domingo, 19 de agosto de 2012

DE CLIQUE EM CLIQUE




Mônica Rocha - jornalista 
Uma das coisas boas da internet é poder se comunicar com inúmeras pessoas. Expor nossos pensamentos, ideias, anseios. Todo tipo de texto... poesia, crítica literária, crônicas, enfim tudo que der na telha. 
Hoje somos todos “escritores”, “jornalistas”, “articulistas”. Não precisamos trabalhar para um jornal, revista. Publicarmos livros...  E a audiência é imensa. Ninguém precisa sair de casa, gastar dinheiro em uma livraria, ou mesmo comprar um jornal ou revista... Está lá, é instantâneo, gratuito e imediato. 
Escrevi, publiquei, e, quem quiser ou tiver interesse, basta acessar, clicar e ler. Além de, cá pra nós, ser um hábito muito saudável. Exercitar nossas caraminholas, colocar em ordem os pensamentos, burilar as palavras, relacionarmo-nos com nossa língua, identidade, “conversar” com os amigos e desconhecidos. Quanto mais se escreve, mais se escreve. E quiçá até usar este espaço para convocar o povo brasileiro, descansado em berço esplêndido, para irmos à rua, dar um basta nestes políticos indecentes. 
No Brasil, vamos pra rua só para festejar. Carnaval, parada gay... Brigar pelos nossos direitos, nem pensar. Ficamos um com outro, reclamando, discutindo, debatendo e nada. É na casa de amigos, nos bares, táxi, fila de banco e assim vamos exercendo nossa “capacidade política de cidadão”. Somos realmente um gigante adormecido. 
O país mudou, mas o básico, necessário a qualquer grande nação, não temos. Estamos em 2012 e nossas escolas, hospitais e segurança são do início do século. Como poderemos nos desenvolver, educarmos, evoluirmos como cidadãos se a maioria de nós sabe quando muito assinar o nome. Telas de plasma, geladeira dúplex, micro-ondas não engrandecem um povo. Não é herança... Chega de folclore e faz de conta.... temos de cair na real e exigirmos nossos direitos como cidadãos, pagadores de altos impostos. Chega de paternalismo, somos nós os responsáveis por este país. 
O Brasil não é dos políticos nem do presidente. É nosso. Somos, cada um de nós, com nossas atividades e postura, que fazemos dar certo. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

CRÔNICA - CONVERSA DE BOTEQUIM




Ayrton Rocha 

Todo bom Botequim que se preza, tem que ter como dono um bom português. E se tiver bigode, tipo aqueles bigodes vastos, melhor ainda. É mais original. É o autêntico Português dono de Botequim. E tem mais: tem que ser um pouco abusado. Não grosso. Só um pouco abusado. Não pode reclamar do cliente, da última conta que está pendurada. 

A pendura da conta faz parte da classe do bom Botequim. Como todo bom Botequim, tem que ter um Garçom chamado Manolo. E um outro, garçom cearense, quase sempre do Cariré, que a freguesada só chama de ''Ceará''. Eu não conheço um Boteco no Rio de Janeiro que não tenha estas duas espécies de Garçom. E não existe nada igual aos Botequins do Rio. 

O chopinho, tanto o dourado como o preto, tem que ser bem tirado. Tem que ter colarinho e ser estupidamente gelado. Esse é o Botequim do Rio. Tem que ter o balcão de aço, sobre uma pequena vitrine com os mais deliciosos tira-gostos, onde se bebe em pé, praticamente na calçada, mexendo com as mais gostosas mulheres que passam e que sabem que são gostosas e gostam de serem galanteadas. 

Tônia Carrero, na década de cinqüenta, quando explodia Ipanema com sua beleza, perdia o dia quando ninguém mexia com ela ao passar por um Botequim descendo a sua beleza a caminho do Mar. 

Para os mais gulosos, tem que ter aquele sanduíche de pão francês com pernil. Hum! A conversa rola solta. Da mulher bonita até o futebol. Política nem pensar. Só se for pra malhar. Trabalho, só amanhã. Vale até Rifa. Só não vale se estressar. 

Uma manhã de sábado, eu estava num Boteco em Copacabana, na Rua Miguel Lemos, quase esquina da Avenida Atlântica. Rifou-se tudo. Garrafa de whisky, tira-gosto, rodada de chope, rifou-se até uma melancia. Lá pelas tantas, os bebuns já não tinham mais nada para rifar. De repente, um bebum mais sóbrio teve uma idéia genial. Tão genial que só um bebum de carteirinha com doutorado em Botequim de Copacabana, no Rio de Janeiro, pode ter. Rifou uma nota de ''Cem Cruzeiros''. A moeda da época. Foram dez pontos de ''Dez Cruzeiros'' para cada bebum. E foi um sábado alegre para o ''Manolo'' e o ''Ceará''. Os bebuns engordaram a caixinha dos dois garçons nesta manhã de sábado. 

Mas o Botequim não só tem a turma do balcão. Tem a turma de boêmios românticos que se distribuem nas mesas no salão interno do Botequim. Lá o papo é mais sério. Lá dentro, além do bom papo, tem sempre um violão, um cantor romântico e nunca falta uma linda voz feminina cantando Bossa Nova. Lá dentro tem o poeta que chora seus lindos poemas de amor. O poeta que diz seus poemas pra mulher que ainda não chegou. 

O Boteco está cheio de mulheres, mas para ele nenhuma delas lhe interessa. A mulher que ele quer, ele aguarda sem nenhuma pressa. Ou então muito ansioso. 

É proibido rolar ciúme em Boteco. O mulherio circula entre a rapaziada com desenvoltura e charme. Ninguém é de ninguém. E se for à noite, aí o bicho pega, porque à noite todos os gatos são pardos. Toda Mulata é Coelhinha. 

O Boteco de respeito não tem hora pra fechar. Enquanto tiver bebum entornando, mulher bonita circulando e boêmios cantando, é proibido fechar Boteco. E tem mais, o tradicional Boteco tem que abrir cedo. Tem boêmio que começa o expediente muito cedo. O Botequim ''Bofetada'', adotado por Leila Diniz, lá em Ipanema, na Rua Farme de Amoedo, abria as seis e trinta para o café da manhã. 

Lúcio Rangel, jornalista e grande pesquisador da música popular brasileira, há esta hora, já estava à porta esperando para tomar a primeira daquele dia. Ou quem sabe, a última da noite que passou. O Cronista do primeiro time Carlinhos de Oliveira, escrevia diariamente suas Crônicas para o caderno B do Jornal do Brasil na mesa de um Botequim no Leblon. 

Num Boteco onde tem mulheres bonitas e belas Mulatas, nenhum bebum sai batido. E quem é bom de Botequim, quem sabe ser ''Cachorro Doido'', no dia seguinte não fala nada. Fica quieto de olho em nova presa. 

As noites do Botequim fazem parte do currículo do bom boêmio. E o meu currículo é rico de Botequins. O Botequim faz parte dos amantes das noites e das mulheres. Mulheres e noites de grandes Botequins que inspiraram Nelson Cavaquinho, Pixinguinha, Cartola, Mário Lago, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Vadico, Braguinha e o Grande Noel Rosa no Maravilhoso samba ''Conversa de Botequim''. 

Poetas, Seresteiros, namorados, salvai os Botequins, refúgio sentimental dos grandes Boêmios e bebuns profissionais.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A PRIMEIRA PRAÇA DE FORTALEZA




Wilson Ibiapina

Quando era menino em Fortaleza, meus pais me levaram para conhecer a primeira praça da cidade. Estávamos nos anos 50 e já era chamada de Passeio Público. De um lado a Santa Casa, do outro a fortaleza de Nossa Senhora de Assunção. 
Santa Casa da misericórdia.
O Pálace, o maior e melhor hotel da cidade, ficava olhando para a praça e para o mar. Impressionava a quantidade pessoas que usavam o logradouro. Sem televisão, sem rádio, era o lugar preferido para conversar, paquerar, se exibir.

Foto rara da Praça
O jornalista Colombo de Souza Filho lembra que a praça, construída em 1864, já foi Campo da Pólvora, Largo do Hospital de Caridade, e Praça da Misericórdia. Em 1864 foi urbanizada e dividida em três níveis. O primeiro era frequentado pelos ricos. Outros dois planos pelas classes média e pobre.

Na parte de debaixo, quase na beira do mar, ficava a usina da Light. Entre a praça e a Usina havia o Derby Club e o campo de futebol, o primeiro de Fortaleza. Colombo lembra que Walter Hansen Barroso retornou da Alemanha, onde passou mais de seis anos, trazendo as primeiras seis bolas de couro e vários jogos de camisas. Até então, a moçada jogava com bola de borracha. Foi nesse campo que foram disputadas as primeiras partidas de futebol do estado. Os times eram formados por marinheiros dos navios ancorados no porto do mucuripe, por ingleses que trabalhavam na Light e na rede ferroviária e cearenses da classe rica.

O progresso destruiu tudo. A Usina, movida a lenha, soltava muita cinza, o que deu nome ao bairro que surgiu no local, habitado por prostitutas e com muitos cabarés. Atualmente parte daquela área é ocupada pelo hotel Marina Iracema Park.

Em abril de 1879 a praça foi denominada oficialmente de Praça dos Mártires, uma homenagem aos cearenses fuzilados ali por pertencerem ao movimento República do Equador. Entre os que morreram estão João Andrade Pessoa Anta, padre Mororó, Carapinima e o tenente-coronel Francisco Miguel Pereira Ibiapina, pai do padre Ibiapina.

Moradoras escolhiam suas melhores roupas para passear na Praça

As pessoas, com as melhores roupas de domingo, iam passear ali. Curiosamente, todos, homens e mulheres, usavam chapéus. As árvores centenárias, como o obaobá que o senador Pompeu plantou em 1906, dão sombra e embelezam a praça, cheia de bancos de ferro.


O bar e restaurante que ficava ao lado do coreto dava vida à cidade. Ainda é o Colombo de Souza Filho que recorda: “Além da cerveja bem gelada, o restaurante servia a melhor sopa de cabeça de peixe da cidade. Curava qualquer ressaca.” O dr. Bier (o médico Abner Brígido) gostava de levar ao Passeio Público os artistas que iam se apresentar em Fortaleza. Passaram pelo coreto Elizeth Cardoso, Xavier Cugat e Ninón Sevilla, a cubana que cantava e dançava exibindo belas pernas e que morou no México, onde consolidou sua erótica figura no cinema mexicano na década de 50.


Com surgimento de outras praças, o Passeio Público foi perdendo seu charme. Passou a ser frequentado por prostitutas e marginais. Nos anos 60 foi ensaiada uma recuperação. Foi tombada pelo IPHAN em 13 de janeiro de 1965. O barzinho que fica no canto da praça voltou a servir lanches, bebidas. O Passeio Público ganhou um fôlego, mas atravessou o século entregue de novo ao abandono. Em outubro de 2007 a praça foi restaurada.

Agora, o jornalista Ayrton Rocha, em pleno domingo, telefona de lá. Para minha surpresa estava bebendo cerveja e “ cubando” o movimento, numa demonstração de que o local está mais uma vez revitalizado. 

Rosana Lins
O restaurante está arrendado pelo casal Dário Nascimento, desenhista técnico e engenheiro de origem capixaba e de sua mulher, a bela e delicada Rosana Lins, publicitária, paulista. Ayrton diz que Rosana é tão apaixonada pela praça que hoje, é uma Guardian de todo o acervo e da manutenção da beleza do local. Ela transformou a praça, não só num belo ponto turístico, mas um lugar de lazer para a cidade.



É um restaurante orgânico de segunda a segunda. Um fato curioso : O almoço, tem a frequência das pessoas que trabalham no centro da cidade, com direito a uma sesta, aquele descanso após o almoço que Rosana chama de "Espaço para o Silencio" nas dezenas de bancos espalhados na praça. As 14 horas, os guardas municipais que policiam a praça, saem acordando todos, para voltarem ao trabalho.

Segundo o Ayrton, o funcionamento é de nove da manhã às cinco da tarde. Às sextas feiras, tem o Happy Hour até as dez da noite, com musica ao vivo. Durante a semana tem música ( Jazz) para ouvir e relaxar, bebendo uma cerveja gelada com petiscos e caldo de cabeça de peixe e assistindo o por do Sol. A vista para praia Formosa é linda. Sábados tem feijoada com música ao vivo. Mesas espalhas sob árvores centenárias e frondosas. Domingos, feijoada e bacalhau.

As famílias fazem pic nic, levando suas comidas e suas toalhas. Comemoram aniversários de criança na praça, usando as mesas do bar. A frequência maior é da população local e depois turistas.

Rosana conta que estão com o restaurante a 1 ano e 9 meses, conseguindo neste período, vencer todo o preconceito contra a praça. A praça é democrática. As prostitutas não podem mais fazer ponto lá, trabalhar na praça, mas podem almoçar, até porque, elas moram pelas redondezas. Como diria Castro Alves, “A praça é do povo como o céu é condor”.

A Praça hoje


domingo, 29 de julho de 2012

VOCÊ TEM COMPANHIA AQUI NO CONVERSA PIABA


O blog aqui é feito para manutenção de amizade, sem pretensão de concorrer com os outros que informam as notícias do dia. É uma conversa despretenciosa que está saindo do pequeno círculo de amigos e se espalhando pelo mundo...

Ficamos surpresos ao constatar que temos leitores distantes. Para comprovar que você não está só, veja como anda nossa audiência:

 

BRASIL OLÍMPICO




João Soares Neto, escritor
A “Veja” especial sobre a Olimpíada de Londres transforma Neymar em Guarda da Rainha, copiando a capa da “Realidade”, de 1966, com Pelé. Naquela Copa, o Brasil foi pífio. O iatista Robert Scheidt metamorfoseou-se em Churchill. Fabiana Murer encarna a Mary Quant, estilista que “criou” a minissaia. E por aí vai. Esse fato mostra o endeusamento de atletas que, ao final desses jogos, trarão, se muito, 20 medalhas. 


Foram gastos milhões por um Comitê gerido há anos pelas mesmas pessoas. Desde 1920, o Brasil ganhou apenas 91 medalhas. Dessas, apenas 20 foram de ouro. Os gigantes EUA, no mesmo período, ganharam 929 ouros. A razão? A maioria dos atletas sai de universidades. Os nossos, não. Muitos se deslumbram com o novo status e caem na gandaia. Não só no futebol. A vantagem de ser celebridade efêmera é que se é conhecido por quem não o conhece de fato.
A pequena Cuba tem 194 medalhas, 97 ouros. O nosso melhor desempenho (15 medalhas) foi na Olimpíada da Antuérpia, 1920. Todos eram amadores. Agora, há fartos patrocínios de empresas públicas e privadas e os atletas se consideram heróis  só pelo fato de estarem na alegre comitiva de 2.000 pessoas, com menos de 300 atletas.

Alugou-se o caro Crystal Palace, centro para  treinamento de algumas modalidades.  É claro que torço pelo nosso sucesso. Entretanto, é preciso ver o que se fez antes, hoje e o que mostraremos em 2016, quando sediaremos a Olimpíada. O Brasil deve deixar de ser fanfarrão e melhor educar/preparar os seus atletas que não podem ser heróis antecipados.  

AVA GARDNER E O CANTOR CEARENSE




Wilson Ibiapina

Ayrton Rocha enviou-me de Fortaleza um CD com músicas selecionadas por ele na voz do saudoso cantor cearense Carlos Augusto. Ao ouví-lo lembrei da história, até hoje não explicada, de que o cantor cearense teria negado fogo num encontro amoroso com Ava Gardner.

A famosa atriz norte-americana nasceu em Grabtown, na Carolina do Norte. No livro biográfico de Frank Sinatra, escrito por Bill Zehme, 
foi apresentada como a “mulher-criança e deusa libertina, de olhos cor de esmeralda e pés descalços, que fora casada com Mickey Rooney, Artie Shaw” e que quase leva Frank Sinatra à loucura. Aos 26 anos já era uma estrela de primeira grandeza. 

Nos anos 50 era vendido no comércio um copo longo para uísque com três inscrições: na marca de uma dose estava escrito mulher, homem para duas doses e, quase na boca do copo, estava lá: Ava Gardner.


Segundo o jornalista norte-americano Bill Zehme, da revista Esquire, Ava "flertava bem, fumava muito, adorava esportes sanguinários, xingava bem, gostava de espaguete, de sexo e sabia colocar o dedo direitinho na ferida”. 

Ela desembarcou no Rio em 1954 para promover seu filme Condessa Descalça. Estava com 34 anos e no auge da carreira e da fama. O Rio de Janeiro que sempre se desmanchou aos pés de celebridades, na época ainda mais provinciano do que hoje, enlouqueceu com a chegada da atriz.

Fazia pouco tempo da morte de Getúlio Vargas e os agentes de segurança temiam que o país fosse abalado por uma revolução. O tumulto de fato ocorreu, mas foi provocado pela presença dela. A confusão começou no aeroporto do Galeão. A multidão rompeu o cordão de segurança. Ela se queixou muito das “mãos bobas”. Depois de muito sufoco e empurra-empurra, Ava conseguiu entrar num táxi. Mas o carro não dava partida. Ela, nervosa, tirou o sapato do pé e bateu na cabeça do motorista. E lá se foram rumo ao hotel Glória. 

Ava Gardner não gostou nada do apartamento que lhe foi reservado. Conta-se que ela quebrou tudo que havia no quarto depois de discutir com o gerente que a expulsou de lá. Os jornalistas Sérgio Augusto e Henrique Veltman, que presenciaram toda a confusão, ajudaram Ava a levar suas malas para o Copacabana Palace. Foi lá que ele conheceu o cantor cearense Carlos Augusto.


Garotão bem apanhado, voz bonita, revelado por Ary Barroso, estava fazendo sucesso, viajando pelo país ao lado de Emilinha Borba. Trabalhava como crooner da orquestra do maestro Copinha. Cantava no Golden Room do Copacabana Palace. Foi lá, tomando um drinque, que Ava se interessou por ele. Apesar da fama de conquistador, quando a atriz o convidou para ir até o apartamento dela, ele se intimidou. Ele estava diante do que o cineasta francês Jean Cocteau chamou de o “animal mais belo do mundo”. Qualquer um tremia, principalmente sendo escolhido por ela. Assim mesmo, depois de muita insistência, eles subiram.

O que aconteceu lá só os dois sabiam, mas a malícia do povo não se contentou com o silêncio deles. Os fofoqueiros de plantão colocaram a imaginação pra funcionar. Uns diziam que ele negou fogo, brochou e acabou sendo expulso do apartamento. Há quem jure, como o Ayrton Rocha, que o machão cearense foi lá e domou a fera. Ava morreu em 25 de janeiro de 1990.


Em sua autobiografia a estrela escreveu sobre a passagem pelo Rio, mas apenas explicou o problema ocorrido no hotel. Não dedicou uma só linha sobre qualquer caso amoroso. Veja:
" A United Artists não tinha nos colocado no hotel que eu havia pedido, mas sim numa espelunca que cheirava a fumaça e tinha mais queimaduras de cigarro do que a Carolina do Norte inteira. Por isso me mudei calmamente para o hotel que eu queria. Na manhã seguinte, no entanto, os jornais contaram uma história completamente diferente. Eu tinha chegado bêbada, fazendo confusões, descalça (era verdade que eu tinha chegado descalça, pois o salto do meu sapato quebrara quando fui amassada por uma multidão no aeroporto). Eu destruíra meu quarto, e a gerência do hotel, para provar a coisa, logo chamou fotógrafos, sem ter outra opção a não ser me expulsar.
O que realmente aconteceu foi que o hotel, numa espécie de vingança por eu ter decidido me mudar, contratou um verdadeiro exército destruidor menos de uma hora depois que saí. Quebraram todos os espelhos, atiraram garrafas de uísque por toda parte, destruíram a mobília, arrasaram literalmente com tudo.

Nem vamos considerar que eu não teria conseguido fazer todo aquele estrago mesmo com machados e uma semana para trabalhar. Todos acreditaram nas manchetes. Nem uma entrevista à imprensa e nem uma desculpa do governo brasileiro fizeram com que a verdade vencesse a mentira nos jornais do mundo inteiro.”
Como ela não se explicou, as histórias ganharam versões. Carlos Augusto teria sido ameaçado pelos seguranças da atriz, que prometeram castrá-lo caso abrisse a boca. Ayrton Rocha, que foi contemporâneo dele e de suas irmãs Cleide e Adamir Moura, duas vozes lindas que fizeram sucesso como as Irmãs Vocalistas, conta que Ava Gardner e Carlos Augusto foram além de uma noite de prazer. “Tiveram, sim, um romance de muito uísque e grande paixão.” Segundo ele, os dois seguiram do Rio para Buenos Aires, onde teria surgido um fato novo. O produtor americano de Ava, que viajava com eles, era apaixonado por ela e ninguém sabia. Na capital argentina, o cara se descontrolou e explodiu seu ciúme. Atirou em Carlos Augusto que escapou por pouco. Foi quando ele decidiu retornar, deixando aquela perfeição de mulher e um amor impossível.
Seja como foi, Carlos Augusto, que morreu em outubro de 1968 aos 36 anos num acidente de carro perto de Fortaleza, nunca desmentiu nem afirmou essa história que virou lenda no Rio. Quando lhe perguntavam sobre aquela noite no Copa – comeu? Ele, com olhar enigmático, apenas esboçava um sorriso, como quem diz: “O que você acha?”

O CÂNCER DO JAGUAR



Trecho de artigo do Jaguar publicado no jornal O Dia, do Rio, anunciando que está com câncer:
JAGUAR: PISCINA DE CERVEJA


Rio -  Uma piscina olímpica, no mínimo, foi o que bebi nos últimos 62 anos (completei 80 há 7 meses e bebo desde os 18). Para ficar só nas cervejas, sem falar nos vinhos e nos destilados: cachaça, underberg, bagaceira, grapa, tequila, steinhager, pisco, conhaque, rum, aquavit, gim, sakê, até absinto. E mil coquetéis, do Hi-Fi ao dry-martini. 

Durante esse tempo todo, consumi no mínimo uns 5 litros por dia da loura gelada, façam as contas. Quem persevera sempre alcança: fui fazer um checape de rotina e deu cirrose em estágio pra lá de avançado e vários cânceres ( tem plural?), no que os antigos boêmios chamavam carinhosamente de figueiredo.

Em linguagem técnica, eu estava com CHC (Carcinoma Hépato Celular). O médico do Chico Caruso aconselhou procurar o maior oncologista (especializado em câncer), com consultório em São Paulo. Ele foi sucinto. “Precisa operar     imediatamente”. Levei um susto. Cheguei aos 80 sem um furo no meu corpo, exceto os que já nasci com eles. “E se não quiser operar, doutor ?” “Você vai ter entre 2 a 20 dias de vida, na melhor das hipóteses”. Achei um exagero: “Mas não sinto nada, nenhuma dor”. “ Você é um caso raro. Qualquer     um no seu estado teria náuseas, dor e febre”. “Depois da operação posso voltar a beber?”

Como o corvo de Edgar Allan Poe, respondeu: “Nunca mais”. “Então deixa pra lá, o que tinha que fazer fiz e o que não fiz não farei mais”. O resto da vida vendo tevê, lendo jornal ou jogando biriba no Posto 6 com outros velhinhos. 

Mas não houve jeito de escapar. Célia me internou no Hospital Sírio-Libanês, o mesmo onde estiveram Lula e a Presidenta. Antes almoçamos no Gero com dry-martinis, vinho e underberg. Pelo menos minha presumida última refeição foi bem melhor que a de Cristo. Quando chegamos,     havia uma multidão de fotógrafos e cinegrafistas. “Como descobriram? Só os médicos, Célia e eu sabíamos”. Ledo Ivo engano (licença, Sérgio Porto). Estavam na porta do hospital para cobrir a saída de Pedro, filho do cantor sertanejo Leonardo. No meu tempo era cantor caipira, com chapéu de palha e  botina. Agora é chapéu texano, muita joia e botas de     grife.

Homenagem 80 anos Wilson Ibiapina