esquecido, sempre resgatado, figura ao lado dos grandes mestres do improviso literário ferino, como Bernard Shaw, Quevedo e Swift, sendo considerado pelo crítico Agripino Grieco "o maior humorista brasileiro de todos os tempos”.

Menino ainda, Quintino Cunha foi convidado a passar uns dias das suas férias na casa de dois coleguinhas de colégio. Lá chegando, na Sexta feira à noite, foi muito bem recebido pelo dono da casa e pelos serviçais. Apesar disso, passaram-se as horas e nenhuma comida era servida.

Passou-se assim o sábado, no mesmo modelo. No domingo ele não aguentou. Com as tripas revirando de fome vestiu as calças pulou a janela , mas deixou um bilhete:

"Adeus casinha da fome
Jamais me verás tu

Aqui criei ferrugem nos dentes
“E teia de aranha no cu”.

Conhecido e até hoje contado pelos frequentadores da Praça do Ferreira, o causo da defesa do deficiente físico conhecido apenas como Francisco, apelidado de “Chico Mêi Cu”, foi uma das mais famosas proezas de Quintino Cunha.

Nos anos 20, um pobre deficiente físico, sem pai nem mãe, mancava pelas ruas do centro da pequena Fortaleza, onde fazia os biscates que lhe davam o pouco para o sustento. Encabulado, quieto e calado, aparentava não dar importância ao canelau que mangava à sua passagem: “Chico Mêi Cu!”, “Chico Mêi Cu!”, “Chico Mêi Cu!”. Foram anos de chacotas.

Certa feita, num ato de cólera, Francisco fez uso de uma peça cortante que transportava, e matou  um de seus mais ferrenhos mangadores. Foi detido e de imediato levado à cadeia pública, onde ficou por um tempo aguardando julgamento.

No dia do juízo, atendendo às súplicas dos que rogavam pela libertação de Francisco, em defesa deste, fez-se presente diante do Júri o renomado advogado Quintino Cunha. Após as interlocuções vigorosas da promotoria, que pedia condenação com pena máxima para o réu, o Juiz deu a vez da defesa, à qual Quintino deu início:

- Meritíssimo Juiz, Ilustríssimo Doutor Promotor, Respeitabilíssimos Jurados. Em defesa de Francisco eu tenho a dizer que... (Pausa).

Após alguns segundos de pausa, ele repete:

- Meritíssimo Juiz, Ilustríssimo Doutor Promotor, Respeitabilíssimos Jurados. Em defesa de Francisco eu tenho a declarar que... (Nova pausa).

Após os novos segundos de pausa, ele torna:

- Meritíssimo Juiz, Ilustríssimo Doutor Promotor, Respeitabilíssimos Jurados. Em defesa de Francisco eu poderia falar que...

De imediato o Juiz esbraveja:

- MAS QUANTA DEMORA! O SENHOR IRÁ OU NÃO DAR INÍCIO À DEFESA?

Ao que Quintino replica:

- Repare só, Meritíssimo: Não faz sequer um minuto que eu só me dirijo a vós de forma respeitosa, e já provoquei vossa inquietação. Agora imagine Vossa Excelência, o que deve ter passado pelas idéias do pobre Francisco, após todos esses anos de achincalhamento e mangoça pública.

Seguindo, Quintino Cunha deu continuidade ao discurso de defesa. E com toda a eloquência e poder de convencimento que lhes eram peculiares, conseguiu a absorvição do réu.

O filho dele, Plautus Cunha, conta num livro de anedotas do Quintino que um dia ele entrou numa repartição do governo - Comissão de Estradas e Rodagens. O tesoureiro, que no momento contava dinheiro, quis impedir a sua entrada.

- Não pode entrar, aqui é uma Repartição!

- Então cheguei em boa hora. Reparta comigo, diz o poeta.

Mas, o tesoureiro insiste:

- Doutor Quintino, isto aqui é uma comissão!

- Melhor ainda. Diz o poeta. - Quero "comer" também!

O renomado médico Álvaro Otacílio Nogueira, sempre ficava à espreita de algum deslize de Quintino Cunha. No meio de uma conversa entre vários intelectuais vislumbrou a oportunidade de jogar-lhe uma "casca de banana" e provocou o poeta dizendo:

- Quintino diz aí três dessas besteiras que tens mania de falar.

 Pausadamente Quintino respondeu:

- Álvaro, Otacílio, Nogueira.

Quem visitar o cemitério São João Batista, em Fortaleza, terá a oportunidade de ler esta inscrição em sua lápide:

“O PAI ETERNO,/SEGUNDO A HISTÓRIA SAGRADA/
TIROU O MUNDO DO NADA,/ E, EU NADA TIREI DO MUNDO”

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UM CEARENSE SURREAL

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