domingo, 9 de setembro de 2012

MARIZA





Mariza é hoje a maior interprete do fado português. Foi a principal atração do show que encerrou as comemorações do sete de setembro em Brasília. O repórter fotográfico Hermínio Oliveira, também português, registrou a apresentação da grande cantora. Depois conversou com ela, como conta neste bilhete: 

"Meu bom amigo,


Falei em você à Mariza, pedi que ela pare de cantar "Ó gente da minha terrra",* pois quando a gente  a vê cantando, ficamos  com as lágrimas nos olhos, por isso aqui vai  uma foto dela cantando, para o teu blog.


Com o meu grande abraço

Hermínio"
-
* "Ó gente  da minha terra" é um bonito fado  que Amália Rodrigues fez para homenagear seus conterrâneos:

"É meu e vosso este fado
Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra

Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi

E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

OPERÁRIO DA JUSTIÇA





Wilson Ibiapina

O ministro César Asfor Rocha, ao completar 20 anos no  Superior Tribunal de Justiça pediu o boné. No livro que registra os principais momentos de sua carreira, “Imagens e Palavras”, ele desabafou: “Envolvi-me tanto e tão profundamente nos afazeres do judiciário e tal é minha identificação com suas ingentes tarefas que não saberei mais como é viver fora dela. Contudo nunca deixo de me lembrar que há vida lá fora. Mais até: que a vida está lá fora.”

César Rocha é aquele cara que não teve juventude. De menino passou pra velho. Logo cedo preparou-se para fazer engenharia. Influenciado pelo pai, advogado Alcimor Rocha, terminou na Faculdade de Direito. Aos 18 anos de idade, logo no primeiro ano do curso, virou professor por quase 20 anos. Foi assessor do governador Plácido Castelo, no Palácio da Luz, ocupou o posto de Procurador -geral do município de Fortaleza e de juiz do TRE.

Não teve mais tempo para os amigos e a família. Não foi a toa que ele escreveu o verso: “Do tempo há de se ter/ A medida mais exata/ Quem dele mais necessita/ É a quem ele mais falta/Quem vive o tempo matando/ É quem primeiro ele mata.”

Foram 20 anos como ministro do  Superior Tribunal de Justiça, onde chegou aos 44 anos e ocupou todos os cargos da carreira. Conhecido como hábil articulador, foi   responsável pela informatização do Poder Judiciário. Relatou mais de 140 mil processos, sendo 4 mil no TSE e 3 mil no Conselho Nacional de Justiça, onde também atuou como Corregedor. 

Julgou mais de 700 mil processos. Na Justiça Eleitoral fixou precedentes que obrigaram o TSE rever sua jurisprudência e acabar com a farra de candidatos a cargos eletivos. Foi o ponta pé para a lei da ficha limpa. Em meio a viagens, reuniões e palestras, ele encontrava tempo para se perguntar: “Não sei se sou o que sou/ Nem se serei o que fui/Se serei o que já sou/ Ou se sou o que já fui.”

Considerado um juiz eficiente, César Rocha aos 64 anos ainda podia ficar mais seis anos no tribunal. Ele se aposenta levando a inspiração da terra e do indômito povo do Nordeste, portando na alma as vibrações do Ceará, a terra do sol, e do amor a terra da luz”.

Vai em busca de um merecido repouso para recarregar as pilhas e reiniciar outros trabalhos, tudo na área da Justiça, de quem se considera operário cheio de confiança. Voltar a advogar é o desafio que não lhe desalenta. Tudo com liberdade de ação, sem patrulhamento, sem o rigor que a toga impõe. 

Já aposentado, saindo rumo ao aeroporto para 20 dias de férias com a mulher na Europa, ele me disse: "Sabe aquele vinho que não foi possível tomar com você e o Toninho Drummond? Diga a ele que aguarde. Na volta estarei disponível para muitas taças”. E lá se foi em busca do tempo perdido. Como diz no verso de uma de suas canções: “Na vida, o mais importante/ É saber com o tempo contar/
Quem disso não se der conta/Muito vai se arrepender/ O tempo da vida passando/A vida, por tempo, implorando/O tempo,sem vida, chorando/ Um vendo o outro morrer/




domingo, 2 de setembro de 2012

MORRE O COMANDANTE DA APOLO 11




Neil Armstrong, morreu aos 82 anos nos Estados Unidos. Ele foi o primeiro homem a pisar na Lua em 20 de julho de 1969.
Conta a lenda, que a Internet espalha pelo mundo, que ao pisar na Lua e proferir sua famosa frase “Um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade”, Neil Armstrong teria acrescentado um misterioso “good luck, mr. Gorsky” (Boa Sorte, Sr. Gorsky).

O próprio Armstrong, em entrevista que concedeu em 1995, disse que essa história nunca aconteceu e que ele chegou a ouví-la como uma piada contada pelo humorista norteamericano Buddy Hackett.


A história que se conta é a seguinte:

“O Senhor Gorsky era o vizinho de Armstrong em sua infância. O futuro astronauta, ainda garoto,  estava jogando bola com seu irmão e ela foi parar na casa do vizinho.

Neil pulou a cerca e foi pegar a bola quando ouviu a voz da Sra. Gorsky, esposa do dono da casa: “Fazer sexo oral, nunca! Olha só faço isso no dia que  o garoto que é nosso vizinho andar na Lua!!!”

Após a volta da Lua e um período de 21 dias de quarentena na Terra, Armstrong e a tripulação da Apollo 11 fizeram uma turnê mundial por dezenas de países, Visitaram os soldados americanos no Vietnã e na União Soviética. Armstrong foi recebido pelo primeiro ministro Alexei Kossygin. Lá na antiga União Soviética ele conheceu a primeira mulher a ir ao espaçom Valentina Tereshkova e foi o primeiro ocidental a visitar o Centro de Treinamento de Cosmonauta Yuri Gagarin, em Baikonur,  


O chefe da missão Apolo esteve no Brasil. Ele, a mulher dele e um grupo de astronautas e dirigentes da NASA acompanharam o  presidente americano Lyndon Johnson numa viagem de  relações públicas pela América do Sul, quando visitaram 11 países e 14 cidades, com Armstrong impressionando por fazer suas saudações aos povos visitados na língua local. No Brasil, ele chegou a falar sobre sua admiração pelos pioneiros experimentos de Santos Dumont.

LENDA DA INTERNET




Jack e Bob

Jack decidiu esquiar com o amigo Bob.

Então eles colocaram tudo na minivan e seguiram para o norte.

Após dirigir por algumas horas, foram pegos por uma terrível tempestade.

Pararam numa fazenda próxima e perguntaram a uma mulher atraente que atendeu a porta, se poderiam passar a noite lá.

“Eu compreendo que o tempo esteja pavoroso, eu vivo nessa enorme casa, sozinha, mas como fiquei viúva recentemente” ela explicou, “tenho medo
do que os vizinhos vão falar se os deixar ficarem aqui”.

“Não se preocupe,” disse Jack. “ Ficaremos bem se pudermos dormir no celeiro, e assim que o tempo amainar, iremos embora de manhã bem
cedo.” A mulher concordou e os dois homens foram para o celeiro passar a noite.

Amanheceu, o tempo clareou, e eles seguiram caminho.

Aproveitaram um bom fim de semana, esquiando.
Mais ou menos nove meses depois, Jack recebeu uma inesperada carta de um advogado.


Demorou um tempo até que ele compreendesse que era o advogado da bela viúva que tinha conhecido no fim de semana em que foram esquiar.

Ele chegou para o amigo Bob e perguntou, “ Bob, você lembra daquela mulher bonita, viúva, da fazenda onde ficamos naquele fim de semana,
nove meses atrás?”

“Lembro sim,” disse Bob.

“Por acaso, você, hum… foi visitá-la naquela noite?”

“Bem, ham... fui!” Bob respondeu envergonhado por ter sido descoberto, “devo admitir que fui!”

“E, por acaso, você deu meu nome ao invés de dizer o seu?”

O rosto de Bob ficou vermelho que nem beterraba e ele falou, “Olha, pera aí, desculpa amigão, acho que fiz isso mesmo.” “Por que você pergunta?”


Porque ela morreu e deixou tudo pra mim.”

COPACABANA PÁLACE, DIA E NOITE



 AYRTON ROCHA

Paris, é o Copacabana Pálace nos anos sessenta. Claro, sem o glamour do Rio. Paris não tinha samba, não tinha Copacabana Pálace, não tinha nem os personagens do Copa. Paris, não tinha o humor, o fair play nem a malandragem carioca. Carnaval em Paris! É brincadeira!

Brigitte Bardot
Paris tinha Brigitte Bardot, essa escultura de mulher, que nem Auguste Rodin conseguiu esculpir. Só que ela não saía do Rio, e o Rio, tinha o Di Cavalcanti, “pintando o sete”, com suas mulatas.

Numa noite de Copacabana, Brigitti Bardot, disponta com todo seu deslumbre, numa festinha no apartamento de um amigo e dá de cara, com Tom Jobim, com seu whisky e no seu piano, sua música e seu charme. Depois do primeiro olhar, Brigitti não mais resistiu a Bossa Nova do Tom, sentou ao seu lado no banco do piano e convida o Tom para levá-la ao hotel. Tom pegou seu fusquinha e lá se foram os dois. Acabou a festa e a esperança da moçada assanhada. Ficou só o dono da festa, com seus pensamentos eróticos, imaginando a noite do Tom. De repente, tão cedo de repente, chega o Tom. “O que houve Tom? Pergunta o amigo decepcionado. "Ela me convidou para uma noite de amor, respondeu! E você Tom? Não transou? Tom, Com aquele sorriso maroto, reponde: "Olha, esse negócio de transar, dá muito trabalho. Tira roupa, veste roupa”! Em seguida, pegou um Whisky, deu uma boa risada, deixando o amigo enfurecido.

Brigitte vinha tanto ao Rio, que quando saia a notícia que Brigitte estava voltando, o carioca com sua irreverência, falava: "lá vem aquela chata novamente”! Já pensou? Que judiação. Que sacanagem carioca!

O negócio é que mulher bonita e mulata gostosa, o Rio De Janeiro estava exportando, à Libras!

Pérgola do Copa
O Copa tinha vários departamentos. Os da grana, os do sem grana, mas com charme, discretos, elegância, bom papo. Tinha os da noite no Golden Room, tinha os da sauna e os da Pergóla.

Os do elegante restaurante Bife de Ouro durante a semana, e os do anexo, onde os penetras, como Tarzan, o Rei da Selva, Johnny Wessmuller, desfilava sem sua Jane na piscina do Copa sem estrelas. Todo mundo era igual.

Os da Grana eram tantos, mas vou citar apenas um. Alberto Pitigliani, meio, digamos assim, chato. Dono da famosa fábrica do Gin Seagrams. Casado com a linda Terezinha Morango, amazonense, saborosa e rosada mais que a própria fruta, Miss Brasil 1957. Aliás, no Copa, ninguém aceitava chato. Os manjados chatos eram “barrados no baile”. Tinha o grande Bororó, o compositor maravilhoso “Da Cor do Pecado”, com sua elegância do passado, cabelos Brancos de terno Irlandês, de olhos Azuis, da cor céu de uma manhã sem nuvem. Ficava em pé, para jamais perder sua elangancia, falava pouco e nada bebia.

Tinha a bela figura do jornalista Fernando Lopes, o corujão das noites da TV Globo, que ainda não era rede, era só Rio, colunista também da Tribuna da Imprensa, onde contava tudo da noite carioca na Tribuna, na Globo e na manhã do Copa.  Noivo da “ainda virgem”, linda e assanhada cantora negra Eliana Pittman, o que já era raro nos anos sessenta, quando Leila Diniz, deu seu grito de “Independência ou Morte.” Fernando Lopes, jamais conseguiu chegar no ponto G da Pitmam, mesmo com nosos conselhos, e jóias no aniversário dela, se endividando até o outro aniversário, tendo uma vigilância rigorosa da Mãe chata Ofélia, mulher do musico americano que adotou Eliana, Booker Pittmam.

Nas noites da boate no Golden Room, tinha o melhor da musica. De Helena de Lima, até o cearense de linda voz, Carlos Augusto, como já disse tão bem, Wilson Ibiapina, a louca Paixão de Eva Gardner. Marlene Dietrich cantando “Luar do Sertão” em português perfeito, com sua voz e sua beleza, com aquele vestido tão justo, que na hora de entrar no palco, veio àquela vontade enorme do xixi. E como era tão difícil de tirar aquele justo Soirée, pediu um balde de gelo, e fez xixi em Pé, naquele “Bendito, valioso e cobiçado Balde”.

Durante toda semana, o almoço era no Bife de Ouro. Ibrahim Sued, Adirson de Barros, jornalista de inteligência rara, rápido e ferino no gatilho da palavra, ex- secretário de imprensa do tio Presidente da republica, Café Filho, Orlandino Rocha, “BETTY”, irmão, jornalista- poeta, cearense, mas, já cidadão carioca diplomado e de carteirinha, que enlouquecia as melhores e desejadas mulheres com suas reportagens imbatíveis na Revista O Cruzeiro. De repente, no Bife de Ouro, Ibrahim engasgou com arroz e em seguida disparou: “Caiu no Esgoto”. Adirson de Barros, mais rápido que o engasgo, disse: "Ibrahim, não é esgoto, é esôfago”! Orlandino Rocha, ligeiro, como uma pólvora rasteira, falou! “Não Adirson, no Ibrahim, é esgoto mesmo”. Risada generalizada.

Noutro almoço, entra no Bife de ouro, uma Jóia, com corpo e beleza de mulher perfeita, perfumada como uma manhã de Primavera. Ibrahim, fala risonho, discretamente, com aquele sorriso de Turco, com conhecimento de causa, que ganhou a mulher no ouro: “Essa mulher, tem furor interino”. Mais uma vez, o” professor” Adirson corrige: “Ibrahim, não é furor interino, é furor uterino”. Novamente o gozador Betty:” Adirson, o furor das mulheres do Ibrahim, é interino mesmo.” Risos a parte, mas Ibrahim era sim, inteligente, amigo leal, e solidário.

Nos sábados, o Copa era a concentração dos guerreiros. Depois do abastecimento etílico, a feijoada do Le bistrô, a famosa “feijoada com putas”, como dizia o Betty. Depois da guerra, era destilar, na sauna do Copa, onde o Leão Gondim, Todo Poderoso e boa praça, presidente da revista O Cruzeiro, fazia o repouso do guerreiro. E finalmente, chegamos a Jango. O presidente João Goulart, com apartamento no anexo do Copacabana. Figura Maravilhosa e simples. Chega, com Maria Tereza, sua linda mulher e seus dois filhos pequenos, senta a mesa ao lado, como um brasileiro comum, sereno, tranqüilo e tímido. Ao chegar a sua mesa, um filé, ele corta picadinho, põe na boca dos filhos, chupa os dedos, como todos nos mortais. E é aí, que eu sinto aquela saudade daquele Copacabana Pálace que não nos pertence mais.

BAR DOCE BAR




Wilson Ibiapina

O bar é o confessionário do boêmio.  É ponto de encontro de  jornalistas, artistas, intelectuais, estudantes, trabalhadores de todas as áreas. É onde rola o famoso papo furado, aquele que começa  com política, vai pra religião, passa pelo futebol, praia, música, passeios e termina em mulher. 

Belo Horizonte: a capital nacional dos bares
Belo Horizonte é considerada a capital nacional dos bares, mas garanto que Fortaleza não fica muito atrás. Saindo da praça do Ferreira pela Guilherme Rocha, antes de chegar à praça José de Alencar, havia o Ritz, do Luís Frota Carneiro e que tinha entre seus fregueses o jornalista Caio Cid. Mais na frente o bar do Seu Oliveira, pai do Bené, hoje engenheiro morando no Rio. Era famoso pelo tira-gosto de frutas e pela placa enorme, bem na entrada: “Aqui é proibido discutir política, religião e futebol.” Na rua Guilherme Rocha havia o Porta Aberta, que não fechava nunca. Simplesmente não tinha porta. Ao lado ficava o Café da Imprensa, que reunia à noite boêmios, prostitutas e jornalistas.

Nos anos 60, voltando a pé de uma farra na beira mar, os estudantes Rodger Rogério, Fausto Nilo e Antônio Carlos, ao passarem em frente a um desses bares na Guilherme Rocha, ficaram com vontade de tomar uma geladinha. Sem dinheiro, a solução foi pedir emprestado o violão de um ceguinho que pedia esmola na calçada. O Rodger tocou, o Fausto cantou e o Antônio passou o chapéu. Depois de três canções, contaram a grana, dividiram com o ceguinho e foram matar a sede. Quando estavam saindo ouviram o cego perguntar: “Quando vocês voltam?”

No bar do Niltinho, na Clarindo de Queiroz, ele exibia na parede as fotos dos fregueses que a cachava tirava da vida.
Na orla, O Gordo e o Magro e Sereia Deó abrigavam os boêmios quando o dia amanhecia. O Roberto Aurélio Lustosa diz que não esquece o Felix Ximenes encomendando um prato para viagem. Imitando o garçon, recomendava: “Castiga nas almeixas”.

O bar do Anísio, na beira mar, era reduto dos estudantes que se reuniam para beber e se inspirar para compor, pintar, escrever e jogar conversa fora. O Balão Vermelho, na Duque de Caxias, era outro ponto de encontro dos jovens estudantes e boêmios dos anos 60. Passaram por lá Augusto Pontes, Fagner, Belchior, Ednardo, Brandão, Fausto Nilo, Rodger, Tet, Francis Vale, Dede Evangelista, Flávio Torres, Cláudio Pereira, Chico Moura, Chico Farias e mais um monte de gente, hoje profissionais liberais ricos e famosos.

Ali na  Desembargador Moreira, onde hoje está a TV Cidade, ficava o Bar do Domingo, taifeiro aposentado da Base Aérea de Fortaleza. Nelson Fahiena lembra que a maioria dos fregueses comprava fiado. A despesa era anotado com giz branco nas paredes vermelhas do boteco. Quando a dívida era paga, a conta era apagada com um pano molhado. Ao longo de mais de uma década, o frango cozido foi o único tira-gosto servido. Patos, galinhas e frangos eram criados  em meio aos fregueses. Faheina conta que um dia o jornalista Chico Alves Maia ao morder uma coxa perdeu o dente de ouro que ostentava na parte superior da boca. Foi preciso matar muitos frangos para encontrar o dente. A jóia foi encontrada na moela do oitavo frango sacrificado, em meio a restos de comida.


Aqui em Brasília, o empresário Jorge Ferreira, dono de vários bares que movimentam a noite da cidade, contou-me uma ocorrida em Cruzilia, sua terra natal no interior de Minas. Um dos bares de lá fica em frente ao cemitério. Nome do boteco: “Olhando para o Futuro”. Numa tarde,  o mais antigo e assíduo frequentador, logo ele que chegava cedo, não havia aparecido para abrir os trabalhos. A preocupação geral pela ausência foi interrompida por uma voz  que veio do meio de um pequeno cortejo que passava na rua, rumo ao cemitério. Todos correram para a calçada. Era o Zé da Patroa que passava pegando na alça de um caixão e avisava: “Pessoal, tô  levando a  titia alí,  volto já, já”.


Historia de bar não tem fim. A todo instante está acontecendo aqui e alhures. O comediante americano Tom Dreesen, que passou doze anos abrindo shows para Frank Sinatra, na década de 80, foi convidado por ele para um drink, em Palm Springs. E foram para um barzinho chamado Chaplin’s, do filho de Charlie Chaplin. Ele contou ao jornalista Bill Zehme: “Não havia ninguém lá. Só um sujeito num canto afastado, e Frank e eu no balcão, de pé. O garçon estava fechando a casa. Ficamos conversando alguns minutos quando, de repente, um mulher dos seus sessenta e cinco anos entrou correndo no bar. Ela disse: “Com licença! Vocês têm uma  jukebox aqui?”   Frank Sinatra se virou e olhou  à sua volta e falou : “Não, acho que não.” Em seguida, como que pensando melhor falou: “Mas eu vou cantar para a senhora”  E ela disse: ‘Não, obrigada’ E deu meia volta e foi-se embora. Frank ficou olhando triste enquanto ela saia porta afora, Aí eu falei pra ele em meio daquele silêncio desconfortável: “Talvez ela não o tenha reconhecido”. Ele deu de ombros e suspirou: “Ou talvez tenha”.

Em seu livro “Os Bares Morrem Numa Quarta-Feira”, Paulo Mendes Campos lembra que Franz Kafka imaginou um conto surrealista com o seguinte enredo: uma festa à qual várias pessoas comparecessem, sem que nenhuma tivesse sido convidada, ninguém se conhecesse e, onde, contudo, o convívio se estabelecesse, com todos os seus aspectos positivos e negativos. “Essa festa já existia; e eram os bares do Rio”, escreveu o cronista.

Amarelinho, ZiCartola, Sovaco de Cobra, ou Beco das Garrafas, Cantinho do Leme, Lamas e Antonio's foram redutos da boemia da cidade maravilhosa. Jornalistas, escritores e artistas globais baixaram durante anos no Antonio's, batizado com esse nome pelo jornalista Armando Nogueira, em homenagem ao cearense Antônio, que era o cozinheiro. Era lá que o jornalista  Carlinhos de Oliveira escrevia suas crônicas para o Jornal do Brasil , como já contei aqui. Uma noite, o bar recebeu a indesejável visita de um ladrão. O marginal trancou os fregueses no banheiro, de onde Carlinhos  gritava: “Seu ladrão, leva os vales , na caixinha de charutos,  leva os vales”.


O engenheiro César Bezerra lembra uma outra grande historia daquela inesquecível boemia do Rio que o Ayrton Rocha já falou em crônica publicada aqui no blog. César recorda que certa  madrugada Carlinhos e Lúcio Rangel, depois de beberem todo uísque do mundo, saíram do Antonio's  às 5 da manhã abraçados para não cair. Já na calçada, Lucio sugeriu: - Carlinhos, vamos tomar um taxi. E Carlinhos prontamente respondeu, ponderando: - Lucio,  acho melhor não misturar!

O VERDE AMARELO DE BRASÍLIA




Wilson Ibiapina

Nesta época do ano, quando florescem os ipês amarelos, o jornalista Pedro Rogério lembra-se do ex-presidente João Figueiredo.  Já perto de deixar o  governo,  Pedro Rogério perguntou-lhe do que sentiria falta ao voltar a residir no Rio. O repórter disse que ele respondeu com  uma sinceridade que leu nos seus olhos: ”sentirei falta do prazer de admirar os ipês amarelos em meu caminho diário da Granja do Torto para o Palácio do Planalto”.  O amarelo do ipê contrasta com o verde da grama e das outras árvores, deixando Brasília mais Brasil.


Mas nem tudo sempre foi  flores. No começo era o ermo, como registrou Vinícius de Moraes na Sinfonia que fez com Tom Jobim em homenagem à nova capital.

O cearense Ozanan Coelho, responsável pelos jardins de Brasília junto com  o conterrâneo Stênio Bastos, conta o sufoco que passou para encher de verde os extensos espaços criados no plano piloto de Lúcio Costa. O ex-diretor do Departamento de Parques e Jardins lembra que “aquelas árvores da W3 sul foram plantadas numa noite, quase cinco mil árvores numa noite, precisava preencher esses espaços vazios, que estavam sendo criados na construção da cidade e não havia... – preencher com verde obviamente – ... e não havia pesquisa em Brasília nem no país, não havia viveiros, nem produção de mudas adequadas, não havia nada disso. 

Essa experiência de viajar no meio de uma área verde, como esta de Brasília, com plantas do cerrado, é uma coisa muito singular e se demandou pesquisa, que só veio depois. Então tudo foi feito correndo, às pressas, e não se ficava pensando muito na qualidade desse trabalho, era fazer e pronto... Chegou-se ao grotesco de plantar tiririca, que é uma espécie invasora de erva-daninha, no eixo rodoviário sul. No eixo monumental, na esplanada dos ministérios, foi plantado alpiste para germinar em três ou quatro dias e ficar verde, para poder inaugurar a cidade.  Mas, dez anos depois, aconteceu o inesperado. Morreu  quase tudo. Ozanan diz que em 1972, 1973, mandou  cortar cinquenta mil árvores mortas. O agrônomo responsável pelo verde de Brasília escreveu: 

“Este foi um fato que teve até uma repercussão política muito negativa para Brasília, porque eu me lembro que os parlamentares que ainda apregoavam a volta da capital para o Rio, diziam: como vai se viver numa cidade, numa capital, onde nem as árvores "pegaram"? Foi uma pressão política e psicológica muito grande em cima da equipe, aqui do departamento de parques e jardins.  

Aí então nós partimos para a pesquisa, uma pesquisa muito séria, muito profunda, de como continuar este trabalho, mas de uma forma adequada, de uma forma que o que se plantasse fosse permanente, durável.


Nós marcamos uma área de cerca de 400 quilômetros de raio e começamos a acampar no cerrado, para marcar matrizes do cerrado, estudar como era a germinação, como era a condição de vida, porque não se sabia absolutamente nada. As árvores eram trazidas de fora, de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Goiânia. Então vieram árvores de tudo quanto é lugar. Aí, nós começamos a produzir essas espécies nativas aqui da região. A partir de 1973, 1974, nós começamos a plantar, já, essas espécies nativas.


Então você vai encontrar em Brasília: ipê amarelo, roxo, branco, quaresmeira, copaíba, aroeira, essas espécies que só vão existir aqui e que podem ter vida plena, pois são árvores centenárias, de pouquíssimo trabalho de manutenção, adaptadas ao solo e ao clima aqui da região.”

E o festival de cores, proporcionado pelos Ipês, começa em junho, quando floresce o ipê roxo. Em agosto é a vez do ipê amarelo. Depois virão os de cor branca e rosa. Cores para encher os olhos e enfeitar a cidade.



Homenagem 80 anos Wilson Ibiapina