sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

SONHOS DO ANO NOVO






Ayrton Rocha

“Sonhos. É preciso Sonhar. Mas na condição de crer em nosso sonho.

De examinar com atenção a vida real.

De confrontar nossa observação com nosso sonho.

De realizar escrupulosamente nossa fantasia. Sonhos acredite neles. “(Lênin)

Hoje eu quero sonhar dentro da vida Real.

Quero encontrar por aí Caetano Veloso com toda sua ''Alegria-Alegria''.

Quero ver o Gil num ''Domingo no Parque, mandando ''Aquele Abraço''.

Ver Chico Buarque na pracinha vendo a ''Banda Passar''.

O meu bom amigo, Tom Jobim, em grande estilo, esperando as ''Águas de Marços''.

O bom Poeta Vinícius num Bar em Ipanema dizendo o ''Soneto da Fidelidade''.

Encontrar Antônio Maria no Bar ''Rond Point'' em Copacabana falando baixinho sua ''Valsa de uma Cidade''.

Abraçar o Paulinho Soledade na sua boate Zum Zum e ouvi-lo dizer que ''Estão Voltando as Flores''.

Eu não quero encontrar o Fábio Júnior cantando o ''Pai Herói''. Meu Coração judiado já não suporta mais emoção.
Mas gostaria de cruzar na noite de Nova York com Norman Mailler escrevendo sobre o ''Bêbado Sério'':

''Um homem deve beber até que localize a verdade. Há uma obra de arte criada na maioria dos bêbados sérios.

Beber é uma atividade séria e quem o faz está tentando acabar com uma obsessão.

Existe na vida uma trágica ironia. Não adianta evitá-la''.

Também em Nova York num Pub com um piano suave, pedir ao Sinatra que cante só para mim ''Night and Day''.

Quero encontrar na madrugada do Rio o Pedro das Flores e confessar pra ele que ''Ontem senti na lapela a alma de uma flor que eu matei'' (Orlandino Rocha).

Ver o Picasso pintar ''Guernica'' ou escrever ''Pintar é liberta-se, e isso é o essencial''.

Neruda abraçado à seus ideais dizendo poemas.

Mao Tse Tung falando a mais pura e profunda verdade:

''O perfume das Roas não fica nas Mãos de quem as recebe e sim de quem as dá''.

''Van Gogh'' com todas suas perturbações pintando a suavidade dos ''Girassóis''.

Portinari retratando os tristes problemas sociais deste País.
Fernando Pessoa e suas ''Cartas de Amor''.

Drummond para suavizar nossas noites no alto das montanhas de Minas, botando no papel suas mais belas poesias.

Que bom encontrar Guevara lutando pelo seu ideal na ânsia da igualdade da raça humana.

Quero encontrar nas paredes do meu quarto e na suavidade de minha sala todo o sentimento e alma nas cores dos quadros do ''Ayrton'', o artista que eu vi nascer.

Quero encontrar minha Filha Fernanda numa constelação de estrelas, matar minha saudade, e com ela um dia ficar.

Dizer pro Milton Nascimento que também guardo muito bem guardado meus amigos no meu Coração.

E se eu ''Puder falar com Deus'', vou agradecer todo caráter, amor e dignidade de meus filhos.

E aproveito para pedir que eu possa continuar sorrindo para meus Netos.

Vou com certeza num fim de tarde encontrar Dolores Duran e lhe pedir a rosa mais linda que houver, porque hoje eu quero enfeitar a noite do ''Meu Bem''.

Um brinde do poeta Ayrton Rocha ao Novo Ano



O ADEUS A FÁVIO PARENTE




O Ceará acaba de perder Flávio Parente, pioneiro da radiodifusao cearense que ainda estava vivo. A história de vida dele se confunde com a do rádio no Ceará.

Wilson Ibiapina

Flávio Barreto Parente nasceu em Camocim há 89 anos. Deixa a viúva Aglair e cinco filhos, quatro mulheres e um homem. O arquiteto e compositor Fausto Nilo, casado com uma de suas filhas,  destaca a personalidade conciliadora de Flávio Parente. Estava sempre  contornando os problemas e nunca foi visto falando mal de quem quer que seja. Esse estilo que o Edilmar Norões exibe, sempre colocando água na fervura, desmanchando intrigas, aproximando pessoas, era também uma característica de Flávio Parente. Um boêmio, pertencia a turma do Mincharia. Era visto nas reuniões na casa da praia de Iracema. Durante anos teve como compaheiro inseparável o irmão mais velho José Parente. A corda e a caçamba. Unidos no trabalho e nos momentos de lazer.

Nos anos 40 os irmãos empresários, José e Flávio Parente, juntaram-se ao advogado Josino da Costa para abrir uma emissora de rádio que concorresse com a pioneira Ceará Rádio Clube, que desde 1931 reinava na radiofonia cearense. Zé Parente era gordinho, Flávio, mais esguio, era elegante e muito mais society. O radialista e escritor Narcélio Limaverde lembra que naquele tempo, o irmão Zé Parente era mais presente nos locais públicos, como o Tony's Bar, que o Figueiredão mantinha na praia de Iracema e que passou a ser chamado de Tomes Bala depois de uma briga que terminou com a morte de um fregues.


A Rádio Iracema entrou no ar em 1948 ao som da ópera O Guarany. O estúdio e o auditório ficavam no segundo andar e terraço do edificio Vitória, esquina das ruas Guilherme Rocha com Barão do Rio Branco.



O transmissor ficava na beira da praia, nas dunas do bairro Urubu e a emissora passou a ser ouvida também em alto mar. Flávio guardava uma carta-crônica que recebeu de Vinícius de Moraes onde ele conta que voltava da Europa, em agosto de 1953, quando nas proximidades da costa brasileira, conseguiu ouvir a Rádio Iracema: “... quando, dentro da noite a bordo, os dedos a revirar o dial do ondas-curtas, aguardava o primeiro balbucio de minha pátria como um pai à espera da primeira palavra do seu filho. O coração batia-me como batera um dia, à poesia sonhada, ou como um outra vez, diante de uns olhos de mulher.
- O Sr. Tem certeza de que isso é mesmo um ondas-curtas?
O camareiro norueguês, grande e tranqüilo, limitou-se a sorrir misteriosamente. Depois, humano, inclinou-se sobre o aparelho, o ouvido atento, e pôs-se a tentar por sua vez. As ondas sonoras iam e vinham verrumando a minha angústia.
Onde estava ela, a minha pátria que não vinha falar comigo ali dentro do mar escuro? Deus do céu! Seria mesmo o nome de Iracema? Era sim, porque logo depois chegou a afirmar-se, mas quase imperceptível, como se pronunciado por um gnomo montado em minha orelha. Era o nome de Iracema, da Rádio Iracema, de Fortaleza, a emissora dos lábios de mel, que sai mar afora, enfrentando os espaços oceânicos varridos de vento para trazer a um homem saudoso o primeiro gosto de sua pátria.

Adorável prefixo noturno, nunca te esquecerei! Foste mais uma vez essa coisa primeira tão única como o primeiro amigo, a primeira namorada, o primeiro poema. E a ti eu direi: é possível que o Padre Vieira esteja certo ao dizer que a ausência é, depois da morte, a maior causa da morte de amor. Mas não do amor à terra onde se cresceu e se plantou raízes, à terra a cuja imagem e semelhança se foi feito e onde um dia, num pequeno lote, se espera poder nunca mais esperar.”


A Rádio Iracema proporcionou outras alegrias e entretenimento a muita gente. Os irmãos Parente, em 1951 lançaram a primeira rede de emissoras de rádio genuinamente cearense. Era a Rede Iracemista, com emissoras em Juazeiro, Sobral, Iguatu, Maranguape.


O edifício Guarany, sede própria, foi construído na rua 24 de maio, na praça José de Alencar e inaugurada em 1954. Zé Parente e Flávio comandavam outros empreendimentos, mas foi como donos da Iracema que se consagraram na memória do cearense.


Depoimento

No dia 1º de fevereiro de 2013 Narcélio Limaverde vai completar 59 anos de atividade ininterrupta no rádio cearense, graças a Flávio Parente. Narcélio já estava aprovado em concurso para ingressar na Ceará Radio Clube, quando foi visitar a Rádio Iracema. Lá ele ouviu do diretor da emissora, Armando Vasconcelos, que desistisse, que não dava para o ofício. Flávio Parente discordou. Narcélio lembra: “Devo a ele essa simpática opinião, obrigando-me a ser de rádio. É bom ressaltar que, Armando muitos anos depois reconheceu que eu me tornei merecedor do nome de radialista."




domingo, 16 de dezembro de 2012

25 DE DEZEMBRO




Wilson Ibiapina

Contam que foi São Francisco de Assis o autor do primeiro presépio. Construiu para lembrar aos fiéis o ambiente em que nasceu Jesus. A Internet conta que São Francisco exibiu o presépio à meia noite, hora simbólica do nascimento do menino-Deus. Em seguida rezou uma missa. Como os galos cantam nas primeiras horas da madrugada, o povo chamou a celebração de missa do galo.

Foi em Ibiapina, na Serra da Ibiapaba, no Ceará, que conheci o Natal. A comemoração pra mim naqueles longínquos anos 50 se resumia à missa da meia noite. O frio da madrugada que fazia na serra levava todo mundo pra casa tão logo acabava a missa. Também não tinha o que se fazer na rua àquela hora. A lapinha era exibida cedo, antes da missa, na casa paroquial.

Meus pais nunca fizeram ceia natalina ou compraram presentes. Hoje, compreendo a falta de dinheiro daquele tempo. Tinhamos que nos contentar com os presentes que meninos vizinhos mostravam com orgulho na manhã seguinte. Como sabiam que nós lá em casa não ganhavamos nada, corriam para exibir os seus. E disputavam nossa opinião sobre o mais bonito, o melhor. Os brinquedos apresentados pareciam um sonho que só virava realidade na casa deles. Não conseguia entender esse Papai Noel tão bonzinho, tão mão aberta pra eles e tão pão duro pra nós.

Em 1955, ainda menino pobre, mas já morando em Fortaleza, curtia os brinquedos nas vitrines das lojas. O Natal chegava também através das emissoras de rádio. Lindas canções até hoje cantadas. Foi no rádio que ouvi o baiano Assis Valente cantando: "Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel..." Essa música me despertou para a grande diferença de classes. Milhares de garotos, como eu fui, continuam sem presentes, sem árvore, sem ceia.

Com o surgimento da televisão no Ceará, o Natal passou a ser coisa de se ver, também. Eram as festas das cidades, as comemorações dos outros e as propagandas chamando ao consumo. Foi quando a data passou a significar pra mim um apelo comercial, um "vamos às compras". Em Brasília, depois que casei, a Edilma começou a armar árvore de Natal no mês de novembro, marcando o início das comemorações. Minha neta Luiza transforma tudo numa grande expectativa para a noite de Natal. O 25 de dezembro em nossa casa passou a ter árvore, oração, troca de presentes, ceia. Participo, confraternizo mas, no fundo, a comemoração não tem nenhum sabor especial pra mim.

Deixei de acreditar em Papai Noel ainda pequeno, o que tirou qualquer emoção do Natal. Mas gostaria que não fosse apenas uma festa compartilhada pelos mais abastados, pela burguesia católica que nem lembra o verdadeiro sentido da comemoração criada por São Francisco. Mesmo assim, feliz Natal pra você.

É NATAL




As quatro idades do homem:
 
1. quando acredita em Papai Noel

2. quando não acredita em Papai Noel

3. quando é o Papai Noel

4. quando se parece com Papai Noel

sábado, 15 de dezembro de 2012

SONHOS DE NATAL





AYRTON ROCHA

''A intermitência do sonho nos permite suportar os dias de trabalho''. (Pablo Neruda)

Um dia eu tive um sonho.
Era noite de Natal.
A neve caía sobre as árvores, dando um encanto àquela noite de paz e de luz.
Através da janela de vidro do meu quarto, eu assistia a aquele espetáculo fantástico da natureza, vendo aquela neve cobrir a terra, transformando a escuridão da noite num clarão da Aurora.
Num clarão do dia.
Eu sonhava através da janela de vidro do meu quarto, que o mundo lá fora era de paz.
Não sei por que, mas a beleza e a suavidade da neve nos traz esta sensação. A sensação de que todas as pessoas, todos os homens que estavam do outro lado da janela de vidro do meu quarto, eram pessoas tão boas, com os mesmos meus sentimentos.
Com a mesma minha ternura.
Com o mesmo espírito de amor, de compreensão e de solidariedade à pessoa humana.
A sensação de que todas as pessoas que estavam do outro lado da janela de vidro do meu quarto traziam no coração o amor, a paixão, o respeito e a esperança que sempre tive em meu coração.
Que as pessoas do outro lado da janela de vidro do meu quarto tivessem as mãos estendidas num gesto de solidariedade a quem necessitasse como as minhas mãos que nunca se fecharam num gesto de amor, solidário e humano.
No meu sonho existia Papai Noel que surgia da neve triste, mas bonita, e entrava pela janela de vidro do meu quarto e que colocava sobre mim, na minha cama e sobre o meu sonho, um presente chamado esperança.
Com este presente chamado Esperança, eu via a beleza da natureza com seus lindos campos verde e suas cascatas que se transformavam em rios cristalinos banhando a terra verde, onde os animais pudessem viver livremente.
Onde os passarinhos tivessem os seus campos frondosos e pudessem cantar em liberdade as suas sinfonias que só eles conseguem compor.
Onde os mares banhassem as suas praias sem a poluição de mãos sujas.
Onde os peixes vivessem o seu mundo encantado de liberdade sem a invasão,
Ao seu meio ambiente.
No meu presente Esperança, as Rosas nasciam todos os dias.
Nenhuma pétala caía.
Nenhuma Rosa morria.
As crianças, todas eram felizes.
Porque eram amadas.
Porque eram respeitadas.
Elas podiam brincar com toda sua alegria, porque tinham brinquedos.
Elas podiam ler lindos livros, porque estudaram.
Elas podiam viver, porque tinham saúde.
Elas podiam amar, porque foram amadas.
Elas cresciam boas, porque nunca foram violentadas.
Elas viravam cidadãs, porque o Estado era governado por cidadãos honrados.
Por cidadãos que não roubavam as riquezas do Estado e do seu povo.
Por cidadãos que faziam as leis em benefício de todos.
Não dois tipos de lei:
A lei para o povo.
A lei para os que fazem as leis.
Os cidadãos que fazem a justiça, os julgadores, além de justos e honrados, davam celeridade a seus atos, não deixando a procrastinação alimentar os insetos e cupins, durante anos e décadas com os processos nos porões dos Tribunais, onde os homens, sem a quem mais recorrer, muitas vezes não viram fazer justiça, pois a morte foi mais rápida que a justiça que tardou.
Que as pessoas do outro lado da minha janela de vidro, onde eu via a neve cair naquela linda noite de Natal, fossem humanas.
Que não fossem os burocratas e tecnocratas da vida que, com uma maldade infinita, emperrando os nossos sonhos.
Que prejudicam ostensivamente, maldosamente e sem nenhum escrúpulo, o pouco de felicidade que tentamos construir.
São os burocratas e tecnocratas da inveja, do recalque, da mediocridade e da ganância, da maldade e da desgraça humana.
Burocratas que jamais fariam falta.
Pelo contrário.
O mundo, as pessoas, seriam mais felizes e menos sofridas se estes torturadores da alma humana deixassem de existir.
Um dia eu tive um sonho.
Era noite de Natal.
A Neve caía sobre o mundo, dando um encanto de paz e amor.
A Neve que caía sobre a janela de vidro do meu quarto, cobria a Intermitência do meu sonho, me permitindo suportar meus dias de trabalho.
Feliz Sonho.
Feliz Natal.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A FALTA QUE FAZ UMA REDE




Wilson Ibiapina

No Nordeste brasileiro tem gente que nunca dormiu numa cama. A rede de dormir, armada no quarto, é o utensílio doméstico mais usado, principalmente no sertão.

Escravos carregam senhor de engenho em uma rede



É usada também para o lazer, para enterrar mortos e como transporte no tempo do Brasil colônia. Os senhores eram carregados em redes pelos escravos. As primeiras portuguesas que chegaram ao Nordeste se apaixonaram pela rede e imediatamente armaram o utensílio indígena nas varandas de suas casas coloniais. Foram elas que também passaram fazer redes de algodão, com franjas. No Nordeste tem gente que usa a rede até para fazer sexo.


Rubem Braga registrou em crônica a visita que fez à cidade de Ibiapina, no Ceará. Passeando pela Serra da Ibiapaba chegou à Ibiapina no final da tarde e procurou a única pensão que existia na época. Foi recebido pelo dono, seu Alfredo, que era também o principal barbeiro do município. Quando ele abriu a porta do quarto, Rubem Braga tomou um susto. Um salão imenso, sem cama, sem armário, sem mesa, sem nada.

- Onde vou dormir?

Seu Alfredo ficou indignado e respondeu com outra pergunta:

- Você está chegando de onde?

- Do Rio, disse Rubem Braga.

- Você é um viajante relapso. Como é que vem de tão longe e não carrega sua rede?

Teve que ir ao mercado para comprar uma, senão dormiria no chão.

Hoje, o uso da rede está disseminado pelo país e pelo exterior. No Ceará, como dizia Jáder de Carvalho, “peça pousada que terás água fresca para tua sede e rede cheirosa e limpa para teu sono.”

Tem cearense que não consegue dormir em cama. É o caso de um jornalista de Fortaleza que em recente visitou Brasília e passou a noite sentado na cama, sem pregar os olhos. No dia seguinte, caindo de sono pediu-me para ajudá-lo a encontrar um hotel que disponibilizasse redes para os hospedes. Acredite, não existem aqueles ganchos, chamados armadores, nos quartos dos hotéis de Brasília. Nos mais de 30 que contactamos, os recepcionistas nem sabiam do que se tratava. Tem rede aí? - Que rede? Internet, temos.

Rede Globo? Não adianta trazer sua rede. Não tem como armá-la. O meu amigo conseguiu uma receita e foi pra cama à base de lexotan. Parece que a cidade não foi construída por uma reca de nordestinos.

Presente do amigo Macário Batista para minha esposa



terça-feira, 11 de dezembro de 2012

POR AÍ


A viagem dos sonhos...




E do sono...




NO TEMPO DO DR. BIÉ



Seu nome era Abner Brígido Costa, mas por esse nome ninguém o identificava, pois era conhecido como Dr. Bié. Grande cirurgião da Assistência Municipal, hoje IJF, tornou-se famoso por suas cirurgias rápidas e bem sucedidas e até comentava-se que havia recebido o famoso prêmio Bisturi de Ouro por sua excepcional performance. 

A ambulância, a única da cidade, era incansável, e quando passava conduzindo o Dr. Bié e bimbalhando blém, blém, blém, todos os carros e bondes paravam e já sabíamos que aquele socorro seria bem sucedido. Dr. Bié tinha uma personalidade multifacetada: médico, boêmio, carnavalesco, dirigente esportivo, professor da Faculdade de Medicina da UFC e amigo dos amigos. 

Fundou o famoso bloco "Mimosa Orquestra", que desfilava no carnaval pela Rua Senador Pompeu, com excelente banda de metais, sob os aplausos do povão e o incentivo das ricas famílias ali residentes. Era o endiabrado abre-alas do bloco, fantasiado e extravasando enorme alegria. Dr. Bié possuía uma perna mais curta que a outra, proveniente de uma doença na sua meninice, mas que não lhe trouxera qualquer complexo, muito pelo contrário. 

"Certa vez, uma mãe desesperada levou seu jovem filho à presença dele. O garoto de nove anos, febril, chorava de dores numa perna e esta parecia estar encolhendo, já tendo sido marcada a amputação. Mais que depressa, Dr. Bié suspende a cirurgia e inicia um tratamento que sabia obteria bom resultado. E, depois de dois meses sob sua dedicada proteção, o paciente se recuperou. Foi aquele menino, meu colega do Exército, hoje coronel reformado, que me deu esse testemunho e me apresentou àquele cidadão quando servíamos em Brasília. 

Desde então, Dr. Bié, de quem sempre ouvira falar, ganhou um novo amigo. Naquela época, ele foi morar em Curitiba e eu vim para Fortaleza. Alguns anos depois, encontrei-o nesta cidade. Estava triste, pois perdera a esposa que muito amava. Dali em diante, nunca mais foi o mesmo. Encontrava-o quase diariamente com amigos no Center Um, mas sua alegria contagiante ia se desvanecendo. Faleceu em 2003 e seus restos mortais foram guardados no Cemitério São João Batista.

Rui Pinheiro Silva
coronel reformado do Exército

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O DIA MAIS FELIZ




Hebe Camargo, eterna musa do rádio e da TV no Brasil, tinha plateias muito fiéis. Num período, na TV, em todas as gravações de seus programas estava presente um tal Joaquim, homem vibrante, que chegava cedo e ocupava sempre o mesmo lugar, na primeira fila do auditório.
Um dia, porém, já no início das gravações, muito atenta, Hebe sentiu a falta do fã. Na primeira chance que teve, pediu ao pessoal da produção que investigasse o que teria ocorrido. Logo depois, veio a informação de que Joaquim não tinha ido naquele dia porque sua mãe havia falecido e ele estava no velório.
Hebe ficou chocada. Mas, já de posse do endereço do velório, mandou chamar seu motorista e zarpou rumo ao evento, que ocorria bem longe, na periferia de São Paulo.
Ao chegar, era uma casa simples, onde ela encontrou um aglomerado de gente do lado de fora. Lá dentro, a cena normal, com velas e flores, e a defunta estendida dentro de um caixão, sobre cavaletes improvisados.
Ao fundo, em pé, junto à cabeça da defunta, estava Joaquim, constrito, cabisbaixo, recebendo abraços e tapinhas nas costas, como é costume.
Hebe se esgueirou pelo aglomerado de gente até que adentrou a sala, o pequeno cenário daquele drama. Sentindo a movimentação, porém, Joaquim levantou a cabeça e, ao avistar a visitante, mudou o semblante, ergueu os braços e bradou:
-- Este é o dia mais feliz da minha vida!!!

(É pura verdade, segundo Rolando Boldrin, amigo de Hebe).

domingo, 9 de dezembro de 2012

O AMIGO SOLIDÁRIO QUE TINHA MEDO DA MORTE



Oscar Niemeyer será eterno. Quem deixa mais de 500 obras espalhadas pelo planeta não morre nunca.

Wilson Ibiapina

O lado humano de Oscar Niemeyer engrandece mais ainda o genial arquiteto que ele foi. O ativista político, que ajudava os amigos e os colegas de partido, tinha um coração grande e solidário. Foi comovente a viúva de Carlos Prestes, na televisão, contando que o marido ao voltar do exílio, sem emprego, sem nada, ganhou de Oscar um escritório para trabalhar e um apartamento para morar. Ajudava quem o procurava. Na sua modéstia, dizia que “urbanismo e arquitetura não acrescentam nada. Na rua, protestando, é que a gente transforma o país.”
Era um gozador que tinha medo de avião. Só andava de automóvel ou navio. Nas suas constantes viagens a Brasília, na época da construção, procurava sempre companhia, para não viajar só. Paulinho Jobim, filho de Tom, contou na TV que um dia Oscar Niemeyer encontrou um amigo na rua, de bermuda, indo pra praia. Parou o carro e convidou-o para acompanhá-lo na visita a uns terrenos, ali perto, coisa de algumas horas. O inadvertido amigo entrou no carro e veio parar em Brasília. Voltou ao Rio quinze dias depois vestido na mesma bermuda.


O poeta das curvas e do concreto gostava de conversar. Molhava a palavra com boas doses de uísque puro, sem água e sem gelo, à moda cowboy. Foi tomando uns goles que nos aproximamos. Nos conhecemos num almoço que terminou à noite no apartamento do ministro Luciano Brandão, aqui em Brasília. Quando tentei ir embora, alegando que estava tarde e que minha mulher estaria preocupada, ele disse: 
- Fala que estava aqui comigo.
- Então faça um bilhete, pedi.
O ministro Luciano trouxe papel e caneta. Ele escreveu, guardei no bolso e continuamos conversando. Cheguei em casa tarde, a mulher já dormia. A bronca veio na manhã seguinte, quando me lembrei do salvo-conduto. Estava lá: “Edilma, aprendi muito com o seu marido. Oscar”. Claro, coloquei num quadro.

Em entrevista à Folha, em 1984 , falando sobre a construção de Brasília, ele disse: “Quando cheguei lá, a terra era agreste. Tomávamos caipirinha, ríamos, todos juntos, operários, engenheiros; dava a sensação de que o mundo seria melhor. Quando inaugurou, veio a muralha separando pobres e ricos, e Brasília virou uma cidade como as outras.”
Oscar Niemeyer tinha medo da morte. Um dia ele perguntou ao físico nuclear Ubirajara Brito, seu amigo, como seria o fim do mundo. O físico fez uma exposição rápida sobre o esfriamento do planeta, mas fez questão de ressaltar que tal catástrofe só ocorrerá daqui a milhares de anos. E Oscar, preocupado: “quer dizer que estamos fritos, né Bira?”

Ele mesmo escreveu: “O problema da morte sempre me acompanhou e a ideia de desaparecer me angustiava. Com tristeza, ainda menino, imaginava que de um dia para o outro não mais veria meus pais e irmãos, as montanhas, rios, mares do meu país. Pensamento que com o tempo se tornaram mais frequentes nas minhas solidões.”




terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O ALFAIATE DE HITLER

Hugo - Conhecido como o alfaiate de Hitler


A história está no Google e rola na Web. Chamava-se HUGO; alemão, beirava os 40 anos quando fundou em 1923, em Metzingen, a cidadezinha onde nascera, pequena loja de confecções. Seu objetivo era fabricar roupas para trabalhadores. Seis anos depois abriu falência. Os seus planos quase que não deram certo com o início de uma crise na Alemanha no período da Primeira Guerra Mundial. 
Desesperado, em 1931 ingressou no Partido Nazista – e aí sua vida mudou para melhor. Fornecedor exclusivo dos uniformes negros das SS  (Schutzstaffel), da Juventude Hitlerista e de outras agremiações nazistas ( sempre muito preocupadas com a elegância), ganhou milhões entre 1934 e 1945. Para dar conta das encomendas, a solução foi apelar para a mão de obra – compreensivelmente baratíssima - dos prisioneiros de guerra. Após a derrota do III Reich, foi levado aos tribunais mas pegou penas brandas, condenado a indenizar as famílias dos trabalhadores forçados. 


O nome completo do homem era HUGO FERDINAND BOSS,  HUGO BOSS.  Ele morreu  em 1948. Mas os negócios  continuam vivos.


TRADUTOR DO ECONOMÊS E AUTOR DA PLACA DO GOL



Joelmir Beting

 
Wilson Ibiapina
 
Joelmir foi o jornalista que descomplicou a notícia, principalmente a de economia. Tinha um maneira toda sua de passar a informação num texto lapidar.

Muita gente não sabe  que o paulista de Tambaú, Joelmir Beting, antes de ficar famoso como comentarista de economia consagrou-se como cronista esportivo. Foi como repórter esportivo que  iniciou a carreira jornalística. Trabalhou nos jornais O Esporte e Diário Popular. Trabalhou tambem na JovemPan, na época rádio Panamericana

Numa das retrospectivas que a BandNews apresentou sobre sua vida, ouvi o próprio Joelmir contar como marcou seu nome na história do futebol. Era março de 1961. Santos jogava no Maracanã contra o Fluminense. Ganhou de 3x1, sendo que um dos gols foi marcado por Pelé. O Rei driblou seis jogadores do tricolor e fez o gol que impressionou a todos, inclusive o jovem repórter. Ele começou a pensar como imortalizar aquele momento, já que não tinha foto nem filme. Surgiu a ideia de mandar fazer uma placa para colocar na entrada do estádio: “Neste estádio Pelé marcou no dia 5 de março de 1961 o tento mais bonito da história do Maracanã”.


Ele contou que o autor do gol de placa é o Pelé. E fez a frase com o humor que ele carregava: “Nunca fiz um gol de placa, mas fiz a placa do gol”. A partir daí a expressão “gol de placa” ganhou a boca de tudo quanto era locutor esportivo, popularizando Joelmir.

Contou também como foi a troca do esporte pela economia. Segundo ele, aconteceu durante um jogo do Corinthians contra o Palmeiras. Durante a transmissão pela Rádio Panamericana,  ele não se segurou e comemorou um gol alviverde, mandando bananas com os braços para a torcida corintiana. Graças a interferência da polícia a torcida não invadiu a cabine da rádio para agredí-lo. O episódio serviu para que percebesse que sua paixão pelo Palmeiras poderia interferir no seu trabalho. Na redação pediu demissão, mas a direção não aceitou. Mesmo assim, ele foi embora e nunca mais voltou.

Joelmir começou sua nova trajetória no jornalismo econômico. Em 1968, entrou na Folha de S. Paulo como editor de economia, e desde então tornou-se referência no assunto. Além dos jornais, Joelmir fez comentários nos telejornais das redes Globo e Band. Escrevia com graça e leveza. Traduzia tudo do economês para uma linguagem simples. Revelou que se a mãe dele entendesse o texto, estava bom, dava pro povão entender. Desenvolveu um estilo. Além de usar palavras compreensíveis, Joelmir recheava seus comentários e colunas de frases e bordões tipo “Quem não deve, não tem”. 

Quando o Paraná perdeu a posição de grande produtor de café para Minas Gerais ele escreveu: Isso ocorreu porque em Minas o macuco pia, e em terra que o macuco pia, não gia.”

Luiz Ernesto Kawall, seu grande amigo, lembra que Joelmir viveu sempre inteligentemente entre nós e viajando pelo mundo. Sem esquecer sua máxima: “na prática, a teoria é outra”, título de um de seus livros. Outro livro: Os Juros Subversivos. Deixou a viúva, dois filhos e muitos amigos e seguidores da sua  escola de jornalismo que descomplica a economia. 


HEBDOMADÁRIOS CEARENSES

  Wilson Ibiapina Jornais de pequenas cidades do interior do Ceará, principalmente no século passado, sempre se manifestavam em defesa de ca...