segunda-feira, 28 de abril de 2014

A HORA DO ANGELUS


O sino na torre da matriz de São Pedro, em Ibiapina, tocava para chamar os fieis para a missa, para avisar a morte de algum habitante ou somente  para dar a hora. Diariamente, ao cair da tarde, logo após as 18 badaladas, o alto falante instalado no alto da igreja começava a tocar a Ave Maria, de Charles Gounod. A Hora do Angelus, inventada pela Igreja para que os católicos lembrem em preces e orações o momento em que o Anjo Gabriel anunciou a Maria a concepção de Jesus,  o momento da Anunciação.

Quando mudei para Fortaleza, a Hora do Angelus chegava à nossa casa pelas emissoras de rádio. Essa devoção tem origem na tradição franciscana. Ao toque do sino, quando do romper da manhã, os cristãos veneravam a Virgem Maria, recitando três ave-marias, intercaladas por três versículos bíblicos. Mais tarde, começou-se a rezá-lo mais uma vez, ao meio-dia. E mais tarde ainda, pelo século XIV, recitava-se o ângelus também ao entardecer.

No Ceará o toque da Ave Maria acontece só às 18 horas. O cearense Mário Garófalo, que teve a sua Brasília Super Rádio FM inaugurada pelo Papa, toca sempre A Ave Maria às 18hs. As cidades modernas dificultam o tocar dos sinos para não interferir na vida social, hoje regida por outros critérios. Aqui em Brasília mesmo, um cearense conseguiu que a justiça calasse o sino de uma igreja do Lago Sul que fica perto da casa dele.

Lembro a rádio Tupi do Rio. Todo dia após a hora do Angelus entrava uma crônica, ao som da melodia "Moonlight Serenade", com Glenn Miller e sua orquestra,  que terminava com o Carlos Frias dizendo "O meu boa noite para você". Na Rádio Tamoio, que hoje pertence ao Sistema Verdes Mares de Fortaleza, tinha no horário o programa Pausa para Meditação. Os ouvintes escreviam contando seus problemas e terminam as cartas com a frase “Me aconselha, seu Júlio Louzada!"


Em Fortaleza, a rádio Iracema apresentava a Hora do Pobre, logo após a Ave Maria. O programa era apresentado pelo padre Paixão, que recebia pedidos de ajuda através de cartas, já que naquela época, anos 50/60, telefone era coisa rara. Mauro Benevides, ex-presidente do Congresso Nacional, estava começando na política e foi pedir a ajuda do padre Paixão para sua primeira eleição. O padre fez a apresentação dele no programa Hora do Pobre: “Meus amigos, este  jovem advogado, católico, candidato a vereador, muito vai fazer pelo povo de Fortaleza. E depois de pedir que votassem nele, solicitou ao jovem advogado que lesse uma das cartas que estavam ali sobre a mesa. E Mauro Benevides, com sua voz fanhosa foi em frente: “Meu nome é Maria das Dores, estou grávida, preciso muito de sua ajuda..”. O hoje deputado federal Mauro Benevides diz que nunca mais esqueceu aquele momento.

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