quarta-feira, 11 de agosto de 2010

QUANDO LUIZ GONZAGA VIROU O REI DO BAIÃO

Wilson Ibiapina


Todos nós temos estrela. Às vezes falta alguém para acendê-la para que ilumine nossa vida. Tem gente que vive e morre sem que sua estrela brilhe. Só talento não adianta.


Luiz Gonzaga, por exemplo, foi fruto da influência de três cearenses. O jornalista Colombro de Souza, não era desse tempo, mas acompanhou, como repórter no Rio, a trajetória inicial do artista pernambucano, que estava no lugar certo e na hora exata, como quer o destino.

Quando ele deu baixa no Exército, em 1939, no Rio de Janeiro, saiu tocando sanfona na zona do meretrício para sobreviver. O jornalista Colombo de Souza lembra que naquele tempo Gonzaga só tocava bolero e tango.


Um dia, ou melhor, certa noite, apareceram por lá uns cearenses universitários que começaram a fazer um verdadeiro interrogatório. Queriam saber onde ele nasceu e se não sabia uma música nordestina. "Eu sei umas coisas de quando tocava sanfona de oito baixos, mas não dá aqui.” E os cearenses: -Dá.


Em entrevista ao Pasquim, Gonzaga conta que ganhou uma boa gorjeta e uma ameaça: “ a gente volta pra semana e só vamos dar dinheiro a você se tocar umas coisas daquelas dos pés de serra lá do Araripe, da tua terra”


Luiz Gonzaga diz que foi pra casa e começou a relembrar as “coisinhas” que tocava quando era moleque, acompanhando o pai dele, Januário. "Quando os cearenses voltaram eu taquei um pé de serra neles. Ai eles disseram: “ei. Pêra aí. O seu caminho é aí. E você tocando música de gringo?"


Surgiu daí uma amizade. Um dia foi visitá-los na república de estudantes, que ficava na Lapa. Gonzagão contou nessa entrevista que lá encontrou um jovem moreno, só de calção, lavando as cuecas. Foi apresentado como o presidente da república e ele disse: - muito prazer, Armando Falcão.


Lauro Maia, Humberto Teixeira e Armando Falcão mudaram o destino daquele pernambucano que não aguentava mais ser gongado nos programas de auditório onde aparecia tocando tango e bolero.


O jornalista Colombo de Souza Filho conta que para motivar Gonzaga a vestir o gibão de couro e colocar na cabeça o chapéu de Lampião, chegaram até a mostrar o sanfoneiro Pedro Raimundo todo de bombacha, aquela calça larga que gaúcho usa, faca na cintura, lenço no pescoço e o sucesso no mundo: Adeus Mariquinha que já vou embora...” A indumentaria foi colocada com ele quase entrando no palco.


Luiz Gonzaga foi levado ao programa do Ary Barroso. “Você de novo por aqui? O que vai tocar?" E o Gonzagão: “um negocinho do norte. O Vira e Mexe” e o Ari: “então arrivira e mexe” Dali pra frente “choveu na minha roça e nunca mais faltou feijão”, desabafou o velho Lua, relembrando a mudança por que teve que passar.


Quando o Humberto Teixeira começou a fazer as letras das músicas de Gonzagão, ele começou a virar o Rei do baião. Não dá para imaginar o que teria acontecido com Luiz Gonzaga se esses cearenses não tivessem cruzado na vida dele.

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