sábado, 28 de agosto de 2010

UM BAR COM NOME DE CEARENSE

Wilson Ibiapina


Morando ou não no Rio, se você não frequentou, pelo menos já ouviu falar num dos bares mais famosos da cidade maravilhosa. O Antonio's surgiu em novembro de 1967 com o nome da música Strangers in the night. Imediatamente virou o ponto de encontro de artistas, cineastas, jornalistas, intelectuais e boêmios em geral que movimentavam a noite do Rio.


Walter Clarck, diretor geral da Globo foi um dos maiores incentivadores do bar – restaurante. Ele garantia algumas noites repletas de globais, o que alimentava a fama. O empresário Alex Gonçalves lembra que o sucesso foi tão rápido quanto a decisão de Otto Lara Resende de trocar o nome da casa instalada na loja C da avenida Bartolomeu Mitre, 297. O título da música que fazia sucesso na voz de Frank Sinatra não agradou. O banqueiro José Luiz Magalhães Lins, do Banco Nacional, rebatizou o restaurante de Antonio's em homenagem ao cearense Antônio Pereira, o cozinheiro preferido de Armando Nogueira, na época o todo poderoso diretor da Central Globo de Jornalismo. Os outros dois sócios do bar eram os espanhóis Manolo e Florentino. Os três viviam sob a proteção do guarda chuva do Nacional. O cearense pouco depois foi trabalhar em Nova Iorque, mas deixou seu nome batizando o recanto mais agradável da noite carioca.


Jornalista e escritor mineiro Otto Lara Resende aparecia lá quase todas as noites para a alegria geral. O pernambucano Nelson Rodrigues dizia que a grande obra de Otto Lara Resende era a conversa. “ Deviam pôr um taquígrafo atrás dele e vender suas anotações em uma loja de frases". Pois foi esse frequentador assíduo que, certa noite, encontrou os fregueses tristes, parecendo todos preocupados com os rumos do regime militar que comandava o país. Conta o jornalista Carlos Henrique Santos que depois de alguns uisques, Otto, que nasceu com vocação para a galhofa, elevou o tom de voz e fez um verdadeiro discurso desancando a ditadura, convocando à resistência a juventude pensante ali presente (que outros chamavam de esquerda festiva). E fechou o seu pronunciamento indignado quase aos gritos, desafiando os eventuais dedo-duros que se infiltravam no ambiente: “e para provar que não tenho medo desses gorilas vou dizer meu nome. Podem anotar: “eu me chamo José Aparecido de Oliveira...”


O chatíssimo Roniquito Chevallier, que perturbava a vida de todo mundo, era outro que estava lá todas as noites. Brigava e apanhava quando metia a mão no prato de comida das pessoas ou cantava as senhoras acompanhadas dos maridos. Roniquito era Ronald Wallace Carlyle de Chevalier, irmão da jornalista Scarlet Moon de Chevalier. Era amigo de juventude de Walter Clark, com quem trabalhou na TV Rio e na Globo. Muito culto, formado em economia e segundo Rui Castro, inventor da palavra aspone. Rui acredita que Roniquito talvez tenha sido o sujeito mais sem censura da história de Ipanema. “Dizia o que pensava para qualquer um, não importava o cargo, a idade, a cor, o sexo, ou o tamanho da pessoa”. Quando morreu de enfarte em 1983, Carlinhos Oliveira escreveu: "Ninguém podia ser patife perto dele. Ninguém ousava". E Paulo Francis escreveu na Folha de S. Paulo:"Roniquito fazia o que não temos coragem de fazer - virar a mesa contra os horrores brasileiros.


O bar tem toda a sua história contada num livro que o jornalista paulista Mário Almeida escreveu depois de longas pesquisas. O jornalista Aramis Millarch, em matéria publicada em 1992 num jornal do Paraná, diz que o biógrafo do Antonio's dedica parte do livro ao cronista capixaba Carlinhos de Oliveira que nos anos 60 emocionava milhares de leitores do Jornal do Brasil. Aramis lembra que José Carlos de Oliveira, como cronista do "caderno B" do JB, foi sem dúvida o mais folclorico e famoso de todos os fregueses do Antonio`s - de cuja varanda escrevia sua coluna e ali permanecia, às vezes, até 40 horas ininterruptas. Um dia o Antonio's foi invadido por ladrões que prenderam os fregueses no banheiro. Foi de lá que Carlinhos fez um apelo desesperado aos marginais: “Seu ladrão, leva os vales, leva os vales. Essa caixinha de charutos no caixa...”


O Antonio's foi a capela sagrada da boemia que agitava as noites do Rio nos anos 60 e 70. O cozinheiro cearense não deve ter ideia do que se passou além do seu local de trabalho


Um comentário:

  1. Zé Wilson,

    Você continua um descobridor de curiosidades inimagináveis. Eu jamais iria imaginar que o famoso Antonio's tinha seu nome ligado a chefe de cozinha do Ceará. No mínimo, julgaria ser uma homenagem a alguns "antonios" frequentadores, dentre eles o Tom Jobim.
    Aliás, conheço mais de um cearense que saiu daqui fugindo da seca pro Rio, começou lavando prato e acabou dono de restaurante. Tem o caso do "La Molle", que é ou era de cearense da Serra Grande. Tem o "Aspargos" e o "Alcaparras", também de figuras desse tipo. Sem falar no Faustino, que voltou e se deu bem.
    Voltando ao Antonio's. Ali se definiu muita coisa em relação aos rumos do Cinema Novo, cujos líderes eram frequentadores do restaurante, assim como o responsável principal pela grana que financiou muitos dos filmes da rapaziada: José Luis de Magalhães Lins.

    ResponderExcluir

UM CEARENSE SURREAL

Wilson Ibiapina Darcílio Lima ainda jovem, no apogeu criativo O cantor e Compositor Raimundo Fagner, que também é pintor, foi quem lembrou-m...