terça-feira, 19 de junho de 2012

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS




Mário de Andrade 
(1893-1945) 

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. 

Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço. 

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. 

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. 

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral. 

'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência. Minha alma tem pressa... Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade. Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade. O essencial faz a vida valer a pena. E para mim, basta o essencial! 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A CACHAÇA "PAU DE URUBU"




 
Nelson Faheina

Vou recordar uma época em que "éramos felizes e não sabíamos", pegando carona no samba de Ataulfo Alves, "Meus Tempos de Criança". Estudante do Ginásio Diocesano Pe. Anchieta, em Limoeiro do Norte, 13 ou 14 anos de idade, nos reuníamos à noite na praça, ao lado da Igreja Matriz, para tentar um namoro com as alunas da Escola Normal, ouvir músicas de Nerlson Gonçalves, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Cauby Peixoto e outras celebridades que saiam na amplificadora "A Voz da Cidade" e ao mesmo tempo, tomar algumas doses de Martini, Rum Montilla ou cachaça "Chora na Rampa". Isso prá criar coragem e abordar as meninas. 

Nessa época, o dinheiro era difícil. Estudante não recebia nada dos pais. Para alegria nossa, Miguel Alves Maia, pai do jornalista Chico Alves, lançou em todos os bares, mercearias e botecos de Limoeiro do Norte, a cachaça "Pau de Urubu". Foi um verdadeiro sucesso, principalmente, porque ele ofereceu alguns litros de graça, como promoção. E depois estabeleceu um preço espetacular para conquistar a freguesia. Se uma garrafa de "Chora na Rampa" custava 1 cruzeiro, o lotro de "Pau de Urubu" era vendido por dez centavos. Nós, dezenas de estudantes, passamos a beber o novo produto, "a coqueluche do momento" todas as noites. 

Com o passar do tempo, observamos que no dia seguinte amanhecíamos com a boca cheia de pintas brancas, como se fosse afta. E as reclamações foram muitas por parte de pessoas adultas que aderiram ao novo produto. 

Meu pai, Nelson Forte, que sempre gostou de tomar umas e outras, principalmente uma boa cachaça, certa vez, chegando num forró na zona rural, acompanhado de Miguel Alves Maia, o produtor da "Pau de Urubu", pediu num boteco duas doses de cachaça. O vendedor de imediato afirmou: "Tenho aqui o melhor produto do momento. Cachaça "Pau de Urubu". Miguel Alves olhou para o homem e disse: "Bote qualquer cachaça, menos essa". Aí, papai disse: "A Pau de Urubu nem o dono aguenta". 

Também pudera. Limoeiro do Norte nunca teve canavial para extrair aguardente. Descobriu-se que de uma garrafa de "Chora na Rampa", Miguel Alves Maia desdobrava 8 litros. Era mais água do que cachaça que acabou com muitos "papudinhos". A última vítima foi Pedro Caju, figura adorada na cidade que vivia de biscates. Morreu, foi para o Céu, onde foi recebido por São Pedro. Conta a lenda que o porteiro do céu perguntou: "Vem de onde? Venho de Limoeiro, afirmou Pedro Caju. Morreu de que? Morri bêbado, respondeu Caju. São Pedro consultou a Internet e disse: " Você Caju, morreu afogado, de tanto beber cachaça misturada com água".    

URUBUS INVADEM O CÉU DE BRASILIA




Wilson Ibiapina

O urbanista Lucio Costa, que projetou Brasília, dizia que o “mar de Brasília é o céu”, sempre amplo e cintilante. Pois não é que tem qualquer coisa no céu brasiliense, além dos aviões de carreira. Olhe pro nosso mar, ou melhor pro nosso céu e vai ver umas pintinhas pretas se mexendo. Acredite, são urubus. Pode olhar. Voam alto à procura de comida. 

No interior é comum a presença de urubus catando sobras de animais mortos, rondando açougues ou sobrevoando entulhos com seu olfato apurado. É considerado uma ave imprescindível na limpeza do meio ambiente. Acho até que a caça dele é proibida. Geralmente ele é atraído pelo cheiro de animais mortos, um tipo de feromônio que o ser humano não consegue captar. Mas isso é no interior, que não tem captação de esgoto, nem uma coleta de lixo organizada. O que surpreende é a capital do país invadida por essa ave.

De onde estaria saindo esse cheiro de podre, onde está a carniça?

O urubu é visto sobrevoando todas as áreas de Brasília. Acho que o mesmo deve estar ocorrendo nas satélites. O superpovoamento do Distrito Federal pode estar propiciando o crescimento do número de urubus, atraídos pelos despejos de detritos sem maiores cuidados ambientais.

Não podemos esquecer o perigo que o urubu representa para a aviação. Pode derrubar um boeing. Acredito que antes de se descobrir o que estaria atraindo essa ave para o Plano Piloto, devia ser bolado um plano para afastar o urubu das proximidades do aeroporto JK. Não pode se repetir aqui o que vem ocorrendo em Manaus, onde o espaço aéreo é ameaçado por excesso de urubus. Vamos limpar o nosso “mar”.


ARATACAS EM AÇÃO



Narcelio Limaverde



Há alguns anos tentei melhorar o faturamento. Era funcionário público e, por incrível que possa parecer, trabalhava muito e ganhava pouco... Resolvi me submeter a um concurso  no IBGE. Passei e comecei meu trabalho como recenseador, no bairro Jardim América, conforne sorteio, e no dia determinado comecei meu trabalho, nas ruas Ana Neri, Delmiro de Farias, Major Weyne, com enorme pasta debaixo do braço, cheia de formulários para as anotações. 

Na primeira casa quase apanhava de um maluco. Ele não aceitou minha presença em seu quarto. Na segunda um mais ajuizado pensou que eu estava recrutando homens para a guerra do Vietnam. Era no tempo dessa guerra comandada pelos sobrinhos do Tio Sam, lá pro fim do mundo...  Foi dificil explicar que era um trabalho do governo brasileiro, para saber o número de habitantes do Brasil. Nem bem me livrava dos primeiros problemas, na casa de uma loura perguntei qual era a ocupação principal de seu pai. Ela ficou calada até que chorando muito disse: "Meu pai está internado no Leprosário". Foi dificil consolar a jovem, num tempo em que os leprosos eram segregados da sociedade e levados para hospital em Canafístula, distante uns 70 quilômetros de Fortaleza.  

E o que me levou a pensar em Vietnam, Saigon, hoje Ho Chin Min? É que chegou as minhas mãos a revista Entre Lagos, editada em Brasília, último número. O título do artigo "Cabra Arretado. Um cearense na guerrra" me encheu de curiosidade. Quando a gente vai ficando velho a memória para as cousas antigas é muito boa, enquanto que para os fatos mais recentes, é mais dificil... No artigo há referência ao cearense que foi ser correspondente de Guerra no Vietnam. Luiz Edgar de Andrade foi o único jornalista cearense que cobriu a guerra no sudeste asiático.  

Eu sou daqueles cabeças chatas orgulhoso de seus conterrâneos. Fiquei logo interessado, porque eu sabia que um cearense, o jornalista Luciano Carneiro, teimoso como todos somos, também tinha viajado, como repórter da revista Cruzeiro, para  bem distante de sua terra natal. E no deserto do Saara, num daqueles oásis, com sede, parara um pouco para um refrigerante. E, admirado,  constatou, o vendedor era do Ceará.  

Contavam também outra história de cabeça chata num circo na Europa. Ele procurava emprego e conseguiu um de leão. Para tanto vestiria uma roupa apropriada com juba e tudo característico de um rei dos animais. . Ficou com medo, mas como estava com fome, aceitou a missão.  Quando entrou na jaula viu outro rei dos animais vindo em sua direção. Com medo disse logo "Tou lascado". O outro leão ouviu e: " Arre égua, macho, tu também é cearense"? 

Voltando ao artigo da revista Entre Lagos, o relato é bem interessante sobre Luiz Edgar de Andrade Furtado, este seu nome completo.  Ele contou para Wilson Ibiapina, autor da matéria, que, na guerra, jornalistas como ele usavam fardamento semelhante aos dos soldados americanos. A diferença era que no lugar da arma usavam papel, caneta, máquina fotográfica. Com medo dos vietcongs, Edgar contou que, como um filho de Errol Flynn (aqui minha memória recorda o grande artista, protagonista do filme Capitão Blood) mandou bordar na farda a expressão Bao Chi, que na língua lá dos asiáticos significava "imprensa, não me mate", ele fez o mesmo. 

Soube que   Luiz  Edgar de Andrade Furtado escreveu um livro de memória sobre sua presença no Vietnam, com esse título, mostrando o ambiente de tensão e loucura, solidão e medo vivido por ele como correspondente. E eu lendo esse artigo recordei Luiz Edgar, filho do líder católico Manuel Antonio de Andrade Furtado, dirigente do jornal O Nordeste relevante figura da administração e política dos anos 40/50 em nosso Estado. Em determinado momento de minha profissão apresentei com Luiz Edgar o Jornal Sonoro Iracema, emissora dos Irmãos Parente, Flávio e José, às seis horas da manhã. Ele hoje, formado em direito e filosofia e com pós-graduação em jornalismo na França, nem deve se lembrar dessa humilde passagem dele pelo rádio, como meu colega, de Irapuan Lima, Peixoto de Alencar e Armando Vasconcelos. A história contada pelo jornalista Wilson Ibiapina, faz jus ao personagem, com o título Cabra Arretado. E eu aqui vibrei com mais esse heroismo de um cabeça chata.


domingo, 10 de junho de 2012

PULANDO A CERCA





Wilson Ibiapina

As coisas mais bonitas do mundo são os filhos da gente e as mulheres dos outros. A frase do jornalista Rangel Cavalcante serve para mostrar que o décimo mandamento “não cobiçar a mulher do próximo” está atualíssimo. E também para provar que desde que o mundo é mundo o homem e a mulher não conseguem dominar o instinto sexual. 

O cara tem uma mulher maravilhosa em casa, mas vai atrás da outra, até mais feia que a dele, por puro desejo, tara, sei lá o que. A verdade é que a traição está institucionalizada em todo o mundo. Existem no Brasil sites destinado aos que buscam pular a cerca com sigilo e discrição.

Em Brasília tem gente que especializou em relacionamento extra conjugal. Adora mulher casada, principalmente as dos amigos dele. Certa feita, um cidadão, vítima do conquistador, foi bater na casa de um amigo, no Lago Sul, tão logo descobriu que sua mulher estava de caso com o tal garanhão. Chegou e foi pedindo logo uma dose dupla de uísque. Aos prantos desabafou: 

- Olha, minha mulher está me traindo com fulano. Juro que preferia que fosse com você. 

O marido já sabia, também, que sua fogosa mulher já tinha passado no papo do confidente amigo.

Infidelidade é mais comum do que você pode pensar. O ator Marcos Caruso chegou a escrever a peça “Trair e coçar, é só começar”. Volta e meia nos surpreendemos quando descobrimos que aquele vizinho com cara de inocente é um tremendo conquistador de mulheres comprometidas. As casadas, se iludem, são mais discretas, não se apaixonam com facilidade, são melhores para rápidas aventuras. É aí que mora o perigo.Um empresário cearense marcou um encontro com a mulher de um amigo dele. Ela estava no Rio e ele em Fortaleza. Foram para um hotel em São Paulo. Coisa rápida, encontro de uma noite. Teria sido uma maravilha se ela não tivesse morrido de enfarte. Até hoje não sei como ele se explicou pro marido traído.

Há poucos dias, numa roda de vinho, num bar em Brasília, o assunto era aventura extraconjugal. Um dos presentes contou o sufoco que passou certa noite. Levou uma garota para o Hotel Eron. Por volta da meia resolveu ir pra casa e a mulher pediu pra ficar mais um pouco no hotel. Ele até providenciou mais uma garrafa de champanhe. Já em casa, começou a lembrar a história de um jornalista mineiro que morava no Rio. Ele deixou a garota de programa no hotel e foi pra casa. No dia seguinte, ao chegar à redação, soube que ela tinha pulado do prédio. O cara de Brasília disse que entrou em pânico. Temendo que o caso se repetisse com ele, pegou o carro e foi direto pro Eron. Graças a Deus, a mulher já tinha ido embora.

Tem gente que adora contar seus casos. Contam suas traições como se fossem a maior aventura do mundo. Às vezes pinta arrependimento, mas aí, não tem mais jeito, traição é traição. Homens e mulheres traem na mesma proporção. Tem uns que, dependendo do traidor, até incentivam a mulher, pensando em recompensa, sei lá. O que não falta é corno manso.


Em Araxá, um fazendeiro que transava com a mulher do vaqueiro, foi surpreendido um dia com um pedido para uma conversa reservada. Armou-se de revólver e quase não acreditou no que o vaqueiro lhe disse: Doutor, tenho certeza que a Matilde está nos traindo.


Existem pessoas que adotam a poligamia como estilo de vida. Adoram ter duas mulheres como aquele deputado baiano que ficou viúvo. A amante toda alegre achou que iam casar. E ele, "se eu casar com você vou ter que arranjar outra amante". Ela preferiu ficar no posto. Em Fortaleza, um cidadão setentão, que também ficou viúvo, ouviu a mulher com quem tinha um caso há mais de 30 anos fazer a proposta:

 -E aí meu velho, então, vamos casar?


- Quem vai querer nós minha velha...



Donde se conclui: amante é também um cabra descarado.


sábado, 2 de junho de 2012

O CANGAÇO E SUA INFLUÊNCIA NA ESTÉTICA



João Soares Neto*

Na Exposição da Galeria BenficArte  Nosso Chico Anysio”, em abril passado,  descobrimos vários talentos. 

Exposição “Nosso Chico Anysio 
Um deles, Jô (Joaquim) Fernandes, paranaense que deixou as araucárias, os pinheiros-do-paraná, símbolo das árvores daquele estado, para se embrenhar, desde 1974, no imaginário da caatinga local. E o fez com o destemor do publicitário, do vendedor de sonhos, do marchand que cria e comercializa adornos e do artista plástico que se propôs a entender as vidas e as artes/manhas do cangaço, como se fosse um oriundo culto.

Jô Fernandes preparou para a Galeria Benficarte esta  bonita exposição. Ele busca, em acrílico sobre telas, como se fosse um antropólogo/pintor ou um sociólogo da arte do cangaço, mostrar esse lado pouco coligado e cultuado do Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião. E o faz misturando consciente/inconsciente, e descobre que os adereços usados pelos cangaceiros constituem parte do conteúdo da arte armorial identificada, codificada e pontificada, desde 1970, pelo escritor  paraibano/pernambucano Ariano Suassuna.

O drama, a carnificina, a pilhagem, a revolta, ou como que se queira chamar o tempo do bando de Virgulino Ferreira, de sua companheira Maria Gomes de Oliveira (Maria Bonita) e de seus asseclas, foram, paradoxalmente, os despertares de uma arte singela na criação, estilização e produção do múltiplo de saqueador/vingador/estilista/bordador/costureiro/dançador. 

Desde os chapéus de couro adornados com espelhos, flores e desenhos octogonais em gibões, calças, camisas/blusas, perneiras, embornais, sacolas/bolsas, cantis, alpercatas  e até nas bainhas de armas de fogo e brancas. Tudo é estilismo puro, mesmo que essa palavra quiçá tenha passado pela mente desses facínoras/criadores de arte.

É essa face lúdica e estética de Lampião, de Maria Bonita e dos demais cangaceiros que Jô Fernandes, um “nordestinado”,  como ele auto se intitula, tenta expressar no projeto  “O Cangaço e sua Influência na Estética”, que a Galeria BenficArte expõe a partir deste domingo,  03 de junho,  aos olhos e ao pathos dos seus visitantes. Ela é uma visão social transformada em arte.



*João Soares Neto não é crítico de  arte

Homenagem 80 anos Wilson Ibiapina