domingo, 17 de janeiro de 2016

LOIRAS DO LAGO SUL



Mayra Cunha

Sexta era aniversário de uma amiga e fiquei dando um tempo no trabalho pra arrumar uma carona ir direto pro boteco encontrá-la.

Depois de algumas cervejas, ela foi embora e eu fui dar um rolé com dois amigos pelos bares da quadra, famosa pelo burburinho e movimento noturno. Tenho saído tão pouco que queria curtir a noite.

Eis que já bem tarde, tomando uma cerveja em pé em frente a um dos bares e de papo por ali, fui abordada por uma mulher loira que nunca tinha visto na vida. Ela veio me perguntar onde poderia dançar. Eu falei de dois ou três lugares e ela me pediu que fosse até a mesa dela, onde estava sentada com amigas. Lá fui eu sentar e dar consultoria de vida noturna, como se nela vivesse ultimamente. Ahã.

A essa altura, meus dois amigos já tinham resolvido ir embora e fiquei lá sozinha, sentada com três peruas (sim, PERUAS, de verdade), loiríssimas e muito estranhas. Agora começa a história...

- Vocês não são daqui?
- Não. A gente é do Lago Sul.
- Hã? Então vocês são de Brasília. Eu tava achando que vocês eram de fora.
- Não. A gente é do Lago Sul.

Para, respira, Mayra.
- A gente veio conhecer a Asa Norte hoje. Ver como vocês se divertem aqui.
Oi??? Pois é. Também não entendi.
- Como é? Vocês nunca estiveram por aqui?
- Não. A gente só circula pelo Lago Sul. Hoje decidimos ver como vocês se divertem por aqui. Estamos achando bem exótico.


Tipo assim... me senti uma leoa num safári sendo observada por turistas. Mas, continuemos.
- Chamamos um Uber Black e pedimos ao motorista que nos levasse ao "point" da Asa Norte e ele nos disse que era essa rua.
- De fato ele trouxe vocês pro lugar mais movimentado mesmo.

(Pausa para o garçom nos interrompendo, me perguntando se eu não iria tomar um espumante naquele dia, afinal, ele me conhecia, respondo que não). A loira mais perua, interrompe:

- Vocês tomam espumante aqui????
- Gata, você acha que tá em que tipo de lugar? É lógico que tomamos espumante aqui!! Tá achando que a Asa Norte é o quê? O fim do mundo??
- É que eu nunca pensei que fosse assim. Tinha outra visão daqui...


Lembrem-se de que eu já havia tomado um bocado de cerveja. Meu sangue estava começando a esquentar com essas malucas cheias de preconceito e pompa. O bar começou a fechar e eles começaram a recolher as mesas. E meu lado sarcástico começou a aflorar.

- Vocês vieram ver como a gente se diverte aqui, né? Vocês vão ver agora. A gente vai pegar essa cerveja que a gente tá tomando aqui na mesa, vai colocar em copos de plástico e vai beber em pé bem aqui na sarjeta na frente do bar fechado. É divertidíssimo!!!! Ah, às vezes passa um vento que traz um cheiro de xixi e de lixo. Mas é só às vezes. Reparem não.

Sim, eu barbarizei. Precisei fazer isso. Até porque enquanto estávamos em pé bebendo, se aproximaram dois rapazes pra nos convidar pra um samba. Um deles era negro e ela deu um chilique. Perguntei o que estava acontecendo. Ela cochichou pra mim que achava que iríamos ser assaltadas. Foi aí que eu perdi a paciência. Falei pra ela baixinho: você pode ser presa, sabia? Racismo é crime. Inafiançável.

Ela falava coisas absurdas sobre Brasília. Como se o Lago Sul fosse um mundo à parte. Eu comprei a briga. O bate-boca foi feio. Até a hora em que ela veio falar que morava no lugar com o maior IDH do mundo. Eu não aguentei. Mandei ela pegar o IDH dela e socar naquele lugar. Chamei a loira de esnobe e preconceituosa e mandei voltar pro Lago Sul.

Aí ela quis me bater. Pois é. Tiveram que segurar a loira. O negócio foi feio. Eu virei um rottweiller. Tá, um rottweiller filhote, mas bem abusado e bravo, porque eu não sou fácil quando estou com raiva.

Os tais dois rapazes ficaram perdidos no meio da confusão. Lá atrás, quando chegaram, perguntaram meu nome ao conversarem comigo. E quando me viram alucinada, um deles virou e disse: "calma, Maíra".

Pronto. Baixou o Zé Pequeno em mim. Eu só olhei pra cara dele e falei:
- Você me chamou de quê? De Maíra? Eu me chamo Mayra, porra. Fala meu nome direito. Como é que você se chama?
- Leandro.
- Por acaso alguém já te chamou de Leandró? Não, né? Então não me chama de Maíra! É Mayra! Mayra!


Ok. Foi um argumento ridículo. Absurdamente ridículo. "Leandró" foi o fim da picada. Eu sei. Mas quando eu estou bêbada e com raiva eu arrumo argumento PRA TUDO. Sei que, no fim, virei as costas e larguei esse povo doido lá dizendo que ia pedir um Uber pra ir embora. "Landró" veio me pedir desculpas e ainda conversamos um pouco. Até a hora em que ele me disse que já tinha sido militar e eu perguntei:

- Ah é? Então me diz, o que você acha do Bolsonaro?
- Ah, acho ele até bacana.
- É? Então vá a merda. Junto com ele.

E virei as costas e fui pra casa.
E assim terminou a minha noite. Era pra ser apenas um aniversário. Sair comigo é sempre uma grande diversão. Ou não.

O que me deixou impressionada - e triste - foi constatar que existe esse tipo de gente. Eu achava que era mentira quando me contavam. Realmente tem gente que insiste em viver dentro de uma bolha fantasiosa. Uma pena. E não, eu não me arrependo de ter esquentando e perdido as estribeiras. Fez foi um bem danado pra minha alma catártica. Acordei bem levinha.

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