sábado, 2 de junho de 2012

VAMOS COMER FARINHA?





Wilson Ibiapina

Galinha com farinha lembra a infância. Morava em Ibiapina quando vi, pela primeira vez, ela sendo preparada para a viagem a Canindé. As malas estavam prontas. Faltava a peça de resistência da viagem de um dia. A galinha, bem temperada, cortada em pedaços, foi pra panela. Parecia uma festa na cozinha. As pessoas ajudando minha mãe, colocando mais lenha no fogão. Depois de cozida a galinha recebeu a farinha de mandioca. Com a colher de pau dona Dalva foi misturando ao caldo temperado que virou a farofa mais gostosa que comi na vida. 

Na viagem, não pensava na roupa de São Francisco que teria de vestir para pagar a promessa para meu irmão ficar bom de uma poliomielite. Ia olhando a paisagem mas só via a galinha com farofa que minha mãe guardava numa lata de biscoito, carregada no colo, com todo cuidado. Nunca esqueci o cheiro que saiu quando a lata foi aberta para o almoço. Tenho certeza que o cheiro tinha um sabor que ainda me enche a boca e um odor que invade o nariz. 

O caminhão de duas boléias levantando poeira na estrada e nós devorando a galinha preparada na véspera. Se a farinha fosse da Europa, estaria hoje entre os melhores complementos da culinária mundial. Acontece que as pessoas sentem vergonha da farinha. Tentam esquecer que um dia foram farofeiros, palavra que, inclusive, identifica os que levam farneis para a praia ou piqueniques.

A farinha não serve para fazer pão, mas é perfeita para a farofa, beijus, pirões. Acompanha assados de carne, ave ou peixe. Já imaginou um churrasco ou um frango sem farinha? Além dos nordestinos, gaúchos e mineiros se amarram numa farinha. Tem gente com tanta prática de comer farinha que causa inveja .Pega a farinha com a mão, joga de longe na boca e, com perícia, não deixa um só grão cair. 

Vamos comer farinha sem culpa. O escritor mineiro Luis Giffoni diz que ela tem a praticidade exigida pela vida moderna. “É o fast-food tupiniquim, com a vantagem imbatível: dura um dia, tempo infinitamente maior ao dos hamburgueres que, em cinco minutos, ficam intragáveis aos olhos e ao estômago.”



ESTÍMULO



O  desembargador escritor Durval Aires Filho, depois de ler o Conversa Piaba:
 
WI: sempre escuto a Conversa Piaba. Espera: sendo impresso, não escuto, vejo e, aproveitando a visão, leio.  

É leve o formato e o texto é gostoso. Tem quase tudo que gosto, digo do papo, das crônicas, das variedades de temas soltos. Na verdade, pra mim,  funciona como uma "boa nicotina", portanto,  um alívio para quem passou o dia ouvindo notícias de política ou de mercado, e examinado sentenças de "cognição saturada". 

abçs. Durval Filho.

GREVE E VIOLÊNCIA




                           
João Soares Neto, escritor

A palavra greve, tal como hoje é usada, tem origem na “Place de Grève”, em Paris, local próximo ao porto do Rio Sena onde, no século XIX, trabalhadores e desempregados faziam manifestações de toda a ordem por melhores condições de trabalho e salários justos.

Aqui, a jovem democracia brasileira consagrou o direito de greve. A Constituição de 1988, no seu art.9, diz: “É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele exercer”. No ano seguinte, a regulamentação da greve (lei 7783/89) no art.6º., parágrafo 3º., estabelece seus limites: “As manifestações e atos de persuasão utilizados pelos grevistas não poderão impedir o acesso ao trabalho nem causar ameaças ou dano à propriedade privada”.

Destruição na sede do Diário do Nordeste

O que se viu, recentemente , em Fortaleza, no atentado à sede do jornal Diário do Nordeste, foi o total desrespeito às normas estabelecidas para o indiscutível direito grevista. Quando se ultrapassa a sensatez e, como horda, viola-se a propriedade privada, há uma ruptura do direito e do diálogo, que deve ser o fio condutor para a solução de todos os problemas individuais e coletivos.

Portaria do Diário do Nordeste foi depredada por operários/ Foto: Reprodução

A ação dos sindicatos é cabida, mas é preciso preservar o que assegura e determina a lei. A propriedade privada que é atingida é a mesma que assegura empregos e, ao que consta, a maioria era de trabalhadores da construção civil e não haviam sido esgotados os canais de comunicação que viabilizam o entendimento entre as partes. Greve é direito. Depredação é violência.

O ÓBVIO ULULANTE DE NELSON RODRIGUES


Nelson Rodrigues

O jornalista Ayrton Rocha manda pro blog o artigo que Arnaldo Jabor publicou no Estadão sobre o pernambucano Nelson Rodrigues, o  inventor do óbvio. Veja que pérola:


"Os 100 anos de Nelson Rodrigues estão sendo celebrados por muita gente que o criticou em vida e hoje o glorifica. Tanto as depreciações quanto alguns louvores são descabidos - ele não era nem pornográfico nem um escritor aspirando à condição de estátua. Nelson adorava elogios, mas odiava os "medalhões".


NR é importante como inventor de linguagem. A importância de sua obra está onde ela parece 'não ter' importância. Onde ela é menos "profunda" - ali é que se encontra uma qualidade rara. Era fácil (e justo) considerar 'gênios' homens como Guimarães Rosa ou Graciliano, mas Nelson nunca coube nos pressupostos canônicos. Sua obra é um armazém, um botequim geral, uma quitanda de Brasil.

Formado nas delegacias sórdidas, vendo cadáveres de negros 'plásticos e ornamentais', metido no cotidiano marrom do jornal do pai, Nelson flagrou verdades imortais que estavam ali, no meio da rua, na nossa cara, e que ninguém via.
Uma vez ele me disse: "Se Deus perguntar para mim se eu fiz alguma coisa que preste na vida, eu responderei a Deus: 'Sim, Senhor, eu inventei o óbvio!'"

Filho do jornalismo policial, Nelson desconstruía o pedantismo tão comum entre nossos escritores.

Uma vez ele me disse ao telefone que o "problema da literatura nacional é que nenhum escritor sabe bater um escanteio": ensolarada imagem esportiva para definir literatos folgados. Até hoje, muita gente não entendeu que sua grandeza está justamente na observação dos detritos do cotidiano. A faxina que Nelson fez no teatro e depois na prosa é semelhante à que João Cabral fez na poesia. Nelson baniu as metáforas a pontapés "como ratazanas grávidas" e criou antimetáforas feitas de banalidades condensadas. "A poesia está nos fatos", como escreveu Oswald no Pau Brasil. Pois é, Nelson também odiava metáforas gosmentas. Suas imagens não aspiravam ao "sublime". Exemplos: "O torcedor rubro-negro sangra como um César apunhalado", "a mulher dava gargalhadas de bruxa de disco infantil", "seu ódio era tanto que ele dava arrancos de cachorro atropelado", "a bola seguia Didi com a fidelidade de uma cadelinha ao seu dono", "o juiz correu como um cavalinho de carrossel", "o sujeito vive roendo a própria solidão como uma rapadura", "somos uns Narcisos às avessas que cuspimos na própria imagem", "vivemos amarrados no pé da mesa bebendo água numa cuia de queijo Palmira", "hoje o brasileiro é inibido até para chupar um Chica Bon".

Visto por ele, tudo boiava no mistério: os ovos coloridos de botequim, as falas dos 'barnabés', as moscas de velório no nariz do morto. Nelson fazia a vida brasileira ficar universal, não por grandes gestos, mas pelo minimalismo suburbano que ele praticava. E o sublime aparecia na empada, na sardinha frita ou no torcedor desdentado.

Sua obra é um desfile de tipinhos anônimos, insignificantes - nisso aparecia sua grandeza desprezada. São prostitutas bondosas, cafajestes poéticos, canalhas reluzentes, vagabundos épicos, sobrenaturais de almeida, adúlteras heroicas e veados enforcados. Ele me dizia: "O que estraga a arte é a unidade..."

Ele dava lições de arte e literatura: "Enquanto o Fluminense foi perfeito, não fez gol nenhum. A partir do momento em que deixou de ser tão Flaubert, os gols começaram a jorrar aos borbotões, pois a obra-prima no futebol e na arte tem de ser imperfeita." Existe coisa mais 'contemporânea'?

Gilberto Freyre sacou sua "superficialidade profunda", assim como André Maurois entendeu que a genialidade de Proust era "a épica das irrelevâncias..." E isto é muito saudável, num país onde ninguém escreve um bilhete sem buscar a eternidade.
Nunca deixava a literatura prevalecer sobre a magia dos fatos. Sempre um detalhe inesperado caricaturava os dramas. No meio da tragédia, vinha a gíria; no suicídio - o guaraná com formicida; no assassinato - a navalhada no botequim; na viuvez - o egoísmo; nos enterros - a piada.

Uma vez, me contou que viu uma família esperando num hospital a notícia sobre um filho atropelado. Morreu ou não? Afligiam-se todos, vistos pelo Nelson através do vidro do corredor. Viu o médico chegar e dizer que o menino tinha morrido. "Eu vi pelo vidro. Não ouvi um som. A família começou a se contorcer em desespero. Pai, mãe, tios gritavam e, através do vidro, pareciam dançar. Pareciam dançar um mambo. Daí, eu concluí a verdade brutal: a grande dor dança mambo!..."

Nelson recusava teorias. Contou-me um episódio hilário: uma vez o Oduvaldo Viana Filho e Ruy Guerra, grandes artistas, chamaram-no para escrever um roteiro de filme sobre uma mulher adúltera. Nelson foi trabalhar com eles, mas desistiu e me disse: "Parei, porque eles queriam que a adúltera fosse para a cama do amante e traísse o marido movida apenas pelas 'relações de produção'...."

Ele intuiu na época que a vulgata do marxismo era o ópio dos intelectuais. Foi chamado de fascista porque puxava o saco do Médici, para ver se soltava o filho preso havia anos. Eu mesmo sofri por causa dele; em 1973 ousei filmar Toda Nudez Será Castigada e dei uma entrevista na Veja em que disse que "fascismo é amplo: existe fascista de direita e de esquerda também". Pra quê? Mandaram um manifesto à revista onde me esculhambavam indiretamente, dizendo que o sucesso imenso que o filme fazia "não era a missão do cinema novo". Foi das grandes dores que senti, pois até amigos assinaram o maldito texto, que só não foi publicado porque, um dia antes, os generais tiraram o filme de cartaz, com soldados de metralhadora, levando as cópias dos cinemas. Aí, meus amigos comunas tiraram o texto, "para não dar razão ao inimigo principal", que era a ditadura, a censura. (Eu e Nelson éramos inimigos secundários, para usar o termo de Mao Tsé-tung). O filme voltou ao cartaz porque ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim e os generais ficaram com medo da repercussão e liberaram a exibição.

Se fosse vivo, ao ver os escândalos atuais, repetiria a frase eterna: "Consciência social de brasileiro é medo da polícia."

O POETA E BRASÍLIA




Elício Pontes é cearense de Nova Russas. Cresceu em Crateús, morou em Fortaleza, onde tornou-se jornalista e radialista e vive em Brasília, onde foi professor da UnB.

Elício Pontes
Formado em Pedagogia pela Universidade Federal do Ceará, é mestre em educação pela University of Southern California e doutor pela Universidad Nacional de Educación à Distancia, da Espanha. É irmão do jornalista Mário Pontes, que durante anos brilhou nas páginas do Jornal do Brasil. 

Elício tem dois livros de poesia. Num deles - “Metade de mim é verso” revela sua decepção com o que estão fazendo com a cidade  que adotou junto com os filhos e a amada Olívia.

BRASÍLIA CINQUENTONA

“Quando cheguei, o rosto da cidade
se pintava de vcrmelho
com o pó da terra goiana.


Ética não era uma palavra
era um sentimento
um gesto.
Praticava-se o encontro
o riso franco e honesto
ao amigo desconhecido


Quero de volta a poeira
que sujava apenas os sapatos.
Quero juntar de novo
o pó e a ética,
fundir numa palavra
a imagem verdadeira de Brasília:
Poética

VAI SER ASSIM




Wilson Ibiapina

Estava voltando do almoço para o trabalho, liguei o rádio do carro para ouvir a previsão para o fim de semana em Brasília. Estava lá, na CBN, a comentarista Marília Juste falando sobre supervulcões. 

Quando a gente pensa que ficou livre dessa história de fim do mundo, com cientistas dando uma versão amena ao Calendário dos Maias, uma comentarista aparece avisando: um supervulcão pode acabar com a Terra daqui a milhares de anos ou daqui a pouco.

Confesso minha ignorância. Nunca tinha ouvido falar nestes vulcões com potencial de gerar catástrofe global, extinção em massa. E os supervulcões são muitos. Estão espalhados em várias regiões do planeta. O termo supervulcão apareceu num programa científico da BBC de Londres. Desde 2004 vem sendo usado em artigos. 

E a comentarista foi explicando. Um surpervulcão não fica num monte, como a gente está acostumado a ver. Eles formam grandes caldeiras que após a explosão se parecem mais com crateras; ao contrário dos vulcões comuns que possuem normalmente domo em forma de cone devido ao acúmulo gradativo de lava expelida pelo topo. 

Fui lá no Google: “As crateras formadas por supervulcões são enormes e podem ter algumas dezenas de quilometros de extensão, algumas sendo percebidas apenas por imagens de satélite. 

Yellowstone
Um dos maiores deles, é o Yellowstone , que fica nos Estados Unidos. tem sua caldeira com mais de 60km de diâmetro. Ele é monitorado por cientistas. Todos os anos, o solo em Yellowstone tem uma elevação, um inchaço, devido ao Magma e pressão interna da caldeira, esse inchaço é de 5 a 7 cm por ano.

A comentarista explicou didaticamente. A explosão de um supervulcão desses seria equivalente a milhões de bombas nucleares. Lembra o transtorno que aquele vulcão – o EYJAFJALLAJÖKULL, que entrou em erupção ano passado? Pois bem, um outro vulcão, o Katla, vizinho desse de nome complicado, está prestes a acordar. Ele é coberto por uma grossa geleira que vai derreter, causando inundações. Uma espessa camada de nuvens de cinzas vulcânicas irá refletir a luz solar gerando queda da temperatura. Substâncias tóxicas na fumaça criarão risco de extinção biológica dentro do território islandês, e as consequências do Katla irão facilmente ultrapassar a do outro, que afetou o transporte aéreo europeu.


Tudo isso será pinto diante da erupção de um supervulcão. Ela advertiu: O supervulcão do Yellowstone, nos Estados Unidos, está quase pronto para explodir. A imensa deformação do solo nessa área é o principal sinal que um "terremoto lento" de tamanho e poder de devastação enormes pode na verdade já estar a caminho. Estaria formando magma quente dentro de sua cratera, o magma empurrará as rochas do interior; na parte mais fraca da formação de rocha que forma as paredes da cratera, o magma começará a empurrar para cima e/ou para fora, criando uma "deformação no solo ou nas rochas".

A erupção de um supervulcão fará o dia virar noite. Fumaça e cinzas taparão o Sol, matando a vida na terra.  Marília Juste terminou falando da importância das pesquisas para se descobrir vida em outro planeta, um lugar para onde possamos nos mudar antes da explosão final, do chamado Big Bang provocado por um supervulcão. E eu que só queria saber como ia ser o tempo no fim de semana.

Homenagem 80 anos Wilson Ibiapina