sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A INVASÃO DO “ENXAME’’ DOS EX- COLONIZADOS

João Soares Neto 

Enquanto nós, brasileiros, acreditamos estar no pior dos mundos, é preciso abrir os olhos para o que está ocorrendo por aí. A Europa, constituída por países que têm nas suas histórias a adjetivação pejorativa de colonizadores, sofre, desde 2011, com a migração constante de africanos e árabes. 
 
Há oito dias, exato em 30 de julho, o Premiê da Inglaterra, David Cameron, disse o seguinte: “Há um enxame de pessoas vindo pelo Mediterrâneo em busca de uma vida melhor, porque o Reino Unido tem bons empregos, a economia está crescendo, mas precisamos proteger nossas fronteiras”. E arrematou: “Devemos proteger as fronteiras para ter certeza de que os turistas britânicos poderão ir para as suas férias”. É verão na Europa. Seu pronunciamento não foi bem recebido por alguns. O Eurotúnel agora é foco de ataques. 
 
Um pouquinho de história. Quando a escravatura foi abolida, na primeira metade do século XIX, os europeus, que detiveram o comércio de seres humanos, resolveram repensar o que inventar para que as riquezas continuassem a fluir e a nutrir o progresso em curso face à revolução industrial.
 
Levariam 
 
Houve em setembro de 1884 o “startup” - palavra da moda atual - de uma grande reunião na Alemanha que viria a ser conhecida como “Conferência de Berlim”. Desse conclave, encerrado em fevereiro de 1885, participaram, além do país sede,  Reino Unido, França, Bélgica, Holanda ,Áustria/Hungria, Dinamarca, Itália, Espanha, Portugal e os Estados Unidos, o único não europeu. 
 
Esses países dividiram a África segundo os seus interesses próprios,  desrespeitando etnias, crenças e geografias. Atinaram que, além de mão-de-obra barata, teriam os virgens subsolos africanos para extrair as riquezas minerais possíveis. Do ouro ao ferro, do chumbo ao diamante. Admite-se que 90% do  território da África foi dominado até grande parte do século passado. Encerrada a dominação colonial – e mesmo na sua constância – começa o êxodo e o desejo dos ex-colonizados de habitarem os melhores ares dos países que os dominaram de forma não muito gentil. 
 
Não muito diferente do que aconteceu na África, quase a mesma constelação de países, a partir dos grandes descobrimentos, com a chegada do português Vasco da Gama à Ásia, invadiu o sudeste asiático e o Oriente Médio. Sem precisar de Conferência, houve o que se convencionou chamar de “Partilha da Ásia”. 
 
Foi o “enxame” da voracidade europeia de expansão comercial e a introdução, por exemplo, de “plantations” para o cultivo de arroz, pelos franceses; da seringueira, pela Grã Bretanha; e da cana-de-açúcar pelos holandeses.
 
O continente asiático, depois do fim da dominação europeia, tendo a China, o Japão e a Índia como referências, está em notável ritmo de crescimento. O mesmo, entretanto, não acontece com o Oriente Médio, onde cristãos e muçulmanos, especialmente os xiitas, os curdos e os sunitas, parecem ter despertado após as invasões do Afeganistão, da Síria e do Iraque, e do recente acordo com o Irã para a não fabricação de armas nucleares. Há muitos lados em luta, desde o surgimento e a posterior morte de Osama Bin-Laden. Estima-se que existam hoje cerca de quatro milhões de refugiados no Oriente Médio.
 
Por tudo isso, muitos jovens árabes saíram e continuarão a tentar sair de seus países, ou do que resta deles. O caminho natural da fuga, a pé ou por veículo, passa, entre outros, pela Turquia. Os turcos já prometem construir um alto muro que impeça ou dificulte a invasão de seu território, uma das rotas para o norte da Europa. Por outro meio, o mar Mediterrâneo é o cemitério e o estuário dos africanos que fogem de problemas similares e têm morrido, aos milhares, nas travessias em velhos navios mercantes, cargueiros e até batelões improvisados.
 
Há campos para atendimentos a refugiados, em especial na Itália e na França, trens e veículos sofrem ataques. Tudo leva a desdobramentos que ainda não sabemos onde irão parar. 

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