domingo, 5 de dezembro de 2010

QUANDO A MULHER ABRE O JOGO CONTRA O MARIDO



Wilson Ibiapina

Nos primeiros anos de Brasília as pessoas não tinham muito o que fazer depois do trabalho. A cidade, sem diversão, levava os amigos a formarem grupos nos fins de semana para conversar, dançar, beber ou jogar baralho.

O carteado reunia funcionários públicos, jornalistas, profissionais liberais e políticos.
Cada fim de semana o jogo era na casa de um deles. O jornalista mineiro Moacir Valadares era um viciado em baralho para desgosto de dona Júlia, mulher dele. Ela detestava os amigos que “levavam o marido para o caminho da perdição, do jogo, do vício”.

Um dia, quando dona Júlia viajou para visitar uns parentes, Moacir tratou de reunir a turma para um biriba-amigo em seu próprio apartamento. Entre seus convidados estavam colegas jornalistas e até o vice presidente da República, dr. Pedro Aleixo.

O jogo corria alegre quando, de repente, a porta da rua é aberta. Dona Júlia adentra à sala, que estava coberta de fumaça de cigarro. Voltara antes da data marcada, pegando o maridão com as cartas nas mãos. Mais surpreso ficou Valadares que, imediatamente, tratou de apresentar os amigos, antes que a mulher fizesse um escândalo. Este é o fulano, aquele o cicrano, e dona Júlia ficando vermelha. Lançando mão de seu último argumento, Moacir Valadares apresenta o que ele imagina o álibi perfeito: - "E aqui, minha querida, o dr. Pedro Aleixo, o vice-presidente da República”. - “Vice-presidente coisa nenhuma. Esse aí não passa de um salafrário igualzinho aos outros...."

Essa história brasiliense faz lembrar uma outra passada no Ceará, onde uma senhora pregou uma peça no marido e em seus convidados de jogo. Uma história inacreditável tirada das memórias de Pedro Nava, mineiro de Juiz de Fora que teve pai, avó paterna e avô materno nascidos no Ceará. Era sobrinho do escritor cearense Antônio Sales. Pedro Nava foi batizado na capela da Santa Casa de Misericórdia. O caso é contado no livro “Em busca do tempo vivido”, que Edmilson Caminha escreveu para comemorar o centenário do nascimento de Pedro Nava.

A mulher, pivô desse episódio, quando soube que o marido ia fazer um joguinho em casa, teve uma reação maluca, indignada, cheia de maldade, quase cruel. Na verdade, tratava-se de uma verdadeira cascavel que destilava veneno pelos poros. Sua raiva do mundo parece que começava pelos pais que a batizaram com o nome de Irifila. O nome do marido não ficava
atrás: Iclirérico Narbal Pamplona. Devia ser outro motivo de sua ira do mundo.

Edmilson Caminha diz que o próprio Pedro Nava descreveu a tia assim: “Era baixota, atarracada, horrenda, permanentemente irritada – de alma amarga e boca desagradável. Diante dos magros, seu assunto era magreza. Dos gordos, as banhas”. Ele conta que dona Irifila era inimiga de tudo que favorece a fantasia e torna a vida suportável. Era contra os namoros, contra o riso, contras as festas, contra o jogo. Não gostava de receber e, quando era obrigada a isso, fazia com grosseria.

O escritor Edmilson Caminha diz que essa senhora era o verdadeiro “desmentido em carne e osso da tão decantada cordialidade cearense”.

Pois o coitado do Iclirérico, o marido, um dia teve a coragem de levar uns amigos para uma partida de baralho em sua casa que deveria terminar com um jantar. A vingança da jararaca foi maligna. Veja só como tudo acabou segundo as palavras do Edmilson Caminha: “Finda a ceia, àquela noite com a presença do Visconde de Ouro Preto, dona Irifila apressou-se em servir a sobremesa: vinhos, licores, doces e chocolates, tudo do mais fino bom gosto. E no meio da maior bandeja, a mais alta compoteira com o doce do dia – aparecendo todo escuro e lustroso, através das facetas do cristal grosso, de um pardo saboroso como o da banana mole, da pasta de caju, do colchão de passas com ameixas pretas, do cascão de goiaba com rapadura. O marido, mal se contendo de desejo, destampou a compoteira, ante o olhar guloso do visconde: estava cheia , até à borda, de fezes."

Um comentário:

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