domingo, 19 de dezembro de 2010

O MAESTO QUE REGEU A CULTURA CEARENSE




Wilson Ibiapina

O maestro Orlando Leite chega aos 85 anos de idade considerado um dos maiores animadores culturais do Ceará, responsável por criar condições para o desenvolvimento do ensino musical no estado, despertando a vocação e o talento musical de muitos cearenses. Ele atuou, também, ao lado de B de Paiva, Haroldo Serra. Aderbal Freire Filho, Augusto Pontes, Cláudio Pereira, Eusélio Oliveira, Roberto Pontes, Pedro Lira, Barros Pinho, Otacílio Colares e Heloisa Juaçaba, entre ourtos, incentivando as artes cênicas e plásticas e promovendo a poesia, o ballet e o cinema.

A trilha sonora do curta-metragem Gênese, que o jornalista Antônio Frota Neto filmou em 1969, com direção, também, de Roberto Benevides, é de Orlando Leite. O maior sucesso teatral dos anos 60 em Fortaleza foi a opereta de Paurílio Barroso “A Valsa Proibida”. Foi encenada no José de Alencar pela Comédia Cearense e tinha como protagonistas Orlando Leite e Ayla Maria.

Este filho de Russas se preparou para executar seu trabalho. No Rio, estudou no Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, onde foi aluno de Heitor Villa Lobos. Retornou ao Ceará com o diploma debaixo do braço e foi ensinar o que aprendeu. Era professor do Conservatório Alberto Nepomuceno quando foi acionado pelo fundador e primeiro Reitor da Universidade Federal do Ceará, em 1959.para estruturar um Departamento de Música. Martins Filho apostou todas fichas no talento de Orlando Leite e o jovem professor colocou todo saber e a força de sua juventude na execução da nova tarefa.

O encontro de Corais dirigido por ele e coordenado pelo professor Antônio Gondim, na rádio Assunção, em novembro de 1965, projetava para a cidade o trabalho que vinha sendo feito no campus universitário.

A pianista Mércia Pinto lembra que “o madrigal da UFC sob a regência dele, ganhou prêmios internacionais, como no Festival de Coros das Americas em Santiago do Chile. Orlando Leite foi sempre uma figura aberta, incentivando professores e alunos a construírem o curso”.
Depois de várias décadas seu trabalho ainda gera frutos, como é o caso do projeto de Canto Coral da UFC, implantado por ele nos anos 60 e que foi o ponta pé inicial para a elaboração dos Projetos Pedagógicos dos cursos de Educação Musical que começaram a ser implantados em 2005.

Fortaleza deve lembrar das entrevistas na TV Ceará, jornais e rádios, anunciando cursos, festivais, programas musicais, peças de teatro, lançamentos de livros e dando palpite em tudo quanto era evento cultural.

Orlando foi também professor de Música na Escola Industrial. Ocupou inúmeros cargos públicos,sempre com o objetivo de desenvolver a cultura musical no Ceará.

Nos anos 70 eu já estava morando em Brasília quando um dia encontro o maestro. A convite da Universidade de Brasilia ele estava também morando aqui com toda a família, chefiava o Departamento de Música da UNB, onde trabalhou por muitos anos até se aposentar. É viúvo de D. Francina Leite que o acompanhou a vida inteira. Tem seis filhos e muitos netos e bisnetos que não se cansam de ouví-lo tocar piano, cantar e contar suas histórias. Tem cada uma.


CINEMA EM QUIXADÁ

A Câmara Municipal de Quixadá, no Ceará, entregou a medalha Rachel de Queiroz à atriz Aurora Duarte. A atriz pernambucana, hoje radicada em São Paulo , voltou a filmar em Quixadá cinquenta anos depois de "A morte comanda o cangaço", filme do qual foi também produtora.

O cineasta cearense Francis Valle, que acompanha as filmagenas em Quixadá, disse que o nome do filme é "O gato preto", de Clébio Viriato Ribeiro, um quixadaense que sequer era nascido quando Aurora era a mocinha do filme dirigido por Carlos Coimbra em 1960. Agora Auroa faz o papel de uma matriarca cigana e contracena com o cearense Rodger Rogério. que nas horas vagas é mestre em física, cantor e compositor

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Feitiço da Vila - Música de Noel Rosa - Interpretação de Orlando Silva

Noel Rosa - Com que Roupa ?

NOEL ROSA: OS CEM ANOS DO POETA IMORTAL

Wilson Ibiapina

Noel Rosa nasceu em 1910, em Vila Isabel, Rio de Janeiro. Completaria cem anos dia 11 de dezembro. Morreu tuberculoso aos 26 anos ouvindo De Babado, seu samba preferido que ele pediu ao irmão Hélio que mandasse tocar na festa que acontecia ao lado de sua casa. Na reportagem sobre o centenário de Noel, que escreveu no Jornal da ABI- Associação Brasileira de Imprensa, Arcírio Gouvêa Neto observa que toda a extensa obra de Noel foi produzida em apenas seis anos de vida artística.


Já muito doente, um dia foi encontrado pelo amigo Orestes Barbosa, bebendo num bar de Vila Isabel. O compositor e poeta se aproxima e reprova sua atitude: "Noel você não sabe que não pode beber e ainda cerveja gelada?" Noel tirou do bolso um recorte de jornal e pediu: “Leia, meu caro Orestes, descobriu-se na Alemanha que uma cerveja vale por uma refeição. Pois então, como já tomei duas cervejas, estou repetindo o prato”.


Na matéria especial que o Jornal da ABI publicou estão trechos de entrevistas que o poeta da Vila deu na década de 30. Noel, por ele mesmo.


Ele conta que aos 13 anos tocava bandolim na escola, onde era chamado de Queixinho. Usava a música para tentar superar o complexo de feiura: “Queria ser o centro das atenções. Era uma necessidade que eu tinha para compensar meu problema físico, necessidade que me acompanhou o resto da vida. No recreio, começava a tocar e logo a garotada se reunia em volta de mim. As meninas me olhavam com assombro e curiosidade. E eu adorava, embora soubesse que tudo ficaria apenas nos olhares.”


Que relação julga existir entre o amor e a música?


- É a mesma que existe entre a casca de banana e o escorregão. Brincadeira à parte, a música expressa o amor; se ele é profundo e sincero a música refletirá isso; se é falso e fugaz, também. Nestes versos defino minha visão do assunto: O primeiro: Faz de Conta que eu Morri diz: “Amar deve ser para nós um divertimento/ E não o eterno ciúme/Que nos traz sofrimento...”, o segundo, Silêncio de um Minuto, fala: “Luto preto é vaidade neste funeral de amor/ O meu luto é a saudade/ E saudade não tem cor...”


Você teve vários amores. Como seu coração conviveu com tanta turbulência?


Vou responder com outro samba. Chamado Coração: “A paixão faz mal ao crânio/ Mas não afeta o coração...” Na verdade, o samba é o melhor remédio para estas moléstias, não dói e nem tem contra-indicação. Administrando-o em dose homeopáticas, conseguia manter sob controle os efeitos desse mal. Em conjunto com outro bom remédio chamado boemia então não há vírus desse tipo que nos destrua".


Seus últimos dias foram de muito sofrimento, afinal a tuberculose já se tornara irreversível e mesmo assim você continua compondo músicas bem humoradas, falando com irreverência do seu dia a dia. Tem explicação?


Amigo, a vida não é para ser levada a sério. O mundo é para ser desfrutado, quem complicou e criou todas as convenções e formalidades foi o ser humano, na ambição insana de obter o vil metal. Por isso, eu preferi viver e cantar como a cigarra, mesmo vivendo pouco tempo, a ser uma formiga, refém da prisão de um buraco-formigueiro dentro da terra. Mas sofri muito sim, como digo em um dos meus sambas, Eu Sei Sofrer: “Quem é que já sofreu mais do que eu?/ Quem é que já me viu chorar?/ Sofrer foi prazer que Deus me deu/ Eu sei sofrer sem reclamar.”


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“quando eu morrer não quero choro nem vela


quero uma fita amarela


gravada com o nome dela.

domingo, 5 de dezembro de 2010

QUANDO A MULHER ABRE O JOGO CONTRA O MARIDO



Wilson Ibiapina

Nos primeiros anos de Brasília as pessoas não tinham muito o que fazer depois do trabalho. A cidade, sem diversão, levava os amigos a formarem grupos nos fins de semana para conversar, dançar, beber ou jogar baralho.

O carteado reunia funcionários públicos, jornalistas, profissionais liberais e políticos.
Cada fim de semana o jogo era na casa de um deles. O jornalista mineiro Moacir Valadares era um viciado em baralho para desgosto de dona Júlia, mulher dele. Ela detestava os amigos que “levavam o marido para o caminho da perdição, do jogo, do vício”.

Um dia, quando dona Júlia viajou para visitar uns parentes, Moacir tratou de reunir a turma para um biriba-amigo em seu próprio apartamento. Entre seus convidados estavam colegas jornalistas e até o vice presidente da República, dr. Pedro Aleixo.

O jogo corria alegre quando, de repente, a porta da rua é aberta. Dona Júlia adentra à sala, que estava coberta de fumaça de cigarro. Voltara antes da data marcada, pegando o maridão com as cartas nas mãos. Mais surpreso ficou Valadares que, imediatamente, tratou de apresentar os amigos, antes que a mulher fizesse um escândalo. Este é o fulano, aquele o cicrano, e dona Júlia ficando vermelha. Lançando mão de seu último argumento, Moacir Valadares apresenta o que ele imagina o álibi perfeito: - "E aqui, minha querida, o dr. Pedro Aleixo, o vice-presidente da República”. - “Vice-presidente coisa nenhuma. Esse aí não passa de um salafrário igualzinho aos outros...."

Essa história brasiliense faz lembrar uma outra passada no Ceará, onde uma senhora pregou uma peça no marido e em seus convidados de jogo. Uma história inacreditável tirada das memórias de Pedro Nava, mineiro de Juiz de Fora que teve pai, avó paterna e avô materno nascidos no Ceará. Era sobrinho do escritor cearense Antônio Sales. Pedro Nava foi batizado na capela da Santa Casa de Misericórdia. O caso é contado no livro “Em busca do tempo vivido”, que Edmilson Caminha escreveu para comemorar o centenário do nascimento de Pedro Nava.

A mulher, pivô desse episódio, quando soube que o marido ia fazer um joguinho em casa, teve uma reação maluca, indignada, cheia de maldade, quase cruel. Na verdade, tratava-se de uma verdadeira cascavel que destilava veneno pelos poros. Sua raiva do mundo parece que começava pelos pais que a batizaram com o nome de Irifila. O nome do marido não ficava
atrás: Iclirérico Narbal Pamplona. Devia ser outro motivo de sua ira do mundo.

Edmilson Caminha diz que o próprio Pedro Nava descreveu a tia assim: “Era baixota, atarracada, horrenda, permanentemente irritada – de alma amarga e boca desagradável. Diante dos magros, seu assunto era magreza. Dos gordos, as banhas”. Ele conta que dona Irifila era inimiga de tudo que favorece a fantasia e torna a vida suportável. Era contra os namoros, contra o riso, contras as festas, contra o jogo. Não gostava de receber e, quando era obrigada a isso, fazia com grosseria.

O escritor Edmilson Caminha diz que essa senhora era o verdadeiro “desmentido em carne e osso da tão decantada cordialidade cearense”.

Pois o coitado do Iclirérico, o marido, um dia teve a coragem de levar uns amigos para uma partida de baralho em sua casa que deveria terminar com um jantar. A vingança da jararaca foi maligna. Veja só como tudo acabou segundo as palavras do Edmilson Caminha: “Finda a ceia, àquela noite com a presença do Visconde de Ouro Preto, dona Irifila apressou-se em servir a sobremesa: vinhos, licores, doces e chocolates, tudo do mais fino bom gosto. E no meio da maior bandeja, a mais alta compoteira com o doce do dia – aparecendo todo escuro e lustroso, através das facetas do cristal grosso, de um pardo saboroso como o da banana mole, da pasta de caju, do colchão de passas com ameixas pretas, do cascão de goiaba com rapadura. O marido, mal se contendo de desejo, destampou a compoteira, ante o olhar guloso do visconde: estava cheia , até à borda, de fezes."

LEMBRANÇAS DE AYRTON ROCHA



Ayrton Rocha é jornalista, publicitário, cantor e compositor. Morou no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasilia. Hoje, de volta ao Ceará, continua compondo, fazendo crônicas e poemas.

Incansável, acaba de lançar mais um CD repleto de lembranças. O disco tem ilustração do artista plástico Ayrton Filho e fotos tiradas pela neta Mariana, também jornalista.

Estão no CD canções dele, de Tom Jobim, Tito Madi, e parcerias com Joao Donato e Paulo Soledade. Amigos de uma época em que o Rio não tinha medo do que vinha dos morros.
"Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora que isso acontecer."

Woody Allen

FOLCLORE


O jornalista Newton Pedrosa escreveu:

Meu capataz Bastião é de uma ingenuidade a toda prova. Não sabe ler, não sabe o dia nem o ano em que nasceu, não tem noção dos meses, do ano, não sabe o que é o Natal nem Ano Novo. Também já disse que não tem inveja de quem sabe ler nem de quem é rico.

Dias atrás, assistia à televisão quando apareceu Barak Obama. Intrigado com essa presença permanente no vídeo, perguntou: "Doutô, quem é esse cara que só vive na televisão, qual é o emprego dele?". "É o presidente dos Estados Unidos, o homem mais poderoso da terra!". E Bastião insistiu: "É, mais aposto que ele num é mais poderoso que o Lula...". Respondi: "É não!".

A VIDA RESUMIDA EM 4 GARRAFAS

HEBDOMADÁRIOS CEARENSES

  Wilson Ibiapina Jornais de pequenas cidades do interior do Ceará, principalmente no século passado, sempre se manifestavam em defesa de ca...