terça-feira, 25 de dezembro de 2018

UM NATAL EM NOVA IORQUE



Duas senhoras mineiras, fazendeiras ricas do interior do estado, gostavam muito de viajar. Sempre que sobrava tempo iam gastá-lo na Europa ou Estados Unidos. 

Desta vez, era época de Natal e as duas passeavam em Nova Iorque. Quem conta é uma médica minha amiga que, por razões óbvias, evita declinar os nomes. Certa noite, depois de um espetáculo da Broadway, resolveram voltar a pé para o hotel, que não ficava tão longe do teatro. Agasalhadas para enfrentar o vento frio , caminhavam distraidamente quando notaram que estavam sendo seguidas. As milionárias mineirinhas, acostumadas com a violência que rondam as pessoas no Brasil , ficaram de orelha em pé. Olharam para trás e viram que se tratava de uma pessoa alta, quase dois metros, metida num capote preto e puxando um enorme cão pela coleira. O medo de um assalto ou coisa pior tomou conta das duas. Não aparecia mais ninguém na rua e resolveram apressar o passo. Para desespero delas, o gigante estava cada vez mais perto. Elas mudaram de calçada e ele também. Chegaram ao hotel correndo e foram direto para o elevador. Quase desmaiaram quando viram o misterioso homem da noite segurar a porta para que o cão, que também não era dos menores, entrasse. Quando uma delas apertava o botão correspondente ao andar onde estavam hospedas, ouviram uma palavra de ordem, que as fez tremer : 

"Sit! ". Mais que depressa, as duas se jogaram ao mesmo tempo no chão do elevador, obedecendo com a mesma precisão do cão a ordem daquele homem. Na primeira parada do elevador o homem e seu obediente animal saíram e as duas seguiram tremendo até a chegada do andar de seus aposentos. Foi uma situação de tanto medo que só depois é que a ficha foi cair. Devia ser um hóspede e a ordem foi para o cão que se acomodou e não perturbou. No dia seguinte, quando passavam pela portaria, rumo ao café da manhã, foram abordadas por uma moça da recepção. Senhoras, deixaram essas flores pra vocês. O bouquet era lindo e vinha acompanhado de um cartão: Senhoras, muito obrigado pela noite graciosa que me proporcionaram. Foi muito  divertido. Um abraço do Michael Jordan.

Ele mesmo, o famoso ex-jogador de basquetebol, 1,98 m. , atualmente dono da equipe da NBA Charlotte Hornets. É considerado por muitos como o melhor jogador de basquete de todos os tempos e também como um dos mais importantes desportistas masculinos da história.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

HOTEL NACIONAL


Wilson Ibiapina (*)

Primeiro de setembro de 2007, um sábado, fui acordado pelo telefone. Era o querido jornalista Rodolfo Espínola avisando que estava sendo despejado do Hotel Nacional. Ele e mais uns 300 hóspedes foram avisados do despejo por meio de um papel deixado embaixo da porta pela gerência do hotel. Surpreendidos com o aviso, todos tiveram que arrumar a malas e deixar o local. Um monte de hóspédes desceram e ficaram igual a mãe de São Pedro, perdidos.

Quando cheguei ao hotel, Rodolfo estava no meio da rua. Um outro cearense ilustre, o ex-governador Gonzaga Mota, na mesma situação, já havia deixado o local em busca de novo abrigo. Depois ficamos sabendo que o Nacional foi obrigado a retirar seus hóspedes por decisão da Justiça, que  dava reintegração de posse à empresa dona do terreno, o Banco Rural, aquele que foi tragado pelo mensalão.  

O grupo Canhedo, do empresário Wagner Canhedo  (que ganhou a Vasp a preço de banana e levou à falência) não pagava a taxa de administração do imóvel há mais de três anos. Divida de mais de 30 milhões de reais. No mesmo dia, à tarde, o Grupo Canhedo conseguiu  cassar a liminar de despejo e o hotel voltou a funcionar normalmente, mas a imprensa foi proibida de entrar no local. Apenas alguns hóspedes voltaram ao hotel.

Era o declínio daquele hotel de luxo intimamente ligado à história política do país.



Agora, o hotel está sendo vendido para pagar dividas.
Parece que foi ontem que o Nacional era o centro do poder social da capital. O jornalista José Luiz Silva lembra que a história de Brasília passava por ali. 

Enquanto esteve nas mãos de seu fundador, o empresário José Tjurs, dono da rede de hotéis Horsa, foi um sucesso. Desenhado pelo arquiteto Nauro Jorge Esteves, o hotel com dez andares e 347 apartamentos tem uma suite presidencial  com quatro quartos; quatro closets, mesa de reuniões, bar e sala de jantar. Inaugurado em 1961, hospedou a Rainha Elizabeth e o duque Phillip, o frances Charles de Gaulle, os americanos Jimmy Carter e Ronald Regan, e ,muitos outros políticos, diplomatas e celebridades como Roman Polanski, John Travolta e Roberto Carlos.

As suas galerias, na parte térrea eram ocupadas por lojas de artesanatos, roupas, livrarias, empresas de aviação, agências de viagens,  imobiliárias e lanchonetes que atraiam os brasilienses. O movimento em frente a entrada principal do hotel, com feérica içuminação, lembrava a rua Guilherme Rocha, em Fortaleza. Justamente o trecho da casa Parente, loja Vox, livraria do Edésio, onde a moçada  se postava,  jogando conversa fora, cubando o movimento.

Foi na calçada do  hotel, batendo papo, que conheci os jornalistas Roberto Macedo e Hélio Doyle no inicio dos anos 70. O movimento aumentava quando do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Artistas como Paulo José, Dina Sfat, Darlene Glória, Ítala Nadi, Leila Diniz e Arduíno Colasanti, galã do cinema novo, que foi casado com a atriz e escritora cearense Ana Miranda, se exibiam na piscina do hotel  observados por  jornalistas, hospedes e fãs.

A sauna era local procurado pelos brasilienses. Lembro que um dia juntamos um grupo de colegas da Rede Globo e fomos pegar uma sauna. Estava lotada e se não fosse o Arnaldo Artilheiro o programa não teria acontecido. Artilheiro confiado em seus dois metros de altura e no seu possante físico foi lá e aumentou a temperatura da sauna. Em poucos minutos não ficou ninguém. E ele, na porta, argumentando que ocorrera um problema. Quando todos foram embora, ele normalizou a temperatura e nós fomos nos divertir.

Nas décadas de 60 e 70, o hotel era o local de happy hour de políticos e jornalistas. Mesas de baralho, uisque, paqueras e conversas que varavam a noite, começavam no restaurante principal, com maitre e garçons vindos do Riode Janeiro e São Paulo e geralmente passavam pela boate Tendinha ou pelo restaurante Tabu. No Bar, os políticos , senadores, embaixadores, ministros, deputados se revezavam no telefone, caçados pelas telefonistas para atender os chamados dos amigos e contar os bastidores. A feijoada, aos sábados, reunia fina flor dos Ponte Preta.

Era no Nacional que a cidade promovia festas de debutantes e bailes de carnaval e de passagem de ano. Lembro que no baile em comemoração aos 15 anos de Brasília a Globo flagrou a presença da menina Brasília, a primeira a nascer na nova capital. Embora estivesse também completando 15 anos não lembraram de convidá-la. Ela viu tudo do jardim em frente ao salão de festa, no sereno, esquecida.
Hoje, o Nacional, com novo dono, pode até se reabilitar, mas jamais será o mesmo. A cidade ganhou outros  pontos que estão na moda. Os frequentadores da noite são outros. A cidade tem novos hoteis.
O Nacional com seus quartos, salões cercados de madeira, não perdeu seu glamour, continua pronto para receber seus hospedes, sob nova direção. Mas aí a história será outra.

Wilson Ibiapina (Ibiapina), jornalista e diretor do Sistema Verdes Mares, em Brasília

domingo, 22 de julho de 2018

BRÁSILIA SUPER RÁDIO FM - DESAPARECE A RÁDIO QUE DIVULGAVA CULTURA

Wilson Ibiapina


O maior sonho do cearense  Mário Garófolo era ter sua própria emissora de rádio. Nascido em Messejana, distrito de  Fortaleza, em 1920, Mário Miguel Nicola Garófalo, era  filho dos italianos José Garófalo e Inês Bisceglia Garófalo. A família morou também na serra de Baturité. 

Ainda muito jovem foi para o Rio, que era para onde todos os brasileiros viajavam em busca de melhores oportunidades. Jornalista profissional desde 1946, foi  repórter do jornal Correio da Noite.  É reconhecido como o criador da rádio-reportagem no Brasil. Fez grandes coberturas  pela rádio Continental, no Rio de Janeiro. Ficou famoso quando transformou Getúlio Vargas em garoto propaganda. Foi assim: em 1951, no dia da posse de Getúlio, todas as emissoras de rádio em cadeia nacional, Garófalo aproveita para saber do presidente o que ela achava da  campanha das Casas Gebara, baixando os preços dos produtos.  
 
Se você entrar na Internet vai ver lá que ele foi diretor-geral do Correio Braziliense e da TV Brasília, de 1960 a 1969. Garófalo transmitiu a inauguração de  Brasília para as emissoras de rádio e televisão dos Diários Associados. Ele vivia o rádio. 

Foi aqui em Brasília, credenciado como repórter no Palácio do Planalto, que se aproximou do presidente Figueiredo e conseguiu a concessão de uma emissora. A Brasília Super Rádio FM recebeu as bençãos do Papa João Paulo II no dia da inauguração.  

Garófalo transmitia, todo fim de semana, a benção papal direto do Vaticano. Muito católico, o velho radialista repetia um costume antigo, colocando no ar todos os dias, às seis da tarde, a Hora do Angelus, ao som da Ave Maria de  Schubert ou de Gounod. Em seguida  apresentava Um piano ao cair da noite, direto do auditório da Caixa, no Conjunto Nacional. 

Com  uma  programação  musical de  alto nível, a emissora era ouvida nos escritórios, consultórios, nas embaixadas.  Quase não tinha anúncios, comerciais, e as músicas, uma depois da outra, serviam de  background para os moradores da cidade.

Lúcia e Mário Garófalo
Durante a semana, só música orquestrada. Sábado e domingo abria espaço para músicas cantadas pelos melhores interpretes do cancioneiro nacional. Tinha programa até em esperanto. Tudo no capricho.  Os amigos apresentavam programas, faziam locução. A base era ele e a mulher, a jornalista Lúcia Garofalo. 

Eu estava saindo da UTI do hospital Santa Lucia, em 2004, depois de uma cirurgia,  quando Mário Garófolo  passou por mim, carregado em uma maca. Foi a última vez que o vi com vida. Morreu aos 84 anos de falência múltipla dos órgãos. A Lúcia, sua mulher  ainda carregou a rádio por algum tempo. Só na hora da Voz  do Brasil a rádio  era igual as outras, dizia um de seus slogans. Lúcia morreu de câncer em 2017 aos 72 anos. O casal não teve filhos. Não teve quem desse continuidade ao projeto que encantou Brasília. A jornalista Daniela Pinheiro escreveu na revista Piauí que a  " emissora era  tão familiar aos brasilienses quanto rotatórias em forma de tesourinhas, CPIs e superquadras sem esquina."

A diferença era a música. Resistia  firme à investida do rock, sertanejo, baladas românticas, axé e funk. Lembra a repórter que ali  só se ouvia boleros, swings, tangos, chorinhos, ópera, jazz, músicas orquestradas, clássicas e temas de cinema, entremeados com notícias nacionais e boletins exclusivos de emissoras estrangeiras." 

O brasiliense toma um susto, hoje, quanto sintoniza o rádio  em 89, 9 MHz. tem uma outra emissora lá com uma  programação  estranha, de músicas de baixa qualidade, uma seleção de terceira categoria que só serve para confirmar que a Brasília Super Rádio Brasília morreu com os seus fundadores. Só existe hoje na nossa memória.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

O GENERAL DANILO VENTURINI E AS PROFISSÕES DO FILHO



Wilson Ibiapina

General Danilo Venturini

Você não imagina a alegria do general Danilo Venturini quando soube que seu filho Danilinho estava estudando karate com o  professor Flávio Testa. 

O general, capixaba de Itarena, de ascendência italiana, foi ministro da Casa Militar do governo Figueiredo. Foi também, ministro para Assuntos Fundiários, ministro de segurança institucional. Fez parte da cúpula dos governos militares nos anos 60 e 70, destacando-se como um defensor da transição  dos militares para a democracia.

Casado  com dona Amarílis Portugal Venturini, o casal teve três filhos: Angela, Danilo e Márcio. Além de suas preocupações profissionais, esteve sempre ligado na educação dos filhos. A sua formação militar o levou pela vida a seguir o método cartesiano de aceitar apenas aquilo que é certo e irrefutável e consequentemente eliminar todo o conhecimento inseguro ou sujeito a controvérsias. Quando soube que o Danilo estava cursando arquitetura tomou um susto. Na época, confundia-se arquitetura com decoração, coisa afeminada, parecia curso destinado a mulher. Dizia a todo mundo que o filho que levava seu próprio nome, estudava engenharia. Decepção, mesmo, foi quando encontrou em uma mesa de casa um folder com a propaganda de um  balé que tinha como destaque, pasme, Danilo Venturini Filho. O general quase que teve um troço. Bailarino, era demais. Hoje , já casado, morando nos Estados Unidos, Danilo Filho, resolveu fazer gastronomia, virou master chef.

Um dia visitando seus pais em Brasília, resolveu fazer um almoço, para mostrar suas qualidades culinárias. O general chamou uns colegas com suas respectivas esposas. Ao final o elogio foi geral. Quem fez tão saboroso ágape, queriam saber. O general mais uma vez, mostrando que também não gostara da nova profissão do filho, apontou pro Danilinho e apresentou: 

- Foi aqui o meu filho. Ele é formado em hotelaria.

domingo, 15 de julho de 2018

HISTÓRIAS CEARENSES – OS CAVALCANTE E A SOLIDARIEDADE


Wilson Ibiapina


Dia desses fui almoçar no restaurante Ki-Filé e me lembrei de um de seus fundadores que faleceu em maio de 2018, o cearense Raimundo Nonato Cavalcante. Ele foi um dos cozinheiros pioneiros de Brasília.

O pioneiro Raimundo Nonato Cavalcante
Antes de ter seu próprio negócio, Raimundo chegou a trabalhar como servente de pedreiro e em um restaurante de comida italiana com o irmão, Anastácio Cavalcante Vasconcelos, que depois foi apelidado de Somoza, alusão ao ditador da Nicaragua.

Os dois irmãos trabalharam na cozinha do restaurante  Romanina, que ficava na 303 Sul e pertencia a dona Nanci, tia da jornalista Célia De Nadai, que me disse lembrar, como se fosse hoje, da torta de frango que ele fazia. O "Chicken pie"  era o prato preferido do dr. Ulisses Guimarães, um dos ilustres frequentadores da casa.

Quando inauguraram o restaurante deles, na Asa Norte, frequentado por  estudantes da UnB, professores, jornalistas, servidores púbicos, políticos e boemios, ficaram famosos pelos pratos que o Raimundo preparava. Chamaram  muito a atenção dos clientes os temperos e os pratos regionais como a feijoada carioca, o carneiro cearense, a rabada e dobradinha paulista. O  carro chefe  continua sendo o saboroso filé-mignon que vem à cavalo e deu nome à casa: Ki-Filé. Hoje, o restaurante é comandado pelo Roberto, filho de Anastácio que trabalha com primos e colaboradores.

Raimundo pouco antes de morrer, contou-me a viagem sentimental que fizera  à Serra da Ibiapaba, no Ceará. Percorreu o mesmo trajeto que fez em 1958 com os pais e os irmãos. Fugindo da seca braba que açoitou o Ceará naquele ano, foram parar num sitio, em Ibiapina. O proprietário recebeu os  Cavalcante com todas as honras, como se fossem velhos amigos. Não faltou água limpa, comida e rede cheirosa e limpa para acariciar o corpo nas noites frias da Serra Grande. Raimundo ainda teve tempo de agradecer a hospitalidade  tão generosa que salvou sua família da fome e da sede. O escritor tcheco Franz Kafka dizia que a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana.

Muita gente não acredita mais na solidariedade desinteressada, como antigamente. As pessoas querem sempre algo em troca do menor favor. Mas esses egoístas ainda não dominam o mundo. Ainda existem gestos humanitários que separam o ser humano dos irracionais.

Um outro exemplo de solidariedade, também, vem do Ceará. Alunos da Escola de Ensino Profissionalizante Balbina Viana Arrais, de Brejo Santo, são protagonistas de um ato que emocionou a cidade. Ao descobrirem que o professor de artes, Bruno Rafael, de 28 anos, estava passando necessidade financeira, resolveram ajudar. O professor que é pernambucano, estava há dois meses sem receber e já se preparava pra ir embora para o Crato. Seus alunos rifaram uma  caixa de chocolate e conseguiram  R$ 400,00. O dinheiro foi entregue na sala de aula, o professor chorou de emoção diante do gesto bonito. Feia mesmo é a falta de  vergonha dos administradores que humilham o professor que trabalha sem receber. A solidariedade dos jovens adolescentes não deixa  de ser um vexame para quem não cumpre suas  obrigações.

Aqui o vídeo que o professor postou nas redes sociais:




UM NATAL EM NOVA IORQUE

Wilson Ibiapina Duas senhoras mineiras, fazendeiras ricas do interior do estado, gostavam muito de viajar. Sempre que sobrava tem...