domingo, 12 de setembro de 2010

O DIA QUE UBAJARA TREMEU DE MEDO

Marco da Passagem da Coluna Prestes, de Oscar Niemeyer


Wilson Ibiapina

Parecia que ia ser mais uma pacata manhã, ensolarada e fria naquele 13 de janeiro de 1926. Mas a notícia chegou com o dia amanhecendo e se espalhou feito fogo em palha: "os revoltosos estão chegando". Eram os participantes da Coluna Prestes, movimento que surgiu no Rio Grande do Sul para combater as velhas oligarquias e que percorreu 25 mil quilômetros – de sul a nordeste - por mais de dois anos, pregando reformas sociais e econômicas.


Aconteceu que nos lugares por ande passava, a Coluna ia roubando cavalos, alimentos e armas. No lugar de angariar a simpatia das populações do interior, despertava o medo. As classes dominantes, para continuar no poder, espalhavam que os "revoltosos" eram todos ateus que prostituíam as mulheres e deixavam o povo mais miserável ainda.


O 2º Destacamento da Coluna Prestes, comandado pelo coronel pernambucano João Alberto estava entrando no Ceará, pela Serra da Ibiapaba, meio perdido, é verdade. Juarez Távora, o único cearense no comando da coluna acabara de ser preso quando fazia uma precursora. Era ele quem conhecia o Estado. João Alberto não tinha um mapa. Por isso que ao sair de Pedro II, no Piauí, rumo a São Benedito, foi bater na divisa entre os municípios de Guaraciaba do Norte e Ipueiras.


A primeira coisa que os revoltosos faziam era cortar os fios do telegrafo, único meio de comunicação, para não serem denunciados. No Ceará espalharam mensagens de que estavam rumando para ocupar Sobral e Fortaleza. A tática era deslocar as tropas do governo para que Carlos Prestes passasse pelo sul do Estado com os 1º 3º e 4º destacamentos, levando doentes e feridos.O código Morse correu pelos fios ainda ligados espalhando a pavorosa notícia pelas cidades da Serra Grande.


O ubajarense José Cunha Freire, em artigo no Informativo da família Soares & Cunha conta que tinha 11 anos de idade quando despertou naquela manhã de 13 de janeiro de 1926 com aquela movimentação infernal. Você já viu uma pessoa com medo, mas uma cidade em pânico é cena só vista em cinema. José Cunha revela que aquele corre-corre o marcou para o restante da vida: "Só se ouvia nas ruas, em cada esquina, em cada mercearia, o povo dizer: "Os revoltosos vem aí, e eles vem matando e tomando tudo aos seus alcances. Até os lares serão invadidos pela fúria assassina e animalesca dos tarados. Eles entrarão em Ubajara às oito horas da manhã e daqui irão para demais cidades".


Em Juazeiro do Norte, o deputado Floro Bartolomeu e Padre Cícero resolveram recrutar até Lampião e seu bando. Deram dinheiro, munição, mantimento e a patente de capitão a Virgulino Ferreira. O bando ganhou o título de Batalhão Patriótico. Quando descobriu que a patente era falsa, Lampião esqueceu a Coluna e foi cuidar da vida.


No momento em que o 2º Destacamento com seus 132 homens rumavam para o Ipu, Ipueiras, Nova Russas e Crateús, onde foram recebidos à bala, em Ubajara o medo corria frouxo. O município, que há menos de 11 anos se emancipara de Ibiapina, em poucas horas ficou completamente desabitado. A população inteira fugiu da cidade para sítios povoações no pé da serra ou mesmo seguiu a pé para o vizinho Piauí. Homens, mulheres, velhos e crianças corriam, pulando cerca de arame farpado, descendendo ladeira, passando por rios. José Cunha Freire lembra que "o comercio cerrou suas portas e povo só não passou fome porque no dia seguinte o medo acabou e graças a Deus tudo voltou a normalidade".


Dias depois, os momentos em que a cidade tremeu de medo foram relembrados num livro de cordel. Até hoje a literatura de cordel ainda é o fiel repórter dos fatos que atormentam o Nordeste. O repórter-poeta narrou em versos bem rimados todo vexame causado pela falsa notícia. Ele tinha em sua primeira quadra o seguinte: "Foi a treze de janeiro/ as oito horas do dia/Que chegou a noss vez/De demonstrarmos valentia/. Mas o que se viu foi pura covardia". E narrava que assim que a notícia chegou, no lugar de pegar em armas, a cidade disparou pelo mato. Até hoje tem gente chegando ao Piauí. Tinha uma estrofe em que um "cara" enganchou a camisa numa cerca de arame farpado e dizia:"me solta revoltoso ! Eu não sou culpado".


A passagem da Coluna Preste pelo Ceará é lembrada pelo monumento que foi erguido em Crateús, única cidade que enfrentou os revoltosos. Tem mais de 13 metros, foi criado por Oscar Niemeyer, e oferecido a todos os municípios por onde a Coluna passou. Crateús é o quarto município do país a exibir o projeto do famoso arquiteto.

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