O sino na torre da matriz de São Pedro, em Ibiapina, tocava
para chamar os fieis para a missa, para avisar a morte de algum habitante ou
somente para dar a hora.
Diariamente, ao cair da tarde, logo após as 18 badaladas, o alto falante
instalado no alto da igreja começava a tocar a Ave Maria, de Charles Gounod. A
Hora do Angelus, inventada pela Igreja para que os católicos lembrem em preces
e orações o momento em que o Anjo Gabriel anunciou a Maria a concepção de
Jesus, o momento da Anunciação.
Quando mudei para Fortaleza, a Hora do Angelus chegava à
nossa casa pelas emissoras de rádio. Essa devoção tem origem na tradição franciscana.
Ao toque do sino, quando do romper da manhã, os cristãos veneravam a Virgem
Maria, recitando três ave-marias, intercaladas por três versículos bíblicos.
Mais tarde, começou-se a rezá-lo mais uma vez, ao meio-dia. E mais tarde ainda,
pelo século XIV, recitava-se o ângelus também ao entardecer.
No Ceará o toque da Ave Maria acontece só às 18 horas. O
cearense Mário Garófalo, que teve a sua Brasília Super Rádio FM inaugurada
pelo Papa, toca sempre A Ave Maria às 18hs. As cidades modernas dificultam o tocar
dos sinos para não interferir na vida social, hoje regida por outros critérios.
Aqui em Brasília mesmo, um cearense conseguiu que a justiça calasse o sino de
uma igreja do Lago Sul que fica perto da casa dele.
Lembro a rádio Tupi do Rio. Todo dia após a hora do Angelus
entrava uma crônica, ao som da melodia "Moonlight Serenade", com Glenn
Miller e sua orquestra, que terminava com o Carlos Frias dizendo "O meu boa
noite para você". Na Rádio Tamoio, que hoje pertence ao Sistema Verdes Mares de
Fortaleza, tinha no horário o programa Pausa para Meditação. Os ouvintes
escreviam contando seus problemas e terminam as cartas com a frase “Me
aconselha, seu Júlio Louzada!"
Em Fortaleza, a rádio Iracema apresentava a Hora do Pobre,
logo após a Ave Maria. O programa era apresentado pelo padre Paixão, que
recebia pedidos de ajuda através de cartas, já que naquela época, anos 50/60,
telefone era coisa rara. Mauro Benevides, ex-presidente do Congresso Nacional,
estava começando na política e foi pedir a ajuda do padre Paixão para sua
primeira eleição. O padre fez a apresentação dele no programa Hora do Pobre:
“Meus amigos, este jovem advogado,
católico, candidato a vereador, muito vai fazer pelo povo de Fortaleza. E
depois de pedir que votassem nele, solicitou ao jovem advogado que lesse uma
das cartas que estavam ali sobre a mesa. E Mauro Benevides, com sua voz fanhosa foi em frente: “Meu nome é Maria das Dores, estou grávida, preciso muito de sua
ajuda..”. O hoje deputado federal Mauro Benevides diz que nunca mais esqueceu
aquele momento.
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