domingo, 2 de setembro de 2012

BAR DOCE BAR




Wilson Ibiapina

O bar é o confessionário do boêmio.  É ponto de encontro de  jornalistas, artistas, intelectuais, estudantes, trabalhadores de todas as áreas. É onde rola o famoso papo furado, aquele que começa  com política, vai pra religião, passa pelo futebol, praia, música, passeios e termina em mulher. 

Belo Horizonte: a capital nacional dos bares
Belo Horizonte é considerada a capital nacional dos bares, mas garanto que Fortaleza não fica muito atrás. Saindo da praça do Ferreira pela Guilherme Rocha, antes de chegar à praça José de Alencar, havia o Ritz, do Luís Frota Carneiro e que tinha entre seus fregueses o jornalista Caio Cid. Mais na frente o bar do Seu Oliveira, pai do Bené, hoje engenheiro morando no Rio. Era famoso pelo tira-gosto de frutas e pela placa enorme, bem na entrada: “Aqui é proibido discutir política, religião e futebol.” Na rua Guilherme Rocha havia o Porta Aberta, que não fechava nunca. Simplesmente não tinha porta. Ao lado ficava o Café da Imprensa, que reunia à noite boêmios, prostitutas e jornalistas.

Nos anos 60, voltando a pé de uma farra na beira mar, os estudantes Rodger Rogério, Fausto Nilo e Antônio Carlos, ao passarem em frente a um desses bares na Guilherme Rocha, ficaram com vontade de tomar uma geladinha. Sem dinheiro, a solução foi pedir emprestado o violão de um ceguinho que pedia esmola na calçada. O Rodger tocou, o Fausto cantou e o Antônio passou o chapéu. Depois de três canções, contaram a grana, dividiram com o ceguinho e foram matar a sede. Quando estavam saindo ouviram o cego perguntar: “Quando vocês voltam?”

No bar do Niltinho, na Clarindo de Queiroz, ele exibia na parede as fotos dos fregueses que a cachava tirava da vida.
Na orla, O Gordo e o Magro e Sereia Deó abrigavam os boêmios quando o dia amanhecia. O Roberto Aurélio Lustosa diz que não esquece o Felix Ximenes encomendando um prato para viagem. Imitando o garçon, recomendava: “Castiga nas almeixas”.

O bar do Anísio, na beira mar, era reduto dos estudantes que se reuniam para beber e se inspirar para compor, pintar, escrever e jogar conversa fora. O Balão Vermelho, na Duque de Caxias, era outro ponto de encontro dos jovens estudantes e boêmios dos anos 60. Passaram por lá Augusto Pontes, Fagner, Belchior, Ednardo, Brandão, Fausto Nilo, Rodger, Tet, Francis Vale, Dede Evangelista, Flávio Torres, Cláudio Pereira, Chico Moura, Chico Farias e mais um monte de gente, hoje profissionais liberais ricos e famosos.

Ali na  Desembargador Moreira, onde hoje está a TV Cidade, ficava o Bar do Domingo, taifeiro aposentado da Base Aérea de Fortaleza. Nelson Fahiena lembra que a maioria dos fregueses comprava fiado. A despesa era anotado com giz branco nas paredes vermelhas do boteco. Quando a dívida era paga, a conta era apagada com um pano molhado. Ao longo de mais de uma década, o frango cozido foi o único tira-gosto servido. Patos, galinhas e frangos eram criados  em meio aos fregueses. Faheina conta que um dia o jornalista Chico Alves Maia ao morder uma coxa perdeu o dente de ouro que ostentava na parte superior da boca. Foi preciso matar muitos frangos para encontrar o dente. A jóia foi encontrada na moela do oitavo frango sacrificado, em meio a restos de comida.


Aqui em Brasília, o empresário Jorge Ferreira, dono de vários bares que movimentam a noite da cidade, contou-me uma ocorrida em Cruzilia, sua terra natal no interior de Minas. Um dos bares de lá fica em frente ao cemitério. Nome do boteco: “Olhando para o Futuro”. Numa tarde,  o mais antigo e assíduo frequentador, logo ele que chegava cedo, não havia aparecido para abrir os trabalhos. A preocupação geral pela ausência foi interrompida por uma voz  que veio do meio de um pequeno cortejo que passava na rua, rumo ao cemitério. Todos correram para a calçada. Era o Zé da Patroa que passava pegando na alça de um caixão e avisava: “Pessoal, tô  levando a  titia alí,  volto já, já”.


Historia de bar não tem fim. A todo instante está acontecendo aqui e alhures. O comediante americano Tom Dreesen, que passou doze anos abrindo shows para Frank Sinatra, na década de 80, foi convidado por ele para um drink, em Palm Springs. E foram para um barzinho chamado Chaplin’s, do filho de Charlie Chaplin. Ele contou ao jornalista Bill Zehme: “Não havia ninguém lá. Só um sujeito num canto afastado, e Frank e eu no balcão, de pé. O garçon estava fechando a casa. Ficamos conversando alguns minutos quando, de repente, um mulher dos seus sessenta e cinco anos entrou correndo no bar. Ela disse: “Com licença! Vocês têm uma  jukebox aqui?”   Frank Sinatra se virou e olhou  à sua volta e falou : “Não, acho que não.” Em seguida, como que pensando melhor falou: “Mas eu vou cantar para a senhora”  E ela disse: ‘Não, obrigada’ E deu meia volta e foi-se embora. Frank ficou olhando triste enquanto ela saia porta afora, Aí eu falei pra ele em meio daquele silêncio desconfortável: “Talvez ela não o tenha reconhecido”. Ele deu de ombros e suspirou: “Ou talvez tenha”.

Em seu livro “Os Bares Morrem Numa Quarta-Feira”, Paulo Mendes Campos lembra que Franz Kafka imaginou um conto surrealista com o seguinte enredo: uma festa à qual várias pessoas comparecessem, sem que nenhuma tivesse sido convidada, ninguém se conhecesse e, onde, contudo, o convívio se estabelecesse, com todos os seus aspectos positivos e negativos. “Essa festa já existia; e eram os bares do Rio”, escreveu o cronista.

Amarelinho, ZiCartola, Sovaco de Cobra, ou Beco das Garrafas, Cantinho do Leme, Lamas e Antonio's foram redutos da boemia da cidade maravilhosa. Jornalistas, escritores e artistas globais baixaram durante anos no Antonio's, batizado com esse nome pelo jornalista Armando Nogueira, em homenagem ao cearense Antônio, que era o cozinheiro. Era lá que o jornalista  Carlinhos de Oliveira escrevia suas crônicas para o Jornal do Brasil , como já contei aqui. Uma noite, o bar recebeu a indesejável visita de um ladrão. O marginal trancou os fregueses no banheiro, de onde Carlinhos  gritava: “Seu ladrão, leva os vales , na caixinha de charutos,  leva os vales”.


O engenheiro César Bezerra lembra uma outra grande historia daquela inesquecível boemia do Rio que o Ayrton Rocha já falou em crônica publicada aqui no blog. César recorda que certa  madrugada Carlinhos e Lúcio Rangel, depois de beberem todo uísque do mundo, saíram do Antonio's  às 5 da manhã abraçados para não cair. Já na calçada, Lucio sugeriu: - Carlinhos, vamos tomar um taxi. E Carlinhos prontamente respondeu, ponderando: - Lucio,  acho melhor não misturar!

Um comentário:

  1. Porreta suas histórias sobre bares. E o melhor é que são histórias verídicas.

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