quinta-feira, 7 de outubro de 2010

REFLEXÕES SOBRE O JORNALISMO

Marcelo Canellas

Estudantes secundaristas vivem querendo me arrancar uma fórmula de farmácia sobre o jornalismo. É que tenho 44 anos e estou, supostamente, na idade de dar conselhos. Qualquer besteira que eu diga tem a atenuante da experiência. Mesmo assim fico constrangido em dizer a um adolescente o que ele tem de fazer para ser jornalista. Eu não tenho a mínima ideia se o que serviu para mim servirá para ele. Eu sou muito indeciso, e precisei fazer um ano de agronomia para ter certeza de que queria mesmo ser jornalista. Não vou aconselhar um garoto a fazer o que fiz; a faculdade de agronomia é importante demais para ser pista de testes de vocações sob suspeita.

Simplifiquemos: quanto você lê? Se você lê muito, pode ser jornalista. Jornalistas que não leem ou leem pouco costumam ser profissionais medíocres, porque a língua é a grande ferramenta de nossa profissão. Para viver da escrita é preciso dominá-la. Mas nem todo mundo que gosta de ler precisa ser jornalista. Então pergunto: você tem uma vontade irresistível de elucidar um acontecimento obscuro, de revelar um fato curioso, de entender o que se passa a sua volta transformar isso tudo em relato inteligível? Então pode ser que você seja um bom jornalista um dia. Embora isso também não baste.

Você é inquieto, curioso, crítico? Você tem apreço pelas minúcias, pelos detalhes que passam despercebidos? Você desconfia das aparências? Se a resposta for sim, você está quase habilitado a se tornar um repórter. Digo quase porque há outra exigência decisiva: a independência intelectual. Jornalista é um sujeito de pensamento livre. Essa nossa profissão não é para vacas de presépio. As redações saudáveis são aquelas em que as divergências de seus profissionais são discutidas abertamente até que a força jornalística de um fato ou de uma cobertura se imponha por si própria. O jornalismo é insubmisso, não aceita encilhamento ideológico. Reportagem com interesse político ou econômico por detrás costuma ser desmascarada pelo próprio leitor, ouvinte ou telespectador, que reconhece o embuste quando há proselitismo demais e reportagem de menos.

Por fim, a pergunta fundamental: você quer mudar o mundo mas tem humildade para saber que não pode fazê-lo sozinho? Você acredita que o ser humano nasceu para ser livre? Então, boa faculdade de jornalismo. Nos veremos por aí um dia nas pautas da vida.

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