segunda-feira, 28 de outubro de 2013

MAIS UMA HISTÓRIA PALACIANA



EMERSON SOUSA

Coquetel na Confederação Nacional da Indústria, em Brasília, com a participação do presidente Figueiredo.

O presidente da CNI, Albano Franco, era o cicerone e anfitrião da comitiva presidencial. Depois dos salamaleques de praxe nessas ocasiões, integrantes da equipe de Figueiredo conversavam em pequenas rodas com empresários e políticos. Uísque e acepipes diversos eram servidos fartamente por garçons em trajes esmeradamente brancos.

Os repórteres que efetuavam a cobertura formavam um grande grupo na espreita de alguma autoridade desgarrada para comentar os rumos da economia, a produtividade industrial em queda e, o óbvio: política.

Lá pelas tantas, muitos uísques rodados e muita descontração, passa pelo grupo da imprensa, de volta do toalete, o general Moraes Rêgo, que tinha sido chefe do Gabinete Militar.

Atraído pelos chamamentos e pelo espocar dos flashes antes apenas dirigidos a Figueiredo, Moraes Rêgo se chega ao grupo sendo logo rodeado por mais de uma dezena de profissionais da imprensa.

A conversa começou com amenidades, passando por um pouco da cerimônia, economia e, por fim, indaguei dele do prestígio que Figueiredo gozava naquele período de início da abertura política, junto a seus companheiros de caserna.

Esse foi o ponto inicial que descambou para uma conversa memorável. Ele falou de resistências ao nome de Figueiredo na sucessão de Geisel. Perguntei como se deu isso e ele, sem em momento algum pedir off ou reserva, fez uma narrativa contundente e minuciosa.

Ninguém anotava, mas todos prestavam atenção na conversa que ocorria em grupo.

O general falou da ação desencadeada nos bastidores pela Comunidade de Informações então dividida em pró e contra Figueiredo. Muito dessa resistência decorria de Figueiredo ser General de Divisão, e não de Exército.

Moraes Rêgo citou a linha dura do oficialato sob o comando do então ministro do Exército, Silvio Frota, que resistia a indicação por postular ser o substituto de Geisel. Falou da posição divergente adotada pelos comandantes do 1º, 2º e 3º Exércitos no episódio e, lembrou até mesmo, que alguns setores do oficialato ameaçavam peitar o presidente Geisel.

Moraes Rêgo ressaltou a firmeza e teimosia do presidente Geisel em torno do nome de Figueiredo, principalmente por temer que outro nome da linha dura comprometesse e abortasse o processo de abertura política.

Nesse ponto ele abordou, de passagem, a demissão do Ministro do Exército, Sylvio Frota, por Geisel.

Esse fato teria ocorrido no gabinete presidencial quando Frota, numa tentativa de desestabilizar o presidente, convocou reunião no QG do Exército, o chamado Forte Apache, com todos os integrantes do alto comandante do Exército. O assunto: sucessão presidencial.

Numa manobra de enxadrista, Geisel determinou um procedimento que mantivesse esse oficialato isolado, sem comunicação entre si. E, em seguida, convocou esses mesmos militares, no mesmo horário, para uma reunião no Palácio do Planalto.

No aeroporto JK, militares de Geisel e de Frota, ambos da mesma patente, aguardavam os generais que chegavam numa disputa para dirigí-los ou para uma reunião com o presidente no Planalto ou com o ministro do Exército, no QG do Setor Militar Urbano.

Um detalhe foi marcante nisso: o militar enviado por Geisel era mais antigo que o representante de Frota e, na caserna, antiguidade é posto. Assim, ele foi mais convincente.

Depois do fracasso de Frota na convocação ele foi chamado ao Planalto. Nesse encontro Geisel e Frota, o diálogo teria sido curto e grosso:

“O senhor sabe por que está aqui?" Indagou Geisel.

Sem titubear Frota foi logo ao ponto crítico:

“Meu cargo está à sua disposição “, disse.

Geisel retrucou:

“Sempre esteve”.

E Frota:

“Então o senhor me demita”

E Geisel firme:

“O senhor está demitido”. E encerrou o encontro.

Moraes Rêgo não entrou em mais detalhes desse encontro. Mas admitiu manobras do general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil, favoráveis a Figueiredo e da oposição de Hugo Abreu, da Casa Militar, no processo dessa sucessão. Também este último queria ser o sucessor de Geisel. 

Já era bem tarde quando o coquetel foi encerrado. Com isso, eu tinha certeza que dificilmente algum colega faria matéria sobre a conversa.

No dia seguinte, eu e Memélia Moreira - também repórter da Folha e que estava no coquetel e havia participado da conversa - narramos o teor do encontro com Moraes Rêgo ao diretor da sucursal da Folha, Ruy Lopes, e nos sentamos para reconstituir o diálogo da noite anterior puxando pela memória. Nada tinha sido anotado.

Durante dois dias o assunto foi primeira página da Folha. Nenhum outro veículo noticiou a conversa.

No terceiro dia, o chefe da Redação, Haroldo Cerqueira Lima, o Leleco, de sua mesa no fundo da sala gritou para mim na outra extremidade: “Ligação para você”.

Eu atendi e uma voz forte e sonora do outro lado disse:

“Emerson? É o general Moraes Rêgo. Você sabe onde estou agora?"

Respondi: “Não general, não faço idéia”.

E ele: “Estou no QG, preso. Você me deu sete dias de cadeia. O que eu disse não podia ser publicado".

Ele se referia as normas da caserna que proibiam ao militar fazer publicamente manifestações políticas. Eu retruquei que sentia muito, mas destaquei que ele não tinha pedido qualquer reserva para a conversa. Lembrei a ele que a sua fala era um depoimento importante da história política que o país tinha vivido. Ele apenas ouviu.

Moraes Rêgo confirmou não ter pedido off e, já mais descontraído, foi extremamente correto. Disse que tudo o que eu e Memélia escrevemos correspondia à sua narrativa. Nada havíamos inventado.

Diante dessa bola que ele levantou, brinquei:
“General, o senhor quer que a gente leve cigarros?”

Ele riu e, mesmo preso, foi extremamente educado. Dias depois, um filho dele, engenheiro que morava em São Paulo, me ligou na Folha dizendo que o general queria falar comigo de novo.

Mas esse encontro nunca ocorreu.

DIA DO ADVOGADO


O jornalista Wilson Ibiapina e o advogado Ricardo Bacelar, vice presidente da OAB-Ce, durante sessão solene na Câmara, em Brasília, pelos 80 anos da Ordem dos Advogados do Brasil, no Ceará. 

HASTA LUEGO



Embaixador cubano deixa o Brasil


O restaurante Ki-Filé, na 405 Norte, parecia La Bodeguita del Medio, de Havana, lugar que há 70 anos era frequentado pelo escritor americano Ernest Hemingway, que dizia “Mojito em La Bodeguita e daiquiri na Floridita". Raimundo Vasconcelos e Roberto Cavalcante capricharam no atendendimento para que nada saisse errado naquela noite caribenha. Finalmente era a despedida do embaixador de Cuba no Brasil, Carlos Zamora Rodríguez. O jantar promovido por militantes de esquerda foi regado a mojito, daiquiri, cuba libre e muitos outros drinques feitos com rum Havana Club branco. Para quem gosta da bebida pura, era servido um Havana Clube Anejo Reserva. Ropa vieja, abacate, arroz congris ( arroz com feijão vermelho, cozidos na mesma panela) e muitos outros pratos das culinária cubana forravam a barriga dos convidados que também bebiam cerveja e tiravam gosto com banana verde frita que era servida em rodelas como se fosse batata frita.

Tudo ao som de salsas, mambos, merengues e boleros que só era interrompido para os discursos. O embaixador Carlos Zamora vai embora com a certeza do dever cumprido, principalmente por ter articulado a vinda dos médicos cubanos e por ter liderado uma perseguição à jornalista Yoani Sanchez durante a visita dela ao Brasil. Essas missões o embaixador considerou como estratégicas para o povo cubano.

MILAGRES DA VIDA




LUIZ FARA MONTEIRO

Estávamos no início de 2003 e minha mãe pediu uma carona até o Varjão, uma das comunidades mais carentes do Distrito Federal. O destino era inusitado. Mas eu nem fazia perguntas. Sabia que se tratava de uma visita relacionada aos seus conhecidos da igreja. A cidade tinha fama de perigosa e violenta. A medida que avançávamos pela avenida, pessoas nos olhavam desconfiadas. Alguns garotos de rua saíam correndo em disparada. Certamente para avisar a alguém que "estranhos" estavam na área. "Primeira e última vez que venho aqui", pensei. Ao chegarmos no endereço, um senhor baixinho aparentando sessenta e poucos anos nos aguardava na calçada. Ele vestia uma calça social surrada e camisa em igual estado. Os sapatos originalmente pretos, estavam amarelos de poeira e quase sem sola, de tão gastos. Os óculos de armação dourada com lentes grossas denunciavam problemas na visão. “Esse é o irmão Sebastião, meu filho”, minha mãe o apresentou.

Combinei com minha mãe que a deixaria lá, já que uma amiga dela chegaria de carro logo depois para a reunião de oração e a levaria de volta. Assim que fiz menção de me despedir, seu Sebastião veio até a porta do carro e pediu licença: “O senhor me dá 2 minutos para eu lhe passar uma mensagem?”. Meio sem graça, concordei. Ele então nos convidou para entrar no lote com 3 casas. Sebastião Morava nos fundos, num barraco de 2 quartos, sala e cozinha. Sentamos num sofá velho e duro, quase totalmente coberto por um lençol igualmente encardido pelo tempo.

Algumas madeiras do barraco estavam podres. Havia um buraco de meio palmo de diâmetro junto ao piso de terra. O dono da casa, a filha com a neta e os dois filhos adolescentes estavam vulneráveis a ratos e insetos. As telhas frágeis tinham alguns furos que destacavam a entrada da luz solar. Certamente conviviam com goteiras no período de chuva. Nos acessos aos outros cômodos, lençóis pendurados substituíam portas para oferecer um mínimo de privacidade a quem estava do outro lado.

Antes que os convidados chegassem, Seu Sebastião pegou a bíblia, pôs a mão sobre minha cabeça, e fez uma oração longa numa linguagem que lembrava o hebraico. Ao final passou o tal recado: “Deus está enviando um beija-flor que passará sobre seus ombros e te colocará sentado ao lado do poderoso”. E mais não disse. Como não esperava nada, não posso dizer que saí frustrado. Mas o conteúdo enigmático da mensagem fez com que eu me questionasse se não teria sido melhor recusar o convite do anfitrião e seguir meu caminho.

Estava no meu dia de folga e fui pra casa. Tinha prometido ao meu filho, então com 5 anos, que no final da tarde faríamos um piquenique no jardim. Ele viu algo parecido num filme e queria repetir a experiência em família. Minha mãe já estava de volta e, sentados no gramado sob a amendoeira ao lado da garagem conversávamos com tranquilidade. De repente um beija-flor dá um rasante sobre meu ombro direito. A presença daqueles pássaros na região não era novidade. Havia muitas árvores no condomínio e frequentemente eles batiam ponto. Mas voar tão próximo das pessoas, surpreendeu. Foi minha mãe quem me chamou atenção: “Você viu? Lembra do que o irmão disse?”. Antes que pudesse pensar em qualquer coisa, tocou o telefone fixo. Alguém atendeu e me chamou dizendo que era da Radiobras, a empresa brasileira de comunicação do governo federal, onde eu trabalhava. Levantei resmungando, já que era meu dia de descanso. Do outro lado, uma assessora da presidência da empresa foi direto ao assunto: “Seu Luiz, o senhor foi escolhido para apresentar o programa do presidente da República e deve ir imediatamente para o Palácio do Planalto”.

Levado pelo Wilson Ibiapina, comecei a trabalhar na Radiobras no dia 11 de setembro de 2001. Na verdade não trabalhei naquele dia. O clima na tv era de um formigueiro pouco antes da tempestade. Repórteres, produtores e editores corriam feito loucos de um lado pro outro para apurar informações e levar ao ar boletins sobre os atentados às torres gêmeas. Fiquei perambulando entre a redação e o estúdio, mas sem nenhuma função. Com exceção do Carlos Eduardo Cunha - o Cadú - a quem eu iria substituir, não conversei com mais ninguém.

Semanas antes do telefonema que interrompeu meu piquenique, fui convocado para uma reunião junto a outros repórteres e apresentadores. Eugênio Bucci, presidente da empresa, informou que a Radiobras seria a responsável pela produção do programa semanal de rádio do presidente Lula. Pediu sugestões de formato, e disse que escolheria um de nós para apresentar o programa. Era uma espécie de concurso interno. Achei que aquilo era um jogo de cena. Eu era novato e estava rodeado de pessoas muito experientes e conceituadas. Com certeza estava ali apenas pra fazer número e dar um caráter democrático ao encontro. Além do mais, eu não tinha nenhuma relação com o Partido dos Trabalhadores e muito menos com o presidente da República. Fui contratado na era FHC, quando Carlos Zarur presidia a empresa e João Carlos Gonzalez dirigia as TV's do grupo. Mas para não dar impressão de ter ignorado um pedido dos novos mandatários, bolei uma solução fácil para me livrar logo daquela tarefa. Lembrei que na 105 FM tinha um amigo que imitava o Lula com perfeição. O locutor Luiz Carlos Ximenes, que anos antes me levara para trabalhar na Rádio Manchete, topou fazer o papel de presidente enquanto eu formulava perguntas. Gravamos um excelente programa piloto sob a supervisão do operador de áudio Márcio Leal, o Bola. Segundo o Márcio, e só na cabeça dele, eu era o locutor que mais arranjava fãs na rádio, e por isso me chamava de Rei do Gado: "O programa ficou bom e 'o homem' vai gostar, Rei do Gado".

Entreguei o dvd para o Bucci. Era um embrião do Café com o presidente. Estávamos nos primeiros meses da administração Lula e o governo, é claro, tinha milhares de planos e projetos importantes para tratar. Semanas se passaram e eu nem lembrava mais do projeto. Quando ligaram para minha casa e ouvi o recado da assessora, comecei a rir sem parar. Não de felicidade, mas por puro nervosismo. Palácio do Planalto? Presidente Lula? Programa semanal com o homem? O que esses caras viram em mim? Coçei a cabeça e falei em voz alta: “Vai dar merda. Tô ferrado”.

Ao me dirigir ao Palácio, me ecoaram as poucas palavras do irmão Sebastião. “Deus está enviando um beija-flor que passará sobre seus ombros e te colocará sentado ao lado do poderoso”. Na época ainda pensei que fosse um aviso de que eu ia morrer em breve e "iria pro céu", apesar de achar que não merecesse. Mas a ficha caiu: “Ah, é o poderoso do Brasil, não o Criador, ufa!” Nos 5 anos seguintes me sentei ao lado do “poderoso” brasileiro. A convivência, as gravações e as viagens talvez serão contadas no futuro. O Fábio Ibiapina, filho do Wilson, que só me chama de "Lex", brinca constantemente comigo: "Lex, o Zarur é puto com o João Carlos até hoje por sua causa". E imita o ex-presidente da Radiobras dando o fictício esporro no João, que oficializou minha contratação: "Tá vendo, João, falei pra você não contratar aquele neguinho, o cara ficou famoso e foi servir ao PT, nos deixando na mão. E ainda tenho que dar explicações ao FHC".

No dia seguinte ao anúncio de minha nova função voltei ao Varjão para dar a notícia ao nosso amigo. “Me chamaram pra trabalhar com o presidente da República”, contei, esperando uma reação de surpresa dele. Foi como se eu tivesse dito que trabalharia com o seu Zé da mercearia. Sebastião achou a coisa mais normal do mundo e quis saber: “Ainda não te falaram da voz?”. Respondi: “Sim, sim, é com a voz, é o programa de rádio do Lula, mas não vou aceitar, não estou preparado”. Ele balançou a cabeça e disse: “Para com isso, cadê a sua fé, homem de Deus?” Tempos depois numa outra conversa, Sebastião me interrompeu e voltou a perguntar: “Ainda não te falaram da voz?”. E de novo respondi que sim, que era um programa radiofônico. “Tadinho, tá meio gagá”, pensei. No dia seguinte, ao chegar na empresa, fui convidado para também apresentar a VOZ DO BRASIL.

"Esse velhinho deve ter um informante muito bom lá na presidência”, pensei.

Em maio de 2007, o presidente da República foi a Londres para a reinauguração do estádio de Wembley, onde a Seleção enfrentaria os ingleses. Fui escalado para acompanhá-lo. O roteiro incluia India e Alemanha. Pela programação, de Londres eu seguiria direto para Berlin, onde aguardaria o retorno de Lula da India. Na Alemanha, o "P-R", como chamam o presidente, participaria como convidado de uma reunião do G8, os países mais ricos. Falei com Sebastião da viagem e sobre minha folga de 4 dias na Alemanha. “Estava mesmo precisando descansar”, eu disse todo feliz. “Não vejo você descansando nessa viagem não”, ele respondeu. “Ah, sim, claro. Deve ser porque vou farrear muito”, brinquei. Ele insistiu que não haveria folga. "Pô Sebastian, tá secando meu passeio, né?", reclamei. 5 dias antes do embarque, no domingo à noite, quando o presidente chegou no estúdio improvisado do Palácio do Alvorada para gravar o programa, me perguntou: “E aí, Lulinha, você vai pra India?”. Sem querer demonstrar o prazer pela folga na Alemanha, respondi meio em tom de lamento:

- Vou não, presidente!

- Porra, mas por quê”?

- Porque não tem vaga no seu avião.

Lula virou-se para seu chefe de gabinete e num instante acabou com minha felicidade: “Gilberto (Carvalho), põe o Lulinha no voo comigo”. Dei o sorriso mais amarelo da minha vida, e falei: "Ah, legal!". Adeus folga em Berlin. Sebastião acertou mais uma.

Anos mais tarde senti necessidade de buscar novos desafios. Comentei com Sebastião que queria deixar o jornalismo institucional. “Tem coisa nova vindo por aí. Você vai cruzar o oceano”, ele me disse. Imaginei tratar-se de outra viagem e não me animei muito. Mas não surgiu viagem alguma. Semanas depois, em dezembro de 2007, a TV Record me fez uma proposta para estrear o DF no Ar. Comentei com Sebastião. Ele só acenou positivamente com a cabeça. Gravei um piloto na quinta, 27, à tarde. Parecia tudo acertado. Viajei de carro no sábado, 29, para Angra. E pensei: “Desta vez ele errou, não vou cruzar oceano algum”.

Ao passar por Belo Horizonte, meu celular tocou. Era um emissário da Record:
- Estava vendo seu currículo. Ainda bem que você fala inglês, né?”
- Por quê?
- Porque depois de estrear o jornal em Brasília você vai pra África do Sul. Querem um correspondente para a Copa.


O tempo me mostrou que Irmão Sebastião era um homem com o dom da premonição. Demorei para entender como cabia tanta fé naquele homem sofrido, que vivia num barraco caindo aos pedaços, literalmente, e cheio de problemas pessoais: filhos adolescentes convivendo com más companhias, ex-esposa que o abandonou e levou tudo, energia cortada por frequente falta de pagamento. Ele acrescentava um "i" sempre que pronunciava a palavra "dificuldade". "Deus põe 'dificulidades' na vida pra gente crescer, meu filho. Quando é muito fácil, o tombo é grande. Temos que persistir e orar".

A cada visita que eu fazia, uma sensação de paz, conforto e força. Levei uma amiga certa vez. Ela gostou tanto que passou a frequentar sempre a casa do seu Sebastião. Comentei com ele que da primeira vez que fui ao Varjão, prometi a mim mesmo que não voltaria lá. "O homem é falho, meu filho. Só as promessas de Deus contam". E acrescentou: "O homem repara onde moramos, o que vestimos, o que comemos, quanto ganhamos. Mas pra Deus os critérios são outros. Presidente, médico, faxineiro, somos todos iguais". Certa vez cheguei chateado, dizendo que estava desmotivado por estar sendo mal aproveitado num determinado projeto. "Mas eles sabem que você é capaz. Quem está perdendo não é você, é o projeto. Paciência, homem".

Sebastião não vive mais no Varjão. Mudou-se pra longe. Ele é um exemplo de como ser perseverante. Para superar obstáculos tem só um segredo: "nunca desista", dizia. O senhor baixinho, que não passou da quinta série, sofrido, maltrapilho e sem dinheiro no bolso, mostrou que a fé remove montanha, guia beija-flor e consegue vaga para um simples mortal até em voo presidencial.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

PEDAÇOS DE CORAÇÃO



AYRTON ROCHA

“ A VELHICE NÃO É PARA COVARDES “  ( ÉDIHT PIAF )

Procuro em mim,
Pedaços do meu coração
Que se despetalou como uma Flor
Depois, que o Cravo a feriu
Procuro em minha alma
O porquê desta dor imensa
Que hoje me faz tanto sofrer
Procuro em meus olhos
As lágrimas da minha dor
Que um dia tanto chorei
Procuro em meus sonhos
A beleza da vida
Que um dia tanto vivi
Procuro em mim,
As ilusões perdidas
Que nelas, um dia acreditei
E que jamais vou encontrá-las
Procuro em mim
O sorriso da minha mocidade
Que hoje virou só saudade
Me deixando tão triste assim
Procuro em mim
As lembranças vividas
De um amor tão bonito
E que hoje me faz chorar
De tanto te amar
Procuro em mim
A beleza de teu rosto
Que tantas carícias eu fiz
Procuro em teu corpo nu
O frenesi do nosso amor
Que nos enlouquecia de paixão
Procuro em teu sorriso
Aquela doçura de tua pureza
Onde tua boca
Era o refúgio de meus beijos
Procuro lá dentro de mim
Por que, tudo ficou tão triste assim?
Procuro mais dentro de mim
A felicidade, que um dia
Em mim veio morar
E que não me deixa mais sonhar
Olho para bem dentro de mim
E só vejo a dor e a saudade
Juntinhos, chorando a minha dor
Hoje, nossos abraços
São ternos de angustia
Por não querer, nunca jamais nos perder
Olho para nós dois e vejo a velhice chegando
Nossas mãos se encontrando
E sem nunca querer dizer adeus

UM CEARENSE SURREAL

Wilson Ibiapina Darcílio Lima ainda jovem, no apogeu criativo O cantor e Compositor Raimundo Fagner, que também é pintor, foi quem lembrou-m...