sábado, 19 de abril de 2014

CABRA DA PESTE NA SANFONA TEM UM PÉ LÁ NO CEARÁ



Um piano alucinante tocando “Um Chopin no Bach ouvindo Forró”. No final, o locutor anunciou que era uma faixa do CD do mesmo nome da música, executada pelo autor Chico Chagas. Fui direto pra loja, comprei o disco. Só clássicos em ritmo de forró, mas na base do fole. Um sanfoneiro com toda desenvoltura de um  Dominguinhos, Sivuca  Hermeto ou Valdonys. Só pode ser nordestino. 

Fui pesquisar. Chico Chaga é acreano. Como no Acre só dá borrachudo, como dizia o acreano José Vasconcelos, filho de cearense, fiquei mais cabreiro, desconfiado. Pois não é que descobri: Chico Chagas é filho de cearense. O pai dele, que já morreu, chamava-se  Chico Arigó. Era sanfoneiro.  Arigó  fugiu de casa aos 19 anos porque o pai, seu Manoel, também sanfoneiro, não deixava sob hipótese alguma que os seis filhos homens tocassem o instrumento. Não adiantou. Os seis aprenderam a tocar o instrumento e dois seguiram sua profissão. E o primeiro neto, Chico Chagas, também. Francisco das Chagas Gomes da Silva, Chico Chagas, nasceu em Rio Branco, Acre, no dia 23 de maio de 1971, filho de Geilda Alves Gomes da Silva e Francisco Gomes da Silva. Seu nome se deve a uma promessa feita pelo pai. Se o bebê, que nasceu com sérios problemas de saúde, escapasse, teria o nome do santo - Francisco das Chagas. 

Mas não foi o acordeon que levou  Chico para o Rio de Janeiro, em 1990, a convite de Tito Freitas. Na época, seu instrumento predileto era o piano e foi com ele que o músico se apresentou em  casas noturnas cariocas como o Café Nice, o Carinhoso e o Sobre as ondas.. Ele é famoso e eu não sabia. Chico iniciou nova fase em sua carreira em meados da década de 90, quando começou a mesclar teclados e acordeon nos trabalhos com grandes nomes da MPB como Zeca Pagodinho, Moraes Moreira, Elba Ramalho, Zé Ramalho e Geraldo Azevedo (esses últimos três em O Grande Encontro 2). A reaproximação definitiva com o instrumento da infância se deu no ano 2000, com Cássia Eller. Ousada, Cássia introduziu o acordeon de Chico em seus shows e CDs e o músico despertou para suas inúmeras possibilidades. 

Auto-didata, Chico Chagas mergulhou fundo no estudo do instrumento e, a partir daí, gravou, produziu e se apresentou com Chitãozinho e Xororó, Naná Vasconcelos, Carlos Malta, Maria Bethânia, Ivete Sangalo, Nana Caymmi, Adriana Calcanhoto, Paulo Moura, Miúcha, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Erasmo Carlos, Djavan e Guinga. Também dirigiu Elza Soares e o premiado show Do cóccix ao pescoço. 

O ano de 2007 marca o início de sua carreira solo, com o CD "...e por falar em acordeon ", em que mistura choro, samba, rock e forró de forma inovadora. Produzido por Luiz Avellar, o CD tem 13 faixas, com destaque para os arranjos sofisticados de "Day Tripper", releitura jazzística de um clássico dos Beatles. Morou na Europa e, de volta ao Brasil, nos brinda com o CD “Um Chopin no Bach ouvindo forró”, uma bela forma de nordestino ouvir música clássica sem se afastar das origens.

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