segunda-feira, 4 de agosto de 2014

HISTÓRIAS DE UM REPÓRTER



Edmar Morel foi um dos melhores repórteres da imprensa brasileira. Nelson Werneck Sodré dizia que suas reportagens reuniam coragem, audácia, faro para o acontecimento insólito, capaz de atrair a atenção das pessoas. Morel, afirmava Werneck, “sabia extrair do noticiário do dia aquilo que deveria ser objeto de reportagem.” Saiu de Fortaleza no dia 10 de março de 1932. Viajou no porão do navio Campos Salles.

Aos 20 anos conseguiu seu primeiro emprego no Jornal do Brasil. Barbosa Lima Sobrinho, um dos chefes da redação, escreveu que conheceu Morel “vestido ainda com as roupas do Ceará, mal chegado ao Rio, tocado por aquela fatalidade que nos leva a tomar um barco da Ita e a dizer adeus Belém do Pará, na canção de Caymmi. Tanto faz Belém do Pará como Fortaleza. É sempre um cordão umbilical que se corta e uma saudade que nasce, para nunca mais morrer”.

Na redação do JB começou a conhecer os grandes nomes da imprensa carioca, naqueles anos 30:

o crítico literário Mucio Leão, o cartunista Raul Pederneiras. E é próprio Edmar Morel quem conta: “Numa noite entrou na redação um senhor de porte prussiano, alto, e que olhava seus semelhantes de cima para baixo.

- Quem ?
- É o dr. Gustavo Barroso. Vou te apresentar.
- Não, pelo amor de Deus...

Aquilo só podia ser uma visão ver o dr. Gustavo Barroso em carne e osso? Esfreguei os olhos. Pensava que tudo era um pesadelo. Na minha mocidade havia lido um dos seus livros, Terra do sol, e o povo dizia que ele era o maior escritor da língua portuguesa. Antes de tudo, era cearense.

Explico por que não quis ser apresentado ao gênio. Seu pai, Filinto Barroso, homem erudito e conhecido como Filinto Garapa, entregou-me uma carta recomendando-me ao filho, juntamente com dois queijos e duas latas de doce de caju. Tive fome, comí as gulodices e, assim, não foi possível entregar a missiva”.

Essa história está no livro “Histórias de um repórter”, vividas em 60 anos de imprensa, onde mostra como jornalista é explorado, “ganhando o redator o salário de um cabo de polícia ou de um chofer de caminhão de lixo”. Deixou 15 livros num total de 23 edições. Segundo ele, “todos os direitos autorais não dão para comprar um fusca zero”.

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