segunda-feira, 31 de março de 2014

RIVALIDADE


O marechal cearense Juarez Távora era ministro da Viação no governo de seu conterrâneo Castelo Branco. Um dia, ele inspecionava obras no Rio Grande do Norte quando recebeu uma delegação de líderes do estado. Um deles foi logo reclamando: 

- Ministro, pedimos a construção de um grande açude aqui no Rio Grande do Norte. Como o sr. Sabe, estamos em desvantagem com o Ceará. Lá, existem 19 açudes. Aqui, só temos 18.

O marechal vendo a rivalidade aflorando entre os dois estados, replicou: 

-Não tem problema, meu amigo. Eu mando arrombar um açude no Ceará e fica tudo empatado.

O INFILTRADO



Delfim Neto


Carlos Chagas, em 1969, era presidente do Clube dos Repórteres Políticos. Convinda o ministro Delfim Neto para um almoço-entrevista. De repente, em meio ao almoço, o jornalista Berilo Dantas pede a palavra: - Sr. Ministro, quero comunicar ao senhor que aqui se acha um  agente político do DOPS. Ele está anotando todas as perguntas e respostas que o senhor nos dá. Constrangimento total. O silêncio foi quebrado pelo ministro: – Por que você não convida o rapaz para almoçar?.

SEM SAÍDA




O deputado Cláudio Philomeno, do PDS do Ceará, conversa com o presidente Figueiredo, em audiência no Planalto, em maio de 1983. Num determinado momento, Figueiredo disse:

- Sabe por que não faço eleição direta já? Porque quem vai sentar alí (apontou para a cadeira presidencial) vai ser o Brizola.

O deputado falou: - Pois, se ele for eleito presidente, me mudo do Brasil.

Figueiredo sorrindo: - Você  pode fugir. E eu? Ele vai me encontrar aqui na posse. (contado por Dário Macedo no livro Do Alto da Torre).

NO TEMPO DO GOLPE


A explicação do Chanceler

Quando o presidente Costa e Silva adoeceu, o vice Pedro Aleixo não assumiu. Magalhães Pinto, ministro das Relações Exteriores foi às Nações Unidas, em Nova Iorque, para participar da assembleia geral da ONU. No plenário todo mundo querendo saber notícia do Brasil. O poderoso secretário de estado americano Dean Rusk, perguntou a Magalhães Pinto por que o vice presidente Pedro Aleixo não assumiu. A resposta de Magalhães Pinto entrou para o folclore político do país. Magalhães disse que não é nada de mais isto ocorrer no Brasil. E explicou: A legislação de vocês, americanos, difere da legislação brasileira. Nos Estados Unidos o vice assume mas não substitui. No Brasil, o vice substitui mas não assume.

50 ANOS




O golpe militar de 64 está completando meio século. João Goulart estava na China quando Jânio Quadros renunciou em 1961. O vice retornou ao Brasil e teve que encarar um regime parlamentarista. Adotou discurso considerado de esquerda e foi derrubado em 64. Durante o regime militar que durou até 1985, muita coisa aconteceu no país, inclusive essa historinha:


O jornalista Blanchard Girão era deputado estadual de esquerda quando estourou o golpe militar. Foi preso e a mulher, Cleide, entrou em parafuso. Começou a correr atrás de advogados, amigos e autoridades para libertar o marido. O tempo foi passando e ela apelou até para Deus. Começou a rezar pedindo a liberdade do marido. Demorou tanto a prisão que um dia ela entrou em desespero: “Meu Deus! mande soltar meu marido. Será que você não vai ouvir as minhas preces, Senhor?

Aí ela ouviu o filho de uns 8 anos acalma-la: Mãe, chore não. Deus vai lhe ouvir. Demora mesmo, mãe. O céu é muito alto”

NÃO ERA SUA VEZ

O ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros, aderiu ao golpe de 64 na última hora pensando em tirar proveito. Achava ele, segundo a  Veja que está nas bancas, que seria implantado um triunvirato: um general, um ministro do Supremo Tribunal Federal e um civil, que seria ele. 

Acreditava que em seis meses, diante de divergências entre os três, ele seria o chefe da nação. Dois anos depois estava cassado. Morreu em 69 de um ataque cardíaco. A revista lembra que, quatro meses depois, dois elementos da Vanguarda Armada Revolucionária roubava um cofre com 2,5 milhões de dólares que estava guardado na casa de uma amante de Adhemar, no Rio. A ação armada foi comandada por Carlos Araújo com o apoio de retaguarda de sua companheira e namorada Dilma Rousseff.
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O NÃO DE VT

Em Fortaleza, véspera do golpe, estudantes  conseguem uma audiência com o governador Virgílio Távora, no Palácio da Luz. Queriam permissão para fazer o “enterro” de Lincoln Gordon. Fazendo cara de surpresa, o governador pergunta: - O embaixador americano morreu?" 

- Não, governador, será um enterro simbólico. 

- Permissão negada. No meu governo só enterramos os mortos.


NÃO DEU PARA RESISTIR

Naquela noite de 31 de março a rádio Dragão do Mar, de Fortaleza, não saiu do ar. Nazareno Albuquerque, Gamaliel Noronha e eu seguramos a programação com entrevistas e  notícias que captávamos de emissoras do Rio, São Paulo, Brasília e Porto Alegre, onde estava Leonel Brizola. Já era dia primeiro de abril quando o operador Orlando Braga olha da varanda, no primeiro andar do prédio da rádio, na avenida do Imperador, e vê soldados do Exército desembarcando de caminhões que fechavam o quarteirão. Ele foi  lá  no  estúdio e nos disse: “temos visita”. A rádio foi retirada do ar e alguns de nós detidos. Orlando Braga atende uma última chamada telefônica. Era um assessor do deputado Moisés Pimentel, de Brasília, pedindo para a Dragão entrar em cadeia com a Nacional, onde ele ia fazer um pronunciamento.  Diga ao deputado, disse Orlando, que aqui já estamos todos na cadeia.

ÚNICA SAÍDA

Quando o país lembra o aniversário da ditadura, eu lembro o  que aconteceu com Durval Aires, jornalista, poeta, compositor e amigo dos amigos. Ele era editor chefe de um jornal em Fortaleza quando foi convidado para visitar Cuba.  Na volta, o golpe militar no Brasil. Durval vai preso, justamente por ter visitado a ilha de Fidel. Queriam saber de suas ligações com o regime, quais os planos. A mulher dele, dona Alberice , vai visitá-lo no quartel militar, onde estava preso. Leva pijama, escova e pasta de dente. Na  aflição dessa primeira visita, joga na sacola a primeira toalha que encontrou no roupeiro. Depois da visita, Durval vai abrir o pacote. Quase desmaia ao ver lá a toalha com a bandeira de Cuba, que ganhou em Havana. Foi sua preocupação nas semanas seguidas. Todo dia, mordia um pedaço da toalha, puxava os fios com os dentes, cuspia no vaso e dava descarga. Uma verdadeira operação de guerrilha. Fez isso até desmanchar a única prova material que tinha de sua visita à Ilha.

quarta-feira, 26 de março de 2014

AS GATAS DE BRASÍLIA


Quando cheguei  a Brasília nos anos 70, as gatas que circulavam na cidade eram as meninas de programa que vinham de Goiânia, Anápolis, e das cidades mineiras do entorno.

A gata propriamente dita, (Felis silvestris catus), também conhecido como gata caseira, animal da Família dos felídeos,  era escassa no planalto central.

Diziam que os bichanos não se adaptavam à baixa umidade do ar do planalto central, com seus mais de mil metros acima do nível do mar. Morriam de asma, falta de ar. Aos poucos, os famosos gatos domésticos foram se adaptando e hoje povoam com naturalidade o Distrito Federal,  junto com seus quase  três milhões de habitantes.



E tem alguns famosos, como essa gata que acaba de tirar o passaporte para viajar  para a Zâmbia, na África. O bicho, que pertence ao economista Marco Alajmo, teve implantado um microchip no dorso, que permite que ele seja identificado em qualquer aeroporto por onde passaporte . 

Brasília também tem gata heroína.  Uma persa de onze anos começou a miar insistentemente até acordar seu dono, o contador Cláudio Monteiro, que teve tempo de espantar o ladrão que já estava dentro de seu apartamento na Asa Norte.

Sorte mesmo teve a gata angorá que recebeu uma herança no lugar de outra que fugiu de casa sem deixar rastro. Parece história inventada. O diplomata criava a gata num apartamento na  Asa Sul. Transferido para a Europa, ele pediu a uma vizinha que tomasse conta do animal. Um dia, a gata saiu de casa e nunca mais voltou. Desapareceu como por encanto. A mulher que tomava conta  foi surpreendida meses depois por uma correspondência internacional.  Avisava que o dono da gata havia morrido. E mais,  tinha deixado pra ela uma certa quantia em euros para que pudesse cuidar da bichinha por alguns anos. Bastava apenas apresentá-la ao advogado que ia fazer a entrega da grana.

Gata angorá
E agora? A história teria acabado aí não fosse no Brasil. Gato angorá, uma das raças mais antigas,  está hoje em todo o mundo. São vendidos em Pet Shops em Brasília. Foi lá que a senhora comprou uma gata branca, igualzinho à fujona. Em seguida viajou para a Europa, onde  mostrou a gatinha “substituta” para receber a herança. Essas são apenas algumas histórias que mostram que  as gatas de Brasília  prosperam estão mais famosas que os cães. Mais miau que au au.

AYRTON, O PINTOR DE MUITAS CORES


O PINTOR AYRTON ROCHA JUNIOR, ESTARÁ EXPONDO SUAS OBRAS NA "AFFORDABLE ART FAIR " DE 2 A 6 DE ABRIL/14 EM NOVA YORK, NO METROPOLITAN PAVILION.



Ayrton Rocha Junior é de Fortaleza, Ceará, e tem 50 anos. De todos os estados do nosso país, proporcionalmente, o Ceará é de onde saiu a maior quantidade de gênios da pintura brasileira. Talvez sejam essas referências um dos motivo de Ayrton ser um pintor tão amplo, tão versátil.

Começou a pintar ainda no Rio de Janeiro, onde viveu parte de sua infância e continuou em Brasília durante a adolescência. Além da pintura, trabalhou como diretor de arte em várias agências de publicidade e na TV Educativa.

Essa colcha de retalhos de referências múltiplas produziu um artista que se expressa com a sensibilidade de quem consegue "ler" os detalhes mais sutis. A educação singela e a sensibilidade a flor da pele, com um temperamento ora explosivo, ora introspectivo, fez com que sua forma de comunicação mais estável fosse através das cores. Ayrton pinta com o coração, Ayrton "fala" através das pinceladas sempre suaves e das cores sempre fortes. Passa pelos estilos modernos com desenvoltura que apenas grandes artistas possuem e, nunca, literalmente, sua pintura transmite apatia. Toda obra é uma experiência visual complexa e agradável. Pontos difíceis de se encontrarem em comunhão.

Para mais informações seguem os links do Facebook do artista e sobre a exposição que ele fará em NY:

 
 

quarta-feira, 19 de março de 2014

“Não sinto saudade do futuro” - Augusto Pontes





Lembrando o filósofo  jornalista Francisco Augusto Pontes, Chico Pontes na UnB e famoso Augusto em Fortaleza:  “A felicidade dos outros me deixa de saco cheio. Papai Noel”.

Recém chegado a Brasília, perguntei se ele já conhecia a cidade: “Não, ainda estou nas primeiras letras”.

O compositor Ednardo, nosso contemporâneo, lembra que  “Augusto  é autor de mais de 200 letras, apenas umas 12 músicas onde contribuiu com suas letras e genialidade, são conhecidas do público ou gravadas, entre as quais: Carneiro e Água Grande em parceria com Ednardo; Lupiscínica em parceria com Petrúcio Maia; O Lago e A Mala em parceria com Rodger Rogério; Velho Demais e Sopa de Saudade e Palmito em parceria com Zeca Bahia; e outras inéditas com um dos fundadores da Tropicália, o baiano Piti que estava residindo em Fortaleza com o qual fez a parceria Caminho do Mar.

Também realizou parceria com os compositores do grupo piauiense residente em Brasília: Climério - Pelada; E Clésio - Folia ou Pressa; e existem outras com o Clodo e também O Mundo Mudar e Pancada do Mar em parceria com Rodger Rogério.”

Segundo Ednardo, a frase “Vida, vento, vela – leva-me daqui” inspirou e foi usada por Fagner e Belchior na composição Mucuripe. Outra, “Eu sou apenas um rapaz, latino americano, sem dinheiro no banco e nem parentes importantes”, foi fundamental para Belchior construir sua famosa canção.

Paulo Linhares, que substituiu Augusto Pontes como Secretário de Cultura do Ceará, no governo de Ciro Gomes, escreveu num artigo: “O texto da música Carneiro, imortalizada por Ednardo, é a mais perfeita tradução do campo cultural cearense: “Amanhã se der carneiro/vou mimbora daqui pro Rio de Janeiro. As coisas vem de lá... E vou voltar em vídeo tapes e revistas multicoloridas. Pra menina meio distraída repetir a minha voz: Que Deus salve todos nós e Deus salve todos vós”.

Segundo Paulo Linhares, “o impasse da vida artística digna num Estado pobre; a centralização da indústria cultural sudestina; a vontade humana, demasiadamente humana de conquistar plateias; a súplica cearense por uma salvação tardia. Tá tudo na letra Carneiro”.

Quando juntava gente demais na mesa do bar do Anísio, na beira mar, em Fortaleza, ele dizia: “Quando a mesa cresce, a cultura desaparece”.


Nos coquetéis de lançamento de livro era “A cultura em álcool imersa, logo dissipa e dispersa”.

O REPÓRTER AMADOR






O vendedor ambulante Chico Tobias era dono de um vozeirão  bastante conhecido nas ruas do Crato, cidade mais importante do Cariri cearense.  Nelson Faheina  conta em seu livro Fatos, Fotos e Fantasias, que Tobias vendia seus produtos rapidamente usando sua voz potente. 

Aí colocaram na cabeça do camelô que devia ser repórter de rádio. Tinha tudo para encarar um microfone. Ele pegou corda e começou a  assediar o radialista Wilson Machado, o mesmo que se transferiu depois para Fortaleza onde foi eleito deputado estadual. 

Numa manhã, quando apresentava seu programa na rádio Araripe do Crato, Wilson Machado recebeu um telefonema. Era o Chico Tobias comunicando que o fazendeiro Antônio Ferreira de Alencar tinha morrido e que ele estava no velório. Sabia tudo sobre o ilustre morto. O radialista resolveu testá-lo, o fazendeiro era pessoa importante na região, tinha grande projeção política. Orientou rapidamente o Chico que entrou ao vivo:  

“Estamos aqui no velório do fazendeiro Antônio Ferreira de Alencar, grande líder comunitário. Wilson Machado, no ano passado o seu Antônio Ferreira tentou o suicídio atirando na própria cabeça. Como estava nervoso, acertou apenas na orelha direta e escapou. No inicio desse ano, quando dirigia seu carro,  tentou o suicídio pela segunda vez se jogando dentro do açude, mas foi salvo por alguns pescadores que estavam no local. Na madrugada de hoje, pela terceira vez, tentou o suicídio, se enforcando numa árvore. Dessa vez, senhoras e senhores, ele obteve sucesso.”

JOSÉ MARTÍ, UM PATRIOTA





O cubano José Martí, aos 16 anos, influenciado pelas ideias separatistas de seu professor, o poeta Rafael Maria de Mendive, expressa sua fé revolucionária em um drama patriótico em versos, o Abdala. Foi publicado no único número do jornal La Pátria Libre.

Abdala, um guerreiro núbio, enfrenta o império egípcio, a fim de redimir seu povo:

“Eu sou Núbio! Todo meu povo/ Espera-me para defender sua liberdade!”

A mãe de Abdala, Espirita, debate com ele uma questão fundamental: QUAL É A MAIS PROFUNDA ESPÉCIE DE AMOR.

Espirita: morrer pela pátria é amor maior do que aquele que sua mãe desperta em seu peito?


Abdala: Por acaso você acredita que existe algo mais sublime do que a pátria?

terça-feira, 18 de março de 2014

PARIS É UMA FESTA


Se você me pedisse um conselho sobre um livro, eu ia sugerir Paris é uma Festa. Pequeno, de leitura fácil e agradável. Ernest Hemingway fala dos escritores e artistas com quem conviveu num tempo de dificuldade financeira, mas nem por isso triste.

Betty Milan diz que o livro foi escrito por causa de um acontecimento inesperado. Em 1957 Hemingway volta a Paris e se hospeda no Hotel Ritz. Para sua surpresa, os encarregados das bagagens lhe devolvem duas malas esquecidas num quarto do hotel 30 anos antes. Estavam lá cadernos com anotações sobre o cotidiano de Paris entre 1921 e 1926. Com esses dados ele partiu para o livro que fala dos tumultos e beleza dos anos 20. Foi publicado em 1964, depois da morte do autor, que ocorreu em 1961.  

Entre as personalidades do circulo de amizade do autor estava Scott Fitzgerald. Casado com Zelda  Sayre, louca, Scott fazia tudo para agradá-la. Um dia Ernest foi encontrá-lo numa oficina cortando com maçarico o teto de um carro, último modelo que havia custado uma grana. Explicou que Zelda não gostara do carro porque não podia ver o por do Sol.

De outra feita, Hemingway o encontrou num bar, aos prantos. Queixou-se que sua mulher não gostava mais dele e tinha certeza que era porque tinha o pênis pequeno. Hemingway levou Scott  ao Louvre e pediu para que olhasse as estátuas dos deuses.


Scott, que  tinha sido alcoólatra nos tempos da faculdade, continuava tomando todas. Ele ganhava muito dinheiro e fama com seus livros. Alugava aqueles príncipes desempregados pela revolução russa para fazer as honras nas festas monumentais que promovia em Paris. Segundo Hemingway, um dia ele escreveu na porta da adega: “Não arrombe a adega, mesmo com ordem do dono da casa!”. Scott morreu aos 44 anos de ataque cardíaco. A bebida lhe acompanhou por toda vida Ele tinha consciência do perigo: “Primeiro você toma um drinque,  então um drinque toma um drinque, e aí o drinque toma você.” Tem muitas outras histórias que retratam uma época em que Paris já era uma festa.

O EDITORIALISTA



Um jornalista de peso que marcou seu tempo na imprensa cearense. Odalves Lima era de uma família de jornalistas. Primo de Fernando César Moreira Mesquita e sobrinho de Perboyre Silva, fundador da Associação Cearense de Imprensa.

Odalves só tinha um defeito, gostava de tomar umas. Diariamente, depois de certa hora conversar com ele só amenidades. Chegou a escrever os editoriais de dois jornais adversários. O Estado matutino que apoiava o governo e o vespertino O Povo, de Paulo Sarasate Ferreira Lopes, que fazia oposição. De manhã, ele elogiava o governo. À tarde, descia o cassete na pagina de opinião do Povo Durante meses brigou com ele mesmo. Criticava à tarde e defendia na manhã seguinte. Uma noite, em plena semana santa, bebiamos todos no Café da Imprensa, um bar fuleiro que ficava na rua Guilherme Rocha, quase na praça José de Alencar. A turma na cerveja e o Odalves no Liebfraumilch, um vinho alemão de baixa qualidade leve e doce que era vendido numa garrafa azul. Diziam que Liebfraumilch significa o leite da mulher amada.


Todo mundo já pra lá de Marrakesh quando chega um portador procurando seu Odalves. O jornal queria que ele preparasse um editorial sobre Jesus Cristo para um caderno especial que dependia só desse artigo para ser fechado ainda naquela noite. Odalves fcz um bilhete e mandou pelo rapaz. E pediu mais uma uma garrafa do vinho. O bilhete, disse ele aos curiosos, é só para ganhar tempo para beber mais esse “Leite da Mulher Amada”. Estava no bilhete de Odalves: “Vocês querem ou artigo contra ou a favor de Jesus?”

É DO PASSADO MAS NÃO SAI DE MODA




Liguei o rádio do carro bem na hora que o jornalista Rui Castro dava uma entrevista. Falava sobre o disco de vinil, o velho  e saudoso Long Play. Fiquei sabendo que Rui é colecionador de LP, o disco que surgiu em 1948 nos Estados Unidos  mas só chegou ao Brasil nos anos 50, mesma época em que apareceu a televisão. 
Lembro quando meu pai comprou a primeira eletrola, um móvel com um rádio e um toca-discos.  Ficava na sala de nossa casa na avenida padre Ibiapina, em Fortaleza. Só que nossos primeiros discos eram de cera e em 78 rotações. Uma música de cada lado. 
O LP de vinil chegou cheio de novidades.  A capa era uma grande atração. Feita por artistas gráficos selecionados pelas gravadoras, era um verdadeiro chamariz, ajudava a vender as músicas, atraindo os compradores. A outra novidade era a quantidade de músicas, seis de cada lado. Comodidade, dois,  três LPs no suporte do toca-discos e lá se iam alguns minutos de prazer. 
Lá na nossa casa, só depois de algum tempo é que a eletrola pode ser substituída  por uma radiola, com toca disco em 33 rotações, sem precisar ficar, todo tempo, mudando a agulha e o disco.
 O primeiro LP feito no Brasil pela Capitol foi Carnaval, gravado pelos Cariocas só com sambas e marchinhas. São preciosidades da música popular brasileira que levam o jornalista Rui Castro a sair à procura de sebos de LPs. Quando encontra aqueles caras vendendo os bolachões que ficam espalhados nas calçadas, Rui,  de cócoras, seleciona durante um bom tempo  os que ainda não tem. O prazer dele não acaba aí.
Em casa, lava o LP com sabão e bucha para tirar manchas de gordura. Depois, enquanto o disco seca, ele prepara invólucro de  plástico para proteção do LP do jeito que vem  de fábrica. Na discoteca, nem parece que ele comprou na rua.
O LP dominou o mercado durante uns 40 anos, quando foi substituído pelo Compact Disc. Hora, também, de todo mundo trocar  os aparelhos de som. Aqui em casa, não fiz como meu pai que se livrou da primeira eletrola. Guardamos o nosso modesto aparelho Sharp –Belt Drive Stereo Turntable. Ele aceita fita de áudio tape e toca LP. Uso pouco com medo  que a agulha se desgaste e não encontre outra no mercado.
Os CDs , que ocuparam o espaço dos Lps, parecem estar com os dias contados. Começam a ser substituídos  pela música na Internet, pelos pen drives e sabe-se lá o que vem mais por aí.
A coleção de LPs guardada no armário, já não é disputada apenas pelos colecionadores. Deixa de ser coisa de saudosista. Muitos artistas estão gravando de novo em vinil. Muda o perfil do comprador. A indústria do LP volta aos poucos.

Depois dessa entrevista do Rui Castro, em que  fala do cuidado com seus discos de vinil, juro que vou tratar os  meus  com mais carinho. Vou até programar um fim de semana para uma audição à moda antiga.

sábado, 15 de março de 2014

CHE GUEVARA






O biógrafo de Che Guevara, Jorge Castañeda diz que o revolucionário argentino adorava a poesia do espanhol León Felipe. Um de seus poemas prediletos “Para Cristo”, está no livro El ciervo, que Che guardava na cabeceira:

“Cristo!
Eu te amo
Não porque desceste de uma estrela
Mas porque tu me mostraste
Que o homem tem sangue
Lágrimas, angústias
Chaves
Ferramentas
Para abrir as portas fechadas à luz.
Sim... Tu nos ensinaste que o homem é Deus.
Um pobre Deus crucificado como Tu.
E aquele que está à tua esquerda
No Gólgota
O mau ladrão
Ele também é um Deus!”


Castañeda também relata a resposta do vice-primeiro ministro da União Soviética, Anastas Mikoyan, à manifesta vontade de Guevara de lutar contra os americanos até o fim: “Vemos sua disposição de morrer lindamente, mas acreditamos que não vale a pena morrer lindamente”.

HAPPY HOUR




Na nossa “hora feliz”, fim de tarde, jogávamos conversa fora quando o Orlando Brito muda o tom do papo. Tinha acabado de ver uma foto recente da atriz francesa Brigite Bardot e estava arrasado com sua fisionomia, em nada parecida com a da beldade que ela foi. Conhecida mundialmente por suas iniciais, BB, considerada o grande símbolo sexual dos anos 50 e anos 1960, é hoje outra pessoa. 

Chamada pela mídia sensacionalista de "devoradora de homens" pela rapidez com que terminava seus relacionamentos e pela quantidade deles, durante o período em que atuou no cinema (1952 – 1973) sua carreira foi marcada por três casamentos. O primeiro, em 1950 com Roger Vadim, com que se manteve até 1956 e foi o responsável por assessorá-la e lançá-la ao sucesso. Vadim e Bardot se divorciaram em 1956, depois dela o trair com Jean-Louis Trintignant durante as filmagens de E Deus Criou a mulher. O segundo casamento foi em 1959, com o ator Jacques Charrier, os dois atuaram juntos no filme Babette s'en va-t-en guerre e foi ele quem deu a Bardot seu único filho, Nicolas Jacques Charrier, o qual ela abandonou com o pai quando os dois se separaram. O quarto e último casamento realizado em 1992, e que perdura até hoje, foi com Bernard D'Ormale, um conselheiro político de Jean-Marie Le Pen, ex-presidente da Frente Nacional francesa, principal partido de extrema-direita da França.

Brigitte em Búzios ao lado do noivo marroquino Bob Zagoury

A cidade de Armação dos Búzios, na Região dos Lagos do Rio, recebeu a visita de Bardot quando ela estava no auge da carreira. Brigitte Anne-Marie Bardot, ou apenas Brigitte Bardot. Fugindo dos fotógrafos, repórteres e fãs ensandecidos, a atriz chegou a Búzios acompanhada do noivo, o marroquino Bob Zagoury, que vivia no Rio de Janeiro. Durante quatro meses, Brigitte Bardot passeou pelo local e viveu como se fosse uma nativa. Tem até uma estátua dela lá. 

Depois de todo esse papo, Charles Marar, Alex Gonçalves e Ramalho Junior lembraram que hoje, aos 79 anos de idade, a francesa é, atualmente, ativista dos direitos dos animais. Nunca se submeteu a uma plástica. Brigitte Bardot, o maior ícone francês da beleza, aos quase 80 anos, não tem medo da morte, não esconde as muletas, carrega a marca dos anos. 

Foi aí que o jornalista Carlos Henrique de Almeida Santos interferiu para citar o ex-deputado e ex-ministro Ernane Sátiro. O velho político paraibano ao olhar para uma amiga de juventude que não via fazia anos, fez a frase que Carlos Henrique contou para consolar o famoso fotógrafo Orlando Brito: “Amigo véi, o tempo é um escultor de ruínas”.


A HISTÓRIA DE UM BIRITEIRO DE FERROS, POR MATTA MACHADO



Ferros, no interior de Minas Gerais,  que já deu muita gente séria como este seu amigo que é abstêmio ou quase, quer queira, quer não, sempre foi terra de cachaceiros. E aonde há cachaceiros nunca falta quem implique com eles. 

Abel gostava de cachaça, mas via-se muito tolhido em seu salutar hábito de ficar bêbado. Em sua casa portas da rua trancadas. Ele vigiado, quase amarrado. 

Abel é um assombro porque mesmo assim, mostra-se compreensivo. Cordato com todas essas injúrias conforma-se com a prisão... 

Os dias passam. Agora ele, sem gritos, sem rancores, sem alarde, consegue mais de uma vez embriagar-se. Para espanto e indignação de seus algozes. Ele foge? Como? A bebida só pode estar escondida, concluem. Reviram a casa, os armários, as gavetas, as prateleiras, o inferno. E nada. Aonde fica escondida essa maldita pinga? 

Abel está agora ressabiado. De soslaio, caladinho observa a revolução que aprontam em sua casa. A mulher, os filhos, as 
empregadas, seus cunhados, seus vizinhos, todos desesperados para encontrar as bebidas.

Um dia rindo, gozando, debochando-se de todos, contou (num botequim - é evidente) a sua mágica: no vasto quintal de sua casa havia cajueiros carregados. Ardiloso, paciente e previdente, injetara, com todo capricho, umas dezenas doses de pinga em cada fruto quase maduro. Passava os dias... Comendo e bebendo. 

Caju - é claro.

Salute!!

SAIU NO RÁDIO


Escalpelar

Houve época que locutor esportivo chamava a bola de couro. Anos 50, em Fortaleza, o pernambucano Antônio Maria, o gigante da comunicação passava por Fortaleza antes de seguir para o Rio onde fez sucesso como cronista, colunista, compositor e boêmio.

Foi numa transmissão de um jogo do Ceará que ele quase mata de susto a mulher do Pipiu, atacante do alvinegro. Puxa Faca era o goleiro do time adversário. E lá se vai o velho Maria narrando: "Pipiu recebe a bola na boca do gol. Prepara-se para cabecear. Saltou, bateu na bola. Entra Puxa Faca e arranca o couro da cabeça de Pipiu”.

sexta-feira, 14 de março de 2014

HISTÓRIAS DE SEBASTIÃO NERY

Olha só o que ele diz do Ayrton Rocha, poeta,  cantor, publicitário, jornalista e amigo:


AYRTON, O BOM
No " Sereia do Leme " , lá na ponta de Copacabana, a tarde ainda era azul, deitada na arei branca, espiava o mar. Um homem magro, nariz grande, olhos tensos, cabelos baixos bem grisalhos, quase brancos,óculos pretos, bigodinho arrumado e gestos nervosos, cara de velho ator italiano em fim de carreira, bebia uísque na mesa do fundo e falava alto:

-Não vou deixar ! Não vou deixar ele casar com a Mariuza.
Seu companheiro de mesa, pequeno, magrinho,miudinho, sorridente, bebia água mineral e aconselhava:

-Não faça isso. Ele é um bom rapaz.O que é que você tem contra ele?
-Bebe muito!
-Beber muito,você bebe também.
-Mas eu não quero casar com a Mariuza.

Era Ari Barroso com Edu da Gaita. Na mesa ao lado, demos uma gargalhada. Nós éramos felizes e sabíamos. Jornalista e deputado na Bahia, quase todo fim de semana eu estava no Rio, vivendo com meus amigos e amigas os tumultuados, criativos e imcomparáveis anos dourados de Juscelino, Jânio, Jango, muito mais dourados do que percebíamos então.

Veio o golpe de 64, sumi dois anos na cadeia e em São Paulo, depois voltei ao Rio, para o Diário Carioca, a TV Globo, o Correio da Manhã. meus amigos continuavam lá no Sereia, vendo a tarde ainda azul espiar o mar deitado na areia branca e tomando chope cortado, pequeno em copo grande : Fernando Leite Mendes, Mauritonio Meira, Jorge Leão Teixeira, Josemar Dantas, tantos. todos jornalistas. E um publicitário, Ayrton Rocha.

Por força da profissão, Ayrton era uma fonte, uma usina de notícias. Sabia de tudo.Conhecia, vivia, juntava três mundos " o nosso, a imprensa; o dele, a propaganda; e o dos seus clientes, o empresariado.

Irmão do saudoso José Ayler, sócio de Heron Domingues na agência " Pronews ", que produzia os primeiros programas de debate político da televisão brasileira, com Wilson Figueredo, Armando Nogueira, Oliveira Bastos, Haroldo Holanda, Adirson de Barros, Ayrton sempre estava onde estávamos.

Uma noite, enchemos um avião e fomos todos para Fortaleza, inaugurar uma empresa de caju. Chegamos a um belo casarão, cercado de jardins e palmeiras, regado a uísque com água-de coco e champanhe com anjos.

De repente, a televisão começa a mostrar um bruta incêndio no Rio, na TV Globo. Estragou a festa. Parecia que o fogo queimava a alma de cada um de nós. Muitos alí trabalhávamos na Globo. E eu vi, a um canto da sala, Ayrton chorando por um desastre que não era dele, mas dos amigos dele, e para ele, era a mesma coisa.

Os que o conheciam, sabem. Apaixonado pela Estella e os filhos, amigo dos amigos, todos, de presidente da República como Sarney a baianos como eu, é de uma solidariedade generosa e indormida. Nos turvos anos 70, saiu comigo pelo Nordeste, acompanhando-me no lançamento do meu livro Socialismo com liberdade, quando era proibido pensar em socialismo e perigoso falar em liberdade.

E tem bom gosto. Tratando da coluna no Sara Kubitschek, em Brasília, passou algum tempo em meu apartamento. E eu, viajando e politicando. Foi embora, deixou um bilhete.

   - Meu irmão, obrigado pela hospedagem e sobretudo pelos vinhos. Bebi todos.

   Como definiria? Ayrton, o bom.

HEBDOMADÁRIOS CEARENSES

  Wilson Ibiapina Jornais de pequenas cidades do interior do Ceará, principalmente no século passado, sempre se manifestavam em defesa de ca...