sexta-feira, 24 de julho de 2015

O RIO DA MINHA ALDEIA

 

Wilson Ibiapina


Em Ibiapina nasce o rio Jaburu que, em Ubajara, abastece o
açude que tem seu nome e mata a sede da cidade. Na minha infância, em Ibiapina,
nos anos 50, a população tomava banho, sem roupa, no Jaburu. As casas não
tinham banheiros. Em época do frio, julho, as pessoas, em casa, usavam uma
bacia com água para o asseio diário. Hoje virou piada, mas era normal, à noite,
a mulher perguntar ao marido: - Bem, vai me usar hoje?
- Não.
- Então, vou lavar só os pés.


O Jaburu tem uma cachoeira, que era onde os homens tomavam
banho. A água corria sobre um lajedo cheio de lodo. Era o escorrega usado pelos
meninos. O rio fazia uma pequena curva e caia num poço , meio escondido pelas
árvores. Era o Curumim, lugar do banho das mulheres. Nem calção nem biquini,
todos nus. Hoje, construiram um balneário perto da cachoeira. As pessoas, que
se vestem para o banho coletivo, são vistas de uma ponte da rodovia que liga as
cidades da serra. Ibiapina , agora, está bem perto das duas nascentes do
Jaburu. As margens estão desmatadas. Além de casas, tem plantações que estão
secando o rio, que perdeu todo seu charme. Ao lembrar o Jaburu, me vem à mente
o poema
que Fernando Pessoa assinou como Alberto Caeiro, seu
heterônimo: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Mas o
Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque o Tejo não é
o rio que corre pela minha aldeia”...”


O rio da minha aldeia, o Jaburu, como o do poema, não faz
pensar em nada. O rio da aldeia de Pessoa virou canção de Tom Jobim.



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