domingo, 11 de maio de 2014

PAULA NEI, O BOÊMIO QUE FAZIA VERSOS




O jornalista e poeta cearense Paula Nei só tinha 39 anos quando morreu no dia 13 de novembro  de 1897, no Rio de Janeiro. Levava vida desregrada e morreu jovem como todos os seus contemporâneos. Álvares de Azevedo, 21 anos; Castro Alves, 24 anos, Fagundes Varela, 33 anos.

Quando saiu do seminário, Paula Nei, pressionado pelo pai, alfaiate, foi estudar medicina. Leonardo Mota, na biografia do maior boêmio que o Rio conheceu no fim do século XVIII, escreveu que esse filho de Aracati aprontou. E lembra uma prova oral a que foi submetido quando aluno de medicina. O professor de Obstetrícia, Visconde de Sabóia, expõe um caso de parto  complicado. O mestre descreve em cores trágicas o perigo em que se encontra a parturiente e pergunta  : - Em tais conjunturas o que faria?

Paula Nei diz que faria isto e mais isto.

O mestre: - matava o feto.

Paula: - Bem, dr. Mas naturalmente eu me aperceberia disso e lançaria mão de tais e tais detalhes.

- Matava a mãe

- Não mestre, porque, de novo, a tempo eu recuaria e passava a proceder assim...

- Neste caso matava a mãe e o feto.

- Ah, professor, nesse caso eu via que o negócio estava mesmo encrencado e salvaria brilhantemente a situação mandando chamar V. Senhoria.

Paula Nei comia pouco, bebia muito. Um dia, leva Aluísio Azevedo ao boteco Caboclo, do português Quincas que abriu o verbo para o romancista: - Olhe, isto de comedoria virou coisa do passado. Já foi o tempo. Hoje, olhando para Nei, o povo só quer beber. Só consigo vender pastéis. Paula Nei faz um aparte: - E pensar-se, Aluísio, que isto já foi um pais de apetite. Comia-se de tudo, até bispo. O que estragou o paladar do nosso povo foi a civilização.

Foi andando e bebendo por esses botecos que fez amizade com o Conde de Helzberg, um alemão que durante o dia dirigia uma empresa funerária e à noite participava das farras de Paula Nei. Certa madrugada, o poeta cearense queixou-se para o Conde que não tinha onde cair morto. O alemão, que já estava embriagado, chorou comovido e prometeu que daria a ele um enterro pomposo: “coche de primeira classe, cavalos de raça negros, cocheiro e ainda carneiro perpétuo, missa de sétimo dia com órgão. Um funeral pra mais de 2 a 3 contos.” Paula Nei escreveu que um dia estava sem um só tostão no bolso e foi negociar seu enterro de luxo com o Conde. Propôs rebater com desconto o seu funeral, baixando de primeira para segunda classe. O alemão topou, deu-lhe dinheiro e exigiu recibo. E continua Nei: “Noutras pândegas reduzi a segunda classe à terceira e a terceira à quarta classe. Há dias, bebi o carneiro perpétuo e hoje estou reduzido à vala comum, que é o albergue noturno da eternidade. Antes assim! Dificilmente eu me acostumaria a morar só, num carneiro perpétuo... Na vala comum, pelo menos, terei companheiros e continuarei a ser na morte o que fui em vida: o homem das multidões”.

Quando da Proclamação da República, o povo saiu em passeata pelas ruas do Rio, parando em frente a sede dos jornais que apoiaram o movimento. Na sacada da Gazeta de Notícias, onde trabalhava Paula Nei, estavam várias autoridades, entre elas Luís Murat e o general Serzedelo Correia. Paula Nei completamente embriago subiu de quatro pés as escadas até a redação. De lá , acotovelando meio mundo conseguiu chegar à sacada, transformada em tribuna pelos oradores que se revezavam. A massa reconheceu Paula Nei e começou a gritar o nome dele para que também falasse. Nei deu um passo em falso  e foi cair nos braços do general Serzedelo. Naquela posição ele falou: “concidadãos! O povo amparado pelo Exército: eis a República!” O povo delirou, Paula Nei se ajeitou e fez um aplaudidíssimo discurso.

Paula Nei foi um abolicionista. Levou seu colega jornalista José do Patrocínio ao Ceará para reforçar a campanha abolicionista que transformou o estado no primeiro da Federação a abolir a escravidão em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea. Foi José do Patrocínio que, por esse fato, chamou o Ceará de “a terra da luz”. O feito inspirou Paula Nei que fez o poema Abolição:

“A justiça de um povo generoso,
Pesando sobre a negra escravidão,
Esmagou-a de um modo glorioso,
Sufocando-a com a lei da Abolição.

Esse passado tétrico, horroroso,
Da mais nefanda e torpe instituição,
Rolou no chão, no abismo pavoroso,
Assombrado com a luz da Redenção.

Não mais dos homens os fatais horrores,
Não mais o vil zumbir das vergastadas,
Salpicando de sangue o chão e as flores.

Não mais escravos pelas esplanadas!
São todos livres! Não há mais senhores!
Foi-se a noite: só temos alvoradas! “

O amor de Paula Nei pelo Ceará pode ser traduzido no lema que  criou: “Pelo Brasil eu morro, pelo Ceará eu mato. Leonardo Mota lembra que ele era de surpreendente memória e discutia com garbo qualquer assunto. Um verdadeiro mistério, pois ninguém sabia a que horas do dia ou da noite era que ele estudava ou lia. O biografo transcreve uma confissão do próprio  Nei: “Eu não leio! Não leio, porém faço mais: observo. O meu livro é a vida, obra saída dos prelos de Deus” .  Deve ter sido de lá que tirou o poema que fez em homenagem a Fortaleza:

“Ao longe, em brancas praias embalada
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza, a loura desposada
Do sol, dormita à sombra dos palmares.
Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins pousada
Na brancura de místicos altares.

Lá canta em cada ramo um passarinho,
Há pipilos de amor em cada ninho,
Na solidão dos verdes matagais...

É minha terra! A terra de Iracema,
O decantado e esplêndido poema
De alegria e beleza universais!

Coelho Neto contou, durante visita que fez a Fortaleza em 1917, que seu enterro foi uma apoteose. Havia de tudo no imenso cortejo fúnebre, desde ministros de estado até humildes vendedores de jornal. E todos quantos lhe viram o cadáver no ataúde se espantaram. É que lhe ataram no alto da cabeça um lenço branco que lhe segurava os maxilares. Estava aí o espanto de todos: ninguém podia compreender Paula Nei de boca amarrada.

Um comentário:

  1. Ouví, durante minha mocidade, alguns contos em que participava Paula Nei. "Andava com Castro Alves, os dois com chapéu de palhinha e bengala (costume da época), quando passa uma senhora grávida. Castro Alves bate com a bengala no chão e diz "BENGALINHA". Paula Nei de imediato bate com a bengala no chão e diz "BENGALADA".
    Assim como essa tem outras que enviarei e se aproveitadas ficarei feliz
    JKarvalho

    Quanto a veracidade do fato não tenho comprovação.

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