sexta-feira, 14 de março de 2014

HISTÓRIAS DE SEBASTIÃO NERY

Olha só o que ele diz do Ayrton Rocha, poeta,  cantor, publicitário, jornalista e amigo:


AYRTON, O BOM
No " Sereia do Leme " , lá na ponta de Copacabana, a tarde ainda era azul, deitada na arei branca, espiava o mar. Um homem magro, nariz grande, olhos tensos, cabelos baixos bem grisalhos, quase brancos,óculos pretos, bigodinho arrumado e gestos nervosos, cara de velho ator italiano em fim de carreira, bebia uísque na mesa do fundo e falava alto:

-Não vou deixar ! Não vou deixar ele casar com a Mariuza.
Seu companheiro de mesa, pequeno, magrinho,miudinho, sorridente, bebia água mineral e aconselhava:

-Não faça isso. Ele é um bom rapaz.O que é que você tem contra ele?
-Bebe muito!
-Beber muito,você bebe também.
-Mas eu não quero casar com a Mariuza.

Era Ari Barroso com Edu da Gaita. Na mesa ao lado, demos uma gargalhada. Nós éramos felizes e sabíamos. Jornalista e deputado na Bahia, quase todo fim de semana eu estava no Rio, vivendo com meus amigos e amigas os tumultuados, criativos e imcomparáveis anos dourados de Juscelino, Jânio, Jango, muito mais dourados do que percebíamos então.

Veio o golpe de 64, sumi dois anos na cadeia e em São Paulo, depois voltei ao Rio, para o Diário Carioca, a TV Globo, o Correio da Manhã. meus amigos continuavam lá no Sereia, vendo a tarde ainda azul espiar o mar deitado na areia branca e tomando chope cortado, pequeno em copo grande : Fernando Leite Mendes, Mauritonio Meira, Jorge Leão Teixeira, Josemar Dantas, tantos. todos jornalistas. E um publicitário, Ayrton Rocha.

Por força da profissão, Ayrton era uma fonte, uma usina de notícias. Sabia de tudo.Conhecia, vivia, juntava três mundos " o nosso, a imprensa; o dele, a propaganda; e o dos seus clientes, o empresariado.

Irmão do saudoso José Ayler, sócio de Heron Domingues na agência " Pronews ", que produzia os primeiros programas de debate político da televisão brasileira, com Wilson Figueredo, Armando Nogueira, Oliveira Bastos, Haroldo Holanda, Adirson de Barros, Ayrton sempre estava onde estávamos.

Uma noite, enchemos um avião e fomos todos para Fortaleza, inaugurar uma empresa de caju. Chegamos a um belo casarão, cercado de jardins e palmeiras, regado a uísque com água-de coco e champanhe com anjos.

De repente, a televisão começa a mostrar um bruta incêndio no Rio, na TV Globo. Estragou a festa. Parecia que o fogo queimava a alma de cada um de nós. Muitos alí trabalhávamos na Globo. E eu vi, a um canto da sala, Ayrton chorando por um desastre que não era dele, mas dos amigos dele, e para ele, era a mesma coisa.

Os que o conheciam, sabem. Apaixonado pela Estella e os filhos, amigo dos amigos, todos, de presidente da República como Sarney a baianos como eu, é de uma solidariedade generosa e indormida. Nos turvos anos 70, saiu comigo pelo Nordeste, acompanhando-me no lançamento do meu livro Socialismo com liberdade, quando era proibido pensar em socialismo e perigoso falar em liberdade.

E tem bom gosto. Tratando da coluna no Sara Kubitschek, em Brasília, passou algum tempo em meu apartamento. E eu, viajando e politicando. Foi embora, deixou um bilhete.

   - Meu irmão, obrigado pela hospedagem e sobretudo pelos vinhos. Bebi todos.

   Como definiria? Ayrton, o bom.

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