Sente aí, vamos conversar. O blog é pra gente se aproximar, trocar idéias, divulgar crônicas, contos, reportagens, poesias. Alguma coisa desse material que inunda a Internet e roda pelo mundo, será mostrada aqui, também, a título de curiosidade. Portanto, vamos ter material pra ler e pra ver. Essa conversa fiada seria, a princípio, entre amigos, mas quem controla essa coisa?. E já que você chegou até aqui, se aveche, não . Pode ficar à vontade. Lembre que você está em casa.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
NO TEMPO DO DR. BIÉ
Seu nome era Abner Brígido Costa, mas por esse nome ninguém o identificava, pois era conhecido como Dr. Bié. Grande cirurgião da Assistência Municipal, hoje IJF, tornou-se famoso por suas cirurgias rápidas e bem sucedidas e até comentava-se que havia recebido o famoso prêmio Bisturi de Ouro por sua excepcional performance.
A ambulância, a única da cidade, era incansável, e quando passava conduzindo o Dr. Bié e bimbalhando blém, blém, blém, todos os carros e bondes paravam e já sabíamos que aquele socorro seria bem sucedido. Dr. Bié tinha uma personalidade multifacetada: médico, boêmio, carnavalesco, dirigente esportivo, professor da Faculdade de Medicina da UFC e amigo dos amigos.
Fundou o famoso bloco "Mimosa Orquestra", que desfilava no carnaval pela Rua Senador Pompeu, com excelente banda de metais, sob os aplausos do povão e o incentivo das ricas famílias ali residentes. Era o endiabrado abre-alas do bloco, fantasiado e extravasando enorme alegria. Dr. Bié possuía uma perna mais curta que a outra, proveniente de uma doença na sua meninice, mas que não lhe trouxera qualquer complexo, muito pelo contrário.
"Certa vez, uma mãe desesperada levou seu jovem filho à presença dele. O garoto de nove anos, febril, chorava de dores numa perna e esta parecia estar encolhendo, já tendo sido marcada a amputação. Mais que depressa, Dr. Bié suspende a cirurgia e inicia um tratamento que sabia obteria bom resultado. E, depois de dois meses sob sua dedicada proteção, o paciente se recuperou. Foi aquele menino, meu colega do Exército, hoje coronel reformado, que me deu esse testemunho e me apresentou àquele cidadão quando servíamos em Brasília.
Desde então, Dr. Bié, de quem sempre ouvira falar, ganhou um novo amigo. Naquela época, ele foi morar em Curitiba e eu vim para Fortaleza. Alguns anos depois, encontrei-o nesta cidade. Estava triste, pois perdera a esposa que muito amava. Dali em diante, nunca mais foi o mesmo. Encontrava-o quase diariamente com amigos no Center Um, mas sua alegria contagiante ia se desvanecendo. Faleceu em 2003 e seus restos mortais foram guardados no Cemitério São João Batista.
Rui Pinheiro Silva
coronel reformado do Exército
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
O DIA MAIS FELIZ
Hebe Camargo, eterna musa do rádio e da TV no Brasil, tinha plateias muito fiéis. Num período, na TV, em todas as gravações de seus programas estava presente um tal Joaquim, homem vibrante, que chegava cedo e ocupava sempre o mesmo lugar, na primeira fila do auditório.
Um dia, porém, já no início das gravações, muito atenta, Hebe sentiu a falta do fã. Na primeira chance que teve, pediu ao pessoal da produção que investigasse o que teria ocorrido. Logo depois, veio a informação de que Joaquim não tinha ido naquele dia porque sua mãe havia falecido e ele estava no velório.
Hebe ficou chocada. Mas, já de posse do endereço do velório, mandou chamar seu motorista e zarpou rumo ao evento, que ocorria bem longe, na periferia de São Paulo.
Ao chegar, era uma casa simples, onde ela encontrou um aglomerado de gente do lado de fora. Lá dentro, a cena normal, com velas e flores, e a defunta estendida dentro de um caixão, sobre cavaletes improvisados.
Ao fundo, em pé, junto à cabeça da defunta, estava Joaquim, constrito, cabisbaixo, recebendo abraços e tapinhas nas costas, como é costume.
Hebe se esgueirou pelo aglomerado de gente até que adentrou a sala, o pequeno cenário daquele drama. Sentindo a movimentação, porém, Joaquim levantou a cabeça e, ao avistar a visitante, mudou o semblante, ergueu os braços e bradou:
-- Este é o dia mais feliz da minha vida!!!
(É pura verdade, segundo Rolando Boldrin, amigo de Hebe).
domingo, 9 de dezembro de 2012
O AMIGO SOLIDÁRIO QUE TINHA MEDO DA MORTE
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| Oscar Niemeyer será eterno. Quem deixa mais de 500 obras espalhadas pelo planeta não morre nunca. |
Wilson Ibiapina
O lado humano de Oscar Niemeyer engrandece mais ainda o genial arquiteto que ele foi. O ativista político, que ajudava os amigos e os colegas de partido, tinha um coração grande e solidário. Foi comovente a viúva de Carlos Prestes, na televisão, contando que o marido ao voltar do exílio, sem emprego, sem nada, ganhou de Oscar um escritório para trabalhar e um apartamento para morar. Ajudava quem o procurava. Na sua modéstia, dizia que “urbanismo e arquitetura não acrescentam nada. Na rua, protestando, é que a gente transforma o país.”
Era um gozador que tinha medo de avião. Só andava de automóvel ou navio. Nas suas constantes viagens a Brasília, na época da construção, procurava sempre companhia, para não viajar só. Paulinho Jobim, filho de Tom, contou na TV que um dia Oscar Niemeyer encontrou um amigo na rua, de bermuda, indo pra praia. Parou o carro e convidou-o para acompanhá-lo na visita a uns terrenos, ali perto, coisa de algumas horas. O inadvertido amigo entrou no carro e veio parar em Brasília. Voltou ao Rio quinze dias depois vestido na mesma bermuda.
O poeta das curvas e do concreto gostava de conversar. Molhava a palavra com boas doses de uísque puro, sem água e sem gelo, à moda cowboy. Foi tomando uns goles que nos aproximamos. Nos conhecemos num almoço que terminou à noite no apartamento do ministro Luciano Brandão, aqui em Brasília. Quando tentei ir embora, alegando que estava tarde e que minha mulher estaria preocupada, ele disse:
- Fala que estava aqui comigo.
- Então faça um bilhete, pedi.
O ministro Luciano trouxe papel e caneta. Ele escreveu, guardei no bolso e continuamos conversando. Cheguei em casa tarde, a mulher já dormia. A bronca veio na manhã seguinte, quando me lembrei do salvo-conduto. Estava lá: “Edilma, aprendi muito com o seu marido. Oscar”. Claro, coloquei num quadro.
Em entrevista à Folha, em 1984 , falando sobre a construção de Brasília, ele disse: “Quando cheguei lá, a terra era agreste. Tomávamos caipirinha, ríamos, todos juntos, operários, engenheiros; dava a sensação de que o mundo seria melhor. Quando inaugurou, veio a muralha separando pobres e ricos, e Brasília virou uma cidade como as outras.”
Oscar Niemeyer tinha medo da morte. Um dia ele perguntou ao físico nuclear Ubirajara Brito, seu amigo, como seria o fim do mundo. O físico fez uma exposição rápida sobre o esfriamento do planeta, mas fez questão de ressaltar que tal catástrofe só ocorrerá daqui a milhares de anos. E Oscar, preocupado: “quer dizer que estamos fritos, né Bira?”
Ele mesmo escreveu: “O problema da morte sempre me acompanhou e a ideia de desaparecer me angustiava. Com tristeza, ainda menino, imaginava que de um dia para o outro não mais veria meus pais e irmãos, as montanhas, rios, mares do meu país. Pensamento que com o tempo se tornaram mais frequentes nas minhas solidões.”
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
O ALFAIATE DE HITLER
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| Hugo - Conhecido como o alfaiate de Hitler |
A história está no Google e rola na Web. Chamava-se HUGO; alemão, beirava os 40 anos quando fundou em 1923, em Metzingen, a cidadezinha onde nascera, pequena loja de confecções. Seu objetivo era fabricar roupas para trabalhadores. Seis anos depois abriu falência. Os seus planos quase que não deram certo com o início de uma crise na Alemanha no período da Primeira Guerra Mundial.
Desesperado, em 1931 ingressou no Partido Nazista – e aí sua vida mudou para melhor. Fornecedor exclusivo dos uniformes negros das SS (Schutzstaffel), da Juventude Hitlerista e de outras agremiações nazistas ( sempre muito preocupadas com a elegância), ganhou milhões entre 1934 e 1945. Para dar conta das encomendas, a solução foi apelar para a mão de obra – compreensivelmente baratíssima - dos prisioneiros de guerra. Após a derrota do III Reich, foi levado aos tribunais mas pegou penas brandas, condenado a indenizar as famílias dos trabalhadores forçados.
O nome completo do homem era HUGO FERDINAND BOSS, HUGO BOSS. Ele morreu em 1948. Mas os negócios continuam vivos.
TRADUTOR DO ECONOMÊS E AUTOR DA PLACA DO GOL
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| Joelmir Beting |
Wilson Ibiapina
Joelmir foi o jornalista que descomplicou a notícia, principalmente a de economia. Tinha um maneira toda sua de passar a informação num texto lapidar.
Muita gente não sabe que o paulista de Tambaú, Joelmir Beting, antes de ficar famoso como comentarista de economia consagrou-se como cronista esportivo. Foi como repórter esportivo que iniciou a carreira jornalística. Trabalhou nos jornais O Esporte e Diário Popular. Trabalhou tambem na JovemPan, na época rádio Panamericana.
Numa das retrospectivas que a BandNews apresentou sobre sua vida, ouvi o próprio Joelmir contar como marcou seu nome na história do futebol. Era março de 1961. Santos jogava no Maracanã contra o Fluminense. Ganhou de 3x1, sendo que um dos gols foi marcado por Pelé. O Rei driblou seis jogadores do tricolor e fez o gol que impressionou a todos, inclusive o jovem repórter. Ele começou a pensar como imortalizar aquele momento, já que não tinha foto nem filme. Surgiu a ideia de mandar fazer uma placa para colocar na entrada do estádio: “Neste estádio Pelé marcou no dia 5 de março de 1961 o tento mais bonito da história do Maracanã”.
Ele contou que o autor do gol de placa é o Pelé. E fez a frase com o humor que ele carregava: “Nunca fiz um gol de placa, mas fiz a placa do gol”. A partir daí a expressão “gol de placa” ganhou a boca de tudo quanto era locutor esportivo, popularizando Joelmir.
Contou também como foi a troca do esporte pela economia. Segundo ele, aconteceu durante um jogo do Corinthians contra o Palmeiras. Durante a transmissão pela Rádio Panamericana, ele não se segurou e comemorou um gol alviverde, mandando bananas com os braços para a torcida corintiana. Graças a interferência da polícia a torcida não invadiu a cabine da rádio para agredí-lo. O episódio serviu para que percebesse que sua paixão pelo Palmeiras poderia interferir no seu trabalho. Na redação pediu demissão, mas a direção não aceitou. Mesmo assim, ele foi embora e nunca mais voltou.
Joelmir começou sua nova trajetória no jornalismo econômico. Em 1968, entrou na Folha de S. Paulo como editor de economia, e desde então tornou-se referência no assunto. Além dos jornais, Joelmir fez comentários nos telejornais das redes Globo e Band. Escrevia com graça e leveza. Traduzia tudo do economês para uma linguagem simples. Revelou que se a mãe dele entendesse o texto, estava bom, dava pro povão entender. Desenvolveu um estilo. Além de usar palavras compreensíveis, Joelmir recheava seus comentários e colunas de frases e bordões tipo “Quem não deve, não tem”.
Quando o Paraná perdeu a posição de grande produtor de café para Minas Gerais ele escreveu: Isso ocorreu porque em Minas o macuco pia, e em terra que o macuco pia, não gia.”
Luiz Ernesto Kawall, seu grande amigo, lembra que Joelmir viveu sempre inteligentemente entre nós e viajando pelo mundo. Sem esquecer sua máxima: “na prática, a teoria é outra”, título de um de seus livros. Outro livro: Os Juros Subversivos. Deixou a viúva, dois filhos e muitos amigos e seguidores da sua escola de jornalismo que descomplica a economia.
CEARÁ MOLEQUE
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| Humoristas cearenses |
Wilson Ibiapina
O cearense adora criticar, zombar, fazer piada, vaiar ou rir de qualquer coisa que saia da normalidade ou que lhe pareça exótico, diferente. Ao lado de um falso moralismo piegas, herdado da igreja católica, existe o Ceará moleque. Debocha de tudo, com malícia desde o Ceará colônia.
O sociólogo Francisco Secundo da Silva Neto escreveu um verdadeiro tratado sobre esse comportamento dos cearenses. O professor da Unifor diz que o cearense, diante da falta de chuva, debaixo de sol inclemente,“ é obrigado a desenvolver estrategias de sobrevivência associadas a igual número de produções subjetivas. Há os que respondem com a melancolia, outros com o empreendedorismo e há, é claro, os que desenvolvem a veia da zombaria.”
Ele afirma que a aplicação do predicado ‘moleque’ na identificação do Ceará ou do cearense implica a compreensão de um comportamento irreverente como sendo atributo quase natural daqueles que nascem neste estado do nordeste brasileiro.
Hoje em dia, a expressão ‘Ceará moleque’ virou marca cultural do cearense, o que passa a ser um forte atrativo para o turismo local. E essa molecagem pode ser vista nos inúmeros shows de humor que divertem tanto cearenses como visitantes. Mas no passado chegou a incomodar. Adolfo Caminha, no romance A Normalista, que escreveu em 1893, procurou retratar o cotidiano de uma Fortaleza provinciana, habitada por uma gentinha canalha. A literatura cearense está repleta de crônicas e histórias dessa nossa irreverência. O cearense já vaiou o Sol, que apareceu tímido entre nuvens depois de uns dias de chuva. Estraçalharam com chutes uma pobre galinha que saltou de uma das janelas do antigo Excelsior Hotel em plena Guilherme Rocha. O radialista João Ramos ganhou uma vaia monumental por que se atreveu a ir ao estádio Presidente Vargas vestido numa camisa vermelha. Na época o colunista social Eutímio Moreira chegou a fazer uma campanha a favor do uso da camisa vermelha.
Uma diversão da rapaziada que fazia hora na praça do Ferreira era ver a saia das meninas levantar com o vento que sopra naquele cruzamento das ruas Major Facundo com Guilherme Rocha. Ganhou até o apelido de Esquina do Pecado. Acho que até hoje tem gente ligada no espetáculo que é acompanhado com vaias, assobios e gritos.
O compositor baiano Gordurinha fez até música enaltecendo o ventinho bom lá da praça do Ferreira. O jornalista Ayrton Rocha, vasculhando seu arquivo arrancou de lá uma nota publicada pelo jornal O Povo, há 50 anos, época em que a mulher ainda não usava calça comprida. Só lendo para acreditar no apelo à polícia para que coloque um freio na rapaziada que se diverte com o vento que levanta saias.
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