domingo, 27 de julho de 2014

MENINAS NÃO BRINCAM DE RODA, MENINOS NÃO JOGAM PIÃO



Emerson Sousa

Ao recordar "Meus Oito anos" de Casimiro de Abreu  (ABAIXO) , voltei por momentos ao passado. Minha infância e adolescência no Rio, na Praça São Salvador, no Flamengo. Tempos que não voltam mais.

Ah, como meninos sabiam viver a vida! Desfrutar da natureza, das brincadeiras sadias e das amizades sinceras. Um menino sempre confiava em outro menino.

Ouvia-se, na pracinha: "Pai Francisco entrou na roda, tocando seu violão"... Eram as meninas brincando de roda. O canto se misturava ao "marraio feridô sou rei", dos meninos agachados no "bola ou búlica" das gudes coloridas.
Jogava-se "finca" e "pião". Corria-se nas "cabras-cegas", pulava-se "carniça"  e suava-se no "mãe da rua".

Menino subia em árvore, jogava bola de meia, tirava marisco das pedras, pegava cocoroca no anzol. As manhãs eram mais azuis e as tardes mais coloridas. Parecia que se tinha não uma, mas duas ou três vidas! 

Era um tempo de ventura e aventuras...

Meninos eram donos de montadoras de carrinhos de rolimã.
Se aventuravam, à noite, até estrada do Corcovado abaixo...
Meninas tinham hospitais, enfermarias e escolas de bonecas.

Tempos também de engraçadas e maldosas sacanagens:
de amarrar nota de um mil réis e deixar na calçada para um bobo qualquer tentar pegá-la, enquanto ela era arrastada à cada tentativa.

Tinha molecagens até perigosas. Uma artimanha maldosa dessas, era fingir que a caixa vazia de 24 picolés da Kibom era uma bola.  

Ela era colocada no meio da calçada. Um moleque ficava de frente para outro. Entre eles, a caixa com a boca virada para baixo. Um se postava curvado, se fingia de goleiro. O outro simulava que ia bater um pênalti.  

Assim que se avistava a vítima vindo por detrás do que ia chutar a caixa, o goleiro ficava gritando: "Aqui não faz gol não, aqui não!"  E uma platéia de moleques fazia côro: "Vai perder, vai perder!" Isso era fatal. O passante, sempre bancando o engraçadinho, vinha correndo por detrás do moleque que ia chutar e chutava a caixa primeiro. 

Só que embaixo  dela escondíamos um puta de um paralelepípedo daqueles soltos da nossa rua. O tropicão e a queda eram infalíveis. Era uma tremenda sacanagem, coisa de moleque irresponsável.

Naquele tempo, no Rio, senhores de idade usavam chapéu. Quantas vezes amarrávamos em dois a três locais diferentes uma fina linha de costura do poste ao muro, na altura da cabeça de uma pessoa mediana. Ao passarem, esses velhinhos  tinham o chapéu derrubado. Olhavam, não viam nada, se assustavam e o colocavam novamente na cabeça. Dois a três passos adiante o chapéu era derrubado de novo. Nada entendiam além das nossas risadas.

Nossa praça  era ponto final de várias linhas de ônibus. Ali se formavam imensas filas de pessoas que iam para o trabalho.

Com um cabo de vassoura  na mão - metade sujo de bosta de cachorro- um moleque fingia brigar com outro enquanto o resto da molecada fazia coro gritando "porrada! porrada!" 

A turba se aproximava da fila onde senhores de terno e gravata e mulheres bem arrumadas aguardavam a subida no veículo. Os dois brigões, já junto da fila,  aumentavam a encenação. Sempre se movimentando, como se um fosse partir para cima do outro, se aproximavam da fila. Trocavam insultos.  Nisso, o que estava sem o cabo de vassoura gritava para o opositor: "Se é homem, largue o pau e vem na mão!"

O outro, de imediato, respondia, "Ah, é?"  E rapidamente virava para alguém da fila e  dizia:  "Segura aqui!"  E estendia o cabo de vassoura.

A vítima, surpresa e pega de supetão, segurava o pau. Nisso, o moleque puxava de uma vez o cabo e deixava o coitado com a mão toda suja de bosta. Todos corriam em seguida às gargalhadas, enquanto o coitado deixava a fila em busca de um lugar para lavar a mão ouvindo risadas de outros passageiros.

À noite, tínhamos atividade diária entre 7  e 8 horas.Na parte de serviço do prédio, pelo vitrô da escada,  nos debruçávamos para ver mulher trocar de roupa. Afrouxávamos a luz do andar e, às escuras, não éramos visto. Fazia fila de menino para ver "Carminha", uma esguia aeroviária. Era a paixão geral da molecada. Passeava de um lado a outro do quarto totalmente pelada. Arrancava suspiros que, algumas vezes, quase nos denunciavam. O autor era expulso e ficava proibido por uma semana de voltar ao espiódromo.

Ó que saudades que tenho da vida levada pelos moleques do meu tempo. Não existiam computadores, jogos eletrônicos smartphones, tablets ou celulares.  

Mas, inventávamos a bola de meia. Tínhamos  pião, gude, finca, perna-de-pau, pipas, carrinho de rolimã, bate-bate, corrida de saco, telefone de cordel,bilboquê, jogo de botão, ioiô, mamãe posso ir, boca de forno,  passa anel, peteca, polícia e ladrão, amarelinha e até figurinha para bater.

Não perdíamos tempo como se perde hoje por horas diante de uma telinha  de celular.  O tempo é que era curto demais para nós. Éramos do mundo.

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Meus oito anos - Casimiro de Abreu

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar, um lago sereno,
O céu, um manto azulado,
O mundo, um sonho dourado,
A vida, um hino de amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado de estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
Pés descalços, braços nus,
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

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Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

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