domingo, 20 de janeiro de 2013

A NOITE DE DOLORES DURAN




Ayrton Rocha


Rio de Janeiro.

Capacabana.

Noite de boemia.

A boite era o Little Club, no Beco das Garrafas.

A noite era do meu bem. Era de Dolores Duran.

À noite é o bem de todos nós, românticos e boêmios. 

Das noites e da vida.

Dolores Duran foi à paixão da noite.

Ela foi à esperança da manhã.

Tudo que ela falava ou dizia, era paixão, era amor.

Dolores Duran era a namorada que todos gostariam de ter tido.

Mas nem todos tiveram a sorte do meu amigo e compositor Billy Blanco, que considerava as músicas de Dolores como ''De capa e espada, com mortes e feridos''.

Nem a sorte também de um jovem de dezenove anos, Nonato Pinheiro, bem mais novo que Dolores, que, numa noite no Little Club, pediu para ela cantar ''Castigo''. Uma canção de Dolores, que castiga qualquer coração numa noite perdida.

De pronto ela respondeu: ''O Show já terminou. Mas posso cantar em seu ouvido”. E para o jovem Nonato Pinheiro, seu maior romance, ela compôs, quem sabe, em seu ouvido, ''A Noite do Meu Bem''. Maravilhosa música de amor, que até Tom Jobim, acho eu, gostaria de ter composto.

Tanto que Tom não resistiu ao sentimento e aos encantos de Dolores e com ela fez duas de suas principais parcerias. ''Estrada do Sol'', quem não se lembra: ''É de manhã vem o Sol mais os pingos da chuva que ontem caiu/ainda estão a brilhar/ainda estão a cantar/ao vento alegre que me traz esta canção''. E, ''Por Causa de Você'': ''Ai, você está vendo só/do jeito que eu fiquei/e que tudo ficou/uma tristeza tão grande/nas coisas mais tristes que você tocou”.

Eu não sei falar em Dolores Duran do meu tempo e de todos os tempos, sem lembrar Copacabana, o Beco das Garrafas em noites cheias de fumaça de cigarros e ouvi-la cantar ''Castigo'': A gente briga/diz tanta coisa que não quer dizer/briga pensando que não vai sofrer/que não faz mal se tudo terminar''.

De ouví-la dizer, cantando, na noite enfumaçada de Copacabana: ''Eu desconfio/que o nosso caso está na hora de acabar/Há um adeus/Há um gesto em cada olhar/mas nós não temos é coragem de falar''. De ouvir, ela e o Tom Jobim juntos, cantarem ''Me dê a mão/vamos sair pra ver o Sol''.

Eu não lembro, sem chorar, ouvir Dolores Duran dizer cantando: ''Ai, a solidão vai acabar comigo''. Dolores foi a Flor da noite de Copacabana. A Flor verdadeira.

Foi a Lua cheia de um ''Fim de Caso''. Foi uma estrela da manhã num raiar do dia no lindo Rio de Janeiro Zona Sul. Ela foi à noite de Copacabana. E o dia de Ipanema.
Na Rua Gomes Carneiro, no edifício Majestic, onde morava.

Dolores foi à mulata mais linda do meu samba-canção. Ela foi à voz mais gostosa de uma noite de paixão. Dolores foi o cochicho de amor no meu ouvido. Foi o sussurro melodioso da minha emoção. Foi a Rosa mais bela, das noites, dos bares, do samba-canção.

Ela foi à paixão da noite.

Ela foi à esperança da manhã.

Tudo que ela cantava ou dizia, era amor, era paixão. ''Eu quero qualquer coisa verdadeira/um amor uma saudade/uma lágrima um amigo/Ai a solidão vai acabar comigo''.

''Não me culpes/é que eu tenho muito amor muita saudade/e estas coisas custam muito a passar. Não me culpes não/pois vai ser assim. Toda vez que você passar por mim''.

Dolores era assim mesmo. Gostava de namorar. Tinha muitos amigos. Gostava de amar.

Todas as madrugadas de sábado, quando a noite cansada deixava o Sol chegar com todos os seus raios de luz, Dolores se cercava dos amigos e levava todos de Copacabana para Ipanema, no edifício Majestic, lá na Rua Gomes Carneiro, sua casa, para uma feijoada bem Carioca, quando se transformavam numa intelectual boêmia do dia, sem nunca esquecer os romances e encantos da noite que já passou.

Numa dessas madrugadas-manhãs de sábado, sem Sol e sem raios de luz, Dolores não trouxe os amigos. Não houve feijoada. Apenas disse para a sua secretária do lar: ''Não me acorde. Quero dormir até morrer''.

A sua vontade foi feita. E ela não acordou nunca mais. E hoje com saudade eu canto: ''Hoje eu quero a Rosa mais linda que houver/e a primeira estrela que vier/para enfeitar a noite do meu bem''.

A noite de Dolores Duran.



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