sábado, 8 de fevereiro de 2014

RESSURREIÇÃO DOS VELHOS CARNAVAIS




O carnaval é em março mas as escolas já estão nas quadras e os blocos nas ruas. Estou lembrando uma das maiores figuras da folia. Professor de dança que ficou famoso como o maior compositor de marchinhas de carnaval, Lamartine de Azevedo Babo. Ricardo Cravo Albin diz que ele foi o mais completo e carioca dos compositores populares. Não sabia música nem tocava qualquer instrumento. O humorista, radialista, ator, cantor e poeta, fez também músicas juninas (Isto é lá com Santo Antônio e Chegou a hora da fogueira), hinos religiosos e de quase todos os clubes de futebol do Rio e samba canção como Serra da Boa Esperança e, em parceria com Ari Barroso, na Virada da Montanha e Rancho Fundo. Lalá imitava com a boca instrumentos musicais. O maestro Radamés Gnatalli dizia que ele era um dos poucos compositores que sabia exatamente o que queria: “ descrevia todo o arranjo, cantando a introdução, meio e fim, solfejava acordes e sugeria partes instrumentais . A gente só fazia escrever”.

Ricardo Cravo Albin diz que sua composição “A História do Brasil” foi o primeiro painel surrealista e tropicalista. Após perguntar “quem foi que inventou o Brasil” e responder que “foi seu Cabral dois meses depois do carnaval” ele bagunça a história resumindo os séculos posteriores: Ceci amou Peri/Ao som do Guarini/ Do Guarani ao Guaraná/Surgiu a feijoada/ E depois o Parati”. Albin diz que ele abriu caminhou para a poética popular do absurdo, a mesma que o poeta repentista José Limeira encantava os nordestinos. Ricardo afirma que Stanislaw Ponte Preta seguiu a trilha quando fez O Samba do Crioulo Doido.

Nos programas de rádio, Lamartine fazia humor e trocadilhos: “Senhor Lamartine, vá cantar no rádio que o parta “ dizia que teria lhe dito um ouvinte da emissora depois de escutá-lo cantar. No texto que escreveu sobre o “rei do carnaval”, na revista Problemas Brasileiros, Herbert Carvalho lembra o seu último e celebre trocadilho. Herbert Carvalho conta que no dia 13 de junho de 1963, quando se recuperava de um enfarte sofrido meses antes, Lamartine foi ao Copacabana Palace, no Rio, ver o ensaio de um musical de Carlos Machado, inspirado em suas marchinhas de carnaval e que tinha o título de O teu cabelo não nega. No final do ensaio, após ser entrevistado por um repórter de TV quis saber se iria ao ar naquele dia. -”Hoje não, disse o repórter. Hoje teremos uma entrevista com o Tom Jobim que chegou dos Estados Unidos”.

Ah! Quer dizer que agora estou um tom abaixo?”

Lamartine Babo morreu três dias depois sem ver sua entrevista no ar e sem assistir a estréia do musical.

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