terça-feira, 5 de agosto de 2014

PARIS É UMA FESTA


Eduardo Mamcasz

Ceará em Paris. Tem que ler até o final prá entender. Dimanche, começo pelo Chez Albert, na Boulevard Charrone, perto do Père Lachaise. Brunch por 23 euros todas que puder comer – baguetes, geléias de amoras, tortas e direitas. 

Depois, primeira caminhada, frio e nublado, até La Nation. Paradas nas lojinhas e cafés de esquina, até chegar à Bastilha. Boa andada mas em Paris, tudo é nada. Daí, num barzinho de esquina, de olho no piroquete (obelisco, que em grego quer dizer oh – ó, be – de que, lisco-tamanho) da Bastille. Deux alongés, si vous plait. Alongé é café cortado. 

Daí... escuta esta, amigo Wilson Ibiapina. Me aparece uma senhora, na mesinha ao lado, aqui em Paris é tudo assim, um raladinho no outro, bom para se conhecer. Não deu dois minutos, Silvana, o nome dela, cigarro acesso, use o nosso cendrier, ó, merci, de nada, epa, vocês são de onde – Brésil, isto eu sei, com esta fala, mas dondi? Brasiliá. Fale que nem gente, cabra. Ela, é de Fortaleza, Ceará, há 25 anos em Paris, casou com um cozinheiro francês, da Câmara dos deputês, culpa de minha mãe, casou com um professor francês, há 42 anos, hoje está com aquela doença do alemão, tenho um filho, lindo, 19 anos, olha aqui a foto dele, o peste fala francês, inglês e alemão muito bem mas o porra da peste se recusa a falar brasileiro, foi duas vezes ao Ceará, detestou o Brasil, só tem esperto, mãe sofre, vocês tem filho, não, pena, é tão bom sofrer, e ela bebendo uma taça de vinho e eu, por causa da chuva e da prosa, uma taça de vinho rouge, e lá pelas tantas conto que meu primeiro casamento foi com uma cearence de Itapipoca, a próxima taça eu pago, o cabra sabe onde tem mulher boa, então pago a tua cerveja, mina, ah, fala outra vez, que saudade, tu não é polaco porra nenhuma, do sul, vixe, tu é do nordeste. E madame só olhando... Até que chegou a hora que Madame se vira prá mim: Florzinha, não tá na hora de mijar não, e eu, qué isso, aguento mais um tanto, conversa boa, vinho melhor ainda. O olhar resposta foi tão duro que no repente senti uma pressão na bexiga, mina, Silvana, tenho umas amigas no Ceará, quem, a Antonieta Negrona, não é Negrão, polaquinho, conheço a família, a Cecília Cordeiro, o Ibiapina, conheço a família, e eu, pô, na Ceará só tem família, e ela, demais, não vá mijar agora não, conversa tão boa, Madame espera. Espera aí. Estou onde mesmo? Em Paris, meu. Mas dondi? Praça Bastilha, onde o povo trouxe o rei Luís e a rainha Antonieta, não foi tua amiga do Ceará não, e ó, cortou a cabeça. Qual delas? Ih, você é demais, mademoiselle piriquita (a garçonete), outra tasse de vin rouge aqui pro meu amigo polaco branco. E Madame? Vou falar. Só agora tô chegando aqui em casa, três portões para abrir com códigos diferentes, a concierge teve que me ajudar nos quatro, porque tem a porta do apê e.... quédi Madame? Manhã eu procuro. Hoje, sem condição. E pour quoi, meu? É que nem o velho Hemingway dizia, no meio dos porres: porra, Paris é uma festa. Festa vai ser quando Madame me encontrar amanhã. Ih, Silvana, que lugar é este? Não é o apê onde estou. Cadê minha baguete. E ela: comi. Ih ... fudeu.

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