terça-feira, 20 de março de 2012

UM RECANTO DENTRO DA NOITE

Wilson Ibiapina


O Lustosa da Costa pede que escreva sobre a boite Alabama, uma das primeiras a funcionar em Fortaleza. Me socorro do Narcélio Limaverde, o nosso Google.


Aí lembrei que aqui em Brasília moro na casa que o dono da boite, o Antônio Pompeu, construía para morar. Depois que vendeu a boite, Pompeuzinho mudou-se para Brasília. Antes de concluir a casa desapareceu da obra. Foi encontrado morto no apartamento que tinha na Asa Norte. Nunca se soube o que aconteceu. O carro dele desapareceu. Morte trágica para um homem que viveu parte da vida em meio à música, amigos e mulheres bonitas.

A boite Alabama ficava ali onde hoje é o hotel Esplanada. A freqüência era a mais refinada possível. Toda quinta-feira, o radialista Irapuan Lima transmitia pela rádio Iracema, direto da Alabama, “um recanto agradável dentro da noite calma”.

A rapaziada em Fortaleza, no inicio dos anos 60, freqüentava mesmo era as pensões do centro da cidade. A boite Alabama veio mudar o estilo de diversão da moçada. Na boite tomava-se um drinque, dançava-se ao som de uma boa música. Tudo na penumbra. Podiam levar à namorada. 

Paulo Tarso, que tocava um violão elétrico de quatro cordas, fazia o som com seu conjunto. Paulo havia participado dos Vocalistas Tropicais. O Carlos Alberto Cajazeira, que cantava também nos programas de auditório da Rádio Iracema, se apresentava quase todas as noites. Digo quase porque nas quintas a atração era Joran Coelho. Segundo o Narcélio Limaverde, Joran conquistava os freqüentadores da boite, principalmente quando cantava Molambo (“Eu sei que vocês vão dizer que é tudo mentira.”)

O garçon mais famoso era o Simbá. Era ele quem atendia os radialistas e jornalistas que apareciam por lá, todos lisos, mas cheios de boas intenções. O Antônio Pompeu tinha um quarto anexado à boite.

As paredes eram cheias de papeis e cheques. O Narcélio jura que eram os vales e cheques voadores dos radialistas e jornalistas que decoravam as paredes do local.

A boite fechou pressionada pelo progresso. No local foi erguido o hotel Esplanada, depois vendido e hoje passando por uma lenta e gradual reforma.

O garçon Simbá virou dono de restaurante na Beira Mar. O Pompeuzinho, em Brasília, montou uma loja de espelhos e molduras para retratos. A casa que era dele foi concluída por mim depois que a comprei dos herdeiros. 

Nostalgia regada a Cuba Libre.


Hoje, quando estou em casa nos fins de semana, vez por outra, preparo  uma dose de rum com coca-cola, que era a bebida da época, e coloco o disco da Elizeth Cardoso pra tocar. A faixa é Molambo, samba canção de Jaime Thomás e Augusto Mesquita que foi sucesso desde o momento em que foi gravado pela primeira vez em 1953. Fico recordando a boite Alabama, que marcou toda uma geração de fortalezenses. 



Fecho os olhos e parece que estou vendo o Pompeuzinho, todo solicito, olhando para todos os lados para ver se falta alguma coisa. É quando a voz da Elizeth vai mudando... aí começo a ouvir o Joran Coelho, com aquele bigodinho de ator do cinema mudo, cantando com aquele vozeirão: “... ficou pra matar a saudade/ A tremenda saudade que não me deixou....”

JUMENTO TIPO EXPORTAÇÃO


Com o recente anúncio de que os chineses pretendem importar 300 mil jumentos por ano do Nordeste, ainda no campo das intenções, os protetores de animais e defensores do jegue começam a ganhar espaço na internet e blogs em protesto contra a negociação.
No site Petição Pública, circula abaixo-assinado pedindo que os Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente vetem o que consideram ‘verdadeira carnificina’. ‘Por um tratamento digno aos jegues, que ajudaram a erguer muitas das grandes cidades nordestinas’, defende.
Já o site Acorda Cordel destaca ‘o massacre do jumento nordestino’, com o poeta Cancão de Fogo conclamando os parceiros a se mobilizarem em defesa do ‘nosso irmão’. Jô Oliveira o atendeu, propondo a campanha ‘Adote um jumento. O Menino Jesus lhe agradecerá’.
Os jumentos, companheiros do agricultor do semi-árido nordestino, começaram a ser substituídos pelas motos no trabalho de cercar o gado, buscar água e transportar materiais e pessoas, especialmente depois da política de distribuição de renda do governo federal e facilidades de crédito para compra do veículo.
Para o secretário adjunto de Agricultura do Rio Grande do Norte, José Simplício Holanda, a exportação para a China criaria nova cadeia econômica no Estado, ao mesmo tempo em que seria uma solução para os jumentos abandonados por donos de terra, que ‘fecham as porteiras ao animal’.
Em julho de 2011, o secretário assinou um protocolo de intenções com a Empresa Shan Dong Dong E.E. Jiao Co. Ltda., visando à criação do animal para produção, comercialização e industrialização da carne e derivados. “Por enquanto, nada há de concreto, só intenção”, adiantou Holanda.

VIVA A IRREVERÊNCIA CEARENSE! VIVA QUINTINO CUNHA!





Começou pela Internet uma campanha que pretende divulgar a memória de Quintino Cunha, precursor da molecagem cearense.

A preocupação de quem iniciou a campanha procede. Hoje, a maioria dos cearenses não sabe quem foi Quintino Cunha. Nem mesmo os moradores do bairro que leva o seu nome o conhecem.  Vamos divulgá-lo para que ele não caia no esquecimento.

CASA DE QUINTINO CUNHA EM ITAPAJÉ
O poeta Quintino Cunha nasceu em Itapagé, Ceará, em 1873 e faleceu em Fortaleza, em 1943. Emigrou para o Amazonas durante o ciclo da borracha onde passou a publicar seus textos nos jornais locais da época. Foi com o poema "Encontro das Águas” que o poeta ficou mais conhecido:

"Vê bem, Maria, aqui se cruzam: este

É o rio Negro, aquele é o Solimões.

Vê bem como este contra aquele investe,

Como as saudades com as recordações.



Vê como se separam duas águas,

Que se querem reunir, mas visualmente;

É um coração que quer reunir as mágoas

De um passado as aventuras do presente.

É um simulacro só, que as águas donas

Desta terra não seguem curso adverso.

Todas convergem para o Amazonas,

O real rei dos rios do universo;



Para o velho Amazonas, Soberano

Que, no solo brasileiro, tem o
Paço;
Para o Amazonas, que nasceu humano,

Porque afinal é filho de um abraço!



Olha esta água, que é negra como tinta;

Posta nas mãos, é alva que faz gosto;

Da por visto o nanquim com que se pinta,

Nos olhos, a paisagem de um desgosto.



Aquela outra parece amarelaça;

Muito, no entanto, e também limpa, engana;
É direito a virtude quando passa
Pela flexível porta da choupana.



Que profundeza extraordinária, imensa,

Que profundeza mais que desconforme!

Este navio é uma estrela suspensa

Neste céu d´água, brutalmente enorme.



Se estes dois rios fôssemos,
Maria,
Todas as vezes que nos encontramos,

Que Amazonas de amor não sairia

De mim, de ti, de nós que nos amamos..."

Quintino foi advogado, escritor e poeta. Bacharelou-se pela Faculdade de Direito do Ceará em 1909, e a partir de então começou a exercer a profissão de advogado criminalista.

Foi deputado estadual na década de 1910, mas logo desistiu da carreira de político e encabeçou a campanha do Bode Ioiô para Vereador de Fortaleza, fazendo o animal tirar votos suficientes para ser eleito, caso possível fosse.

Ficou bastante conhecido por seu estilo irreverente e carismático, também lembrado pelas anedotas que contava. É tido como o mais lendário de nossos humoristas literários, o maior de nossos poetas cults. Excêntrico sem ser esnobe. Feio, mas cativante. Eternamente esquecido, sempre resgatado, figura ao lado dos grandes mestres do improviso literário ferino, como Bernard Shaw, Quevedo e Swift, sendo considerado pelo crítico Agripino Grieco "o maior humorista brasileiro de todos os tempos”.

Menino ainda, Quintino Cunha foi convidado a passar uns dias das suas férias na casa de dois coleguinhas de colégio. Lá chegando, na Sexta feira à noite, foi muito bem recebido pelo dono da casa e pelos serviçais. Apesar disso, passaram-se as horas e nenhuma comida era servida.

Passou-se assim o sábado, no mesmo modelo. No domingo ele não aguentou. Com as tripas revirando de fome vestiu as calças pulou a janela , mas deixou um bilhete:

"Adeus casinha da fome
Jamais me verás tu

Aqui criei ferrugem nos dentes
“E teia de aranha no cu”.

Conhecido e até hoje contado pelos frequentadores da Praça do Ferreira, o causo da defesa do deficiente físico conhecido apenas como Francisco, apelidado de “Chico Mêi Cu”, foi uma das mais famosas proezas de Quintino Cunha.

Nos anos 20, um pobre deficiente físico, sem pai nem mãe, mancava pelas ruas do centro da pequena Fortaleza, onde fazia os biscates que lhe davam o pouco para o sustento. Encabulado, quieto e calado, aparentava não dar importância ao canelau que mangava à sua passagem: “Chico Mêi Cu!”, “Chico Mêi Cu!”, “Chico Mêi Cu!”. Foram anos de chacotas.

Certa feita, num ato de cólera, Francisco fez uso de uma peça cortante que transportava, e matou  um de seus mais ferrenhos mangadores. Foi detido e de imediato levado à cadeia pública, onde ficou por um tempo aguardando julgamento.

No dia do juízo, atendendo às súplicas dos que rogavam pela libertação de Francisco, em defesa deste, fez-se presente diante do Júri o renomado advogado Quintino Cunha. Após as interlocuções vigorosas da promotoria, que pedia condenação com pena máxima para o réu, o Juiz deu a vez da defesa, à qual Quintino deu início:

- Meritíssimo Juiz, Ilustríssimo Doutor Promotor, Respeitabilíssimos Jurados. Em defesa de Francisco eu tenho a dizer que... (Pausa).

Após alguns segundos de pausa, ele repete:

- Meritíssimo Juiz, Ilustríssimo Doutor Promotor, Respeitabilíssimos Jurados. Em defesa de Francisco eu tenho a declarar que... (Nova pausa).

Após os novos segundos de pausa, ele torna:

- Meritíssimo Juiz, Ilustríssimo Doutor Promotor, Respeitabilíssimos Jurados. Em defesa de Francisco eu poderia falar que...

De imediato o Juiz esbraveja:

- MAS QUANTA DEMORA! O SENHOR IRÁ OU NÃO DAR INÍCIO À DEFESA?

Ao que Quintino replica:

- Repare só, Meritíssimo: Não faz sequer um minuto que eu só me dirijo a vós de forma respeitosa, e já provoquei vossa inquietação. Agora imagine Vossa Excelência, o que deve ter passado pelas idéias do pobre Francisco, após todos esses anos de achincalhamento e mangoça pública.

Seguindo, Quintino Cunha deu continuidade ao discurso de defesa. E com toda a eloquência e poder de convencimento que lhes eram peculiares, conseguiu a absorvição do réu.

O filho dele, Plautus Cunha, conta num livro de anedotas do Quintino que um dia ele entrou numa repartição do governo - Comissão de Estradas e Rodagens. O tesoureiro, que no momento contava dinheiro, quis impedir a sua entrada.

- Não pode entrar, aqui é uma Repartição!

- Então cheguei em boa hora. Reparta comigo, diz o poeta.

Mas, o tesoureiro insiste:

- Doutor Quintino, isto aqui é uma comissão!

- Melhor ainda. Diz o poeta. - Quero "comer" também!

O renomado médico Álvaro Otacílio Nogueira, sempre ficava à espreita de algum deslize de Quintino Cunha. No meio de uma conversa entre vários intelectuais vislumbrou a oportunidade de jogar-lhe uma "casca de banana" e provocou o poeta dizendo:

- Quintino diz aí três dessas besteiras que tens mania de falar.

 Pausadamente Quintino respondeu:

- Álvaro, Otacílio, Nogueira.

Quem visitar o cemitério São João Batista, em Fortaleza, terá a oportunidade de ler esta inscrição em sua lápide:

“O PAI ETERNO,/SEGUNDO A HISTÓRIA SAGRADA/
TIROU O MUNDO DO NADA,/ E, EU NADA TIREI DO MUNDO”

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sexta-feira, 9 de março de 2012

“Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como um palhaço mas jamais duvidei da sinceridade da platéia que sorria.”

 Charles Chaplin

NO CEARÁ É ASSIM...



Wilson Ibiapina

Fiquei pasmo quando vi o comerciante agindo sem o menor interesse em faturar. A Edilma, minha mulher, foi quem perguntou ao dono do bar restaurante, um dos poucos que existiam na praia do Icaraí, em Caucaia, no inicio dos anos 80:

-O que temos hoje para o almoço?

Ela que não é cearense , não quis acreditar no que ouviu como resposta:

-Queira não. O cozinheiro faltou e quem está na cozinha é minha mulher. Ela
não sabe fazer nada.

Na mesma praia, em outro bar restaurante, presenciamos um turista paulista pedir 20 sanduíches pra viagem. O dono também desnorteou o freguês recém chegado de uma cidade que privilegia o lucro:

- Ôme, isso dá muito trabalho. Leve só salame. Compre o pão ali na padaria e faça sua merenda em casa.

O paulista foi embora sem entender nada.

O jornalista Macário Batista diz que ouviu do repórter Hermann Hesse história semelhante. Hesse e o cinegrafista Edilson Pires foram de Fortaleza a Jijoca, fazer uma reportagem. E é o próprio Macário quem conta:

“Chegaram com o dia amanhecendo. Pararam numa bodega e viram tapioca, cuscuz, caldo, pão dormido e uma garrafa de café. E havia uma cesta de ovos. Hermann Hesse perguntou a uma senhora, que tinha cara de dona, se ela podia fritar uns ovos pra ele e o cinegrafista. Olha a resposta da mulher:

 - Faço nem pra mim!

Oscar Wilde dizia que “pouca sinceridade é uma coisa perigosa, muita sinceridade é absolutamente fatal”. Será sinceridade demais a desse povo? Juro que não sei se esse modo de agir é  preguiça, malicia, ironia ou apenas a pura verdade dita com a simplicidade do povo do sertão. O fato é que no Ceará é assim.
Esta é da revista Seleções Reader's Digest:


"Eu estava triste por que não tinha sapatos, até que um dia eu vi um homem que não tinha pés"

DANÇARINOS PRISIONEIROS



Famosos no mundo inteiro por suas coreografias, os presos dançarinos  do presídio filipino de Cebu, nas Filipinas, quebraram um novo recorde ao interpretarem um dos números de dança de "This Is It", o documentário que homenageia Michael Jackson.
Desta vez, 1.500 detentos vestidos com seus macacões laranja e seus chinelos gastos de borracha encarnam em carne e osso o Exército computadorizado que acompanha o rei do pop em "The Drill", o número especial da música "They Don't Care About Us".

A coreografia, que termina com os internos fazendo um sinal de paz gigante em homenagem ao artista no pátio do presídio, foi incluída nos extras do DVD, lançado em janeiro.

No começo do ano, o próprio coreógrafo de Michael, Travis Payne, viajou para as Filipinas para comandar os ensaios, realizados sob máximo sigilo para evitar vazamentos.
Payne voltou aos Estados Unidos encantado com a atuação, que os presos aprenderam sem problemas em apenas dois dias.
Uma prévia oficial do número foi postada no YouTube e foi assistida por quase 16 milhões de internautas em apenas seis semanas.
A internet foi justamente o trampolim para a fama dos presos filipinos, que em 2007 ficaram conhecidos em todo o mundo com sua recriação da coreografia de "Thriller", de 1982.

O clipe provocou uma avalanche de repórteres e turistas ao presídio, antes conhecido apenas pela violência das quadrilhas que atuavam dentro de seus muros. Entretanto, graças à nova fama dos presos, a prisão recebe cada vez mais doações para modernizar suas instalações, onde uma vez ao mês há um show cujos protagonistas são aplaudidos por seus admiradores como se fossem autênticas estrelas do rock.

O responsável pela transformação é o chefe do presídio, Byron Garcia, que teve a ideia de fazer os presos marcharem ao som de "Another Brick In The Wall", do Pink Floyd. "Em princípio, era um experimento, algo que queria provar em relação à reabilitação dos internos", conta Garcia à Agência Efe.
 

Segundo ele, a dança é uma maneira de manter a política de "disciplina com compaixão" sobre os detentos, que participam de maneira voluntária desta particular companhia de dança quando se arrependem de seus crimes "e aprendem a se comportar".
 
"Usando a música, pode envolver o corpo e a mente. Os prisioneiros têm que contar, memorizar passos e seguir a música", disse Garcia à BBC.

"Os prisioneiros me diziam: "Preciso colocar a mente longe da vingança, da loucura ou de planos para escapar da prisão ou juntar-se a uma gangue'", acrescentou Garcia. Que completa: "O programa de dança deu isto a eles". Deu-lhes auto-estima.

A dança é obrigatória para todos os 1,6 mil detidos na prisão de Cebu, exceto para os idosos e doentes. Para assistir ao vídeo pasta clicar no link abaixo.


Homenagem 80 anos Wilson Ibiapina