segunda-feira, 29 de junho de 2015

A IMPRENSA DO CEARÁ ESTÁ DE LUTO. MORREU CIRO SARAIVA,76 ANOS

Ciro Saraiva


Wilson Ibiapina
 
Sábado pela manhã, ao abrir o computador, deparei-me com este e-mail:
“Sou neto do Jornalista J. Ciro Saraiva. Venho por meio deste comunicar-lhe o falecimento do meu avô Ciro Saraiva nesta madrugada de sábado. O velório ocorrerá a partir das 14 horas na Ternura, aldeota - Fortaleza, e o sepultamento está previsto apenas para amanhã de manhã, no Cemitério São João Batista.”
João Ciro Saraiva de Oliveira, mais  conhecido como Ciro Saraiva, nasceu em Quixadá. Começou na imprensa em 1953, no jornal Estado. Depois trabalhou no Correio do Ceará, O Povo e Tribuna do Ceará. Foi radialista na Ceará Rádio Clube, Dragão do Mar e Radio Uirapuru. Trabalhou na TV Cidade e TV Ceará  Foi secretário de Comunicação dos Governos Manuel de Castro e Gonzaga Mota e fez parte da equipe de marketing da vitoriosa campanha de Tasso Jereissati ao governo do Ceará em 1986. Em 2011  lançou o livro Nos tempos dos Coroneis”, em que relata os principais fatos da política cearense durante a época do regime militar, do Governo de Parsival Barroso, em 1960 à campanha de Tasso Jereissati, em 1986. Depois escreveu Antes dos Coroneis. Ultimanente, vivia para escrever seus livros e tratar da saúde. Era diabético e  fazia a hemodiálise para ajudar no funcionamento dos rins, problema que o matou nessa madrugada. Nos últimos anos deixou a religião católica, tornou-se  evangélico. Ele foi tambem O MELHOR REI MOMO DO CEARÁ
Quem encontrava ultimamente  o circunspecto jornalista Ciro Saraiva é incapaz de imaginar que este senhor que gastava bom tempo de sua vida em orações e em leitura da Bíblia, foi um dia o mais espirituoso, alegre e divertido Rei Momo da história do carnaval de Fortaleza.
Essa passagem na vida do brilhante escritor, ele procurava esquecer por achar o carnaval cada vez mais longe do povo, que essa “explosão cultural popular virou coisa de rico marcada pela ferocidade do sexo, pela droga e pelo dinheiro”, conforme ele assinala em  seu livro “No Tempo dos Coronéis”.
Mas tudo começou por causa do incidente que ocorreu no Country Club de Fortaleza, onde hoje funciona o restaurante Serigado, comandado pelo cronista esportivo Silvio Carlos.
Era o carnaval de 1961. O juiz de menores, Cândido Couto, recebeu denúncia de que menores estavam participando da festa do Country, a segunda-feira mais animada do carnaval cearense. O juiz mandou que a polícia fosse lá retirá-los da festa. A tropa chegou no momento em que o Rei Irapuan Lima e sua corte visitava o clube.
O Edilmar Norões, que fazia parte da corte como cronista carnavalesco, lembra da cena. Algum gaiato gritou para a polícia não prender o Rei Momo. Irapuan Lima, indignado bradou: “O Rei é imprendível”. A Polícia abriu fogo no salão. O fotógrafo Vieira Queiroz, do Correio do Ceará, foi baleado e o Rei teve que pular o muro para escapar dos tiros.
Depois dessa confusão o Rei Momo abdicou. O presidente da Crônica Carnavalesca, Chico Alves Maia, entrou em campo para encontrar seu substituto.
Para alegria geral a escolha recaiu sobre um jornalista gordinho, recem-chegado de Quixeramobim. Com o nome de Cirão I, o novo Rei Momo se vestiu de Nero e saiu às ruas, segundo ele, com “a disposição de tocar fogo no Carnaval de Fortaleza”. Seu grito de guerra era “Vivo o Cão”.
Um dia, num baile no clube Iracema, Cirão sobe no palco e, ao lado do comandante da Região Militar e do ministro Expedito Machado, proclama no microfone: “O Rei, o minisitro e o general! Viva a irresponsabilidade!”
Foi, sem dúvida, o mais animado e debochado Rei do Carnaval cearense. Sua performance aumentava a alegria dos foliões. Só ia pra casa com o sol raiando.
Não fez como aquele rei Momo do passado que foi destituído em plena segunda-feira de carnaval. Foliões, que voltavam de uma festa às 6 horas da manhã, flagraram o Soberano de pijama e comprando pão numa padaria.
A Rainha que acompanhava Cirão, Irani, era muito bonita e chegou a provocar uma crise de ciúme na casa dele. Entre a Rainha do Carnaval e a Rainha do Lar, o Rei optou pela Rainha do Lar. Inventou que estava doente e como já era 1965, em plena ditadura militar, ele saiu-se com essa: “Só volto ao carnaval quando houver condições de fazer alegria no Brasil”.
No carnaval seguinte o Rei já era o Javeh.
Em seus últimos dias, o jornalista e escritor Ciro Saraiva, vivia para Jesus, não ousava sequer repetir o brado de guerra que ele usava para incentivar seus súditos. Considerava uma injuria a Deus.
Na verdade, nunca mais apareceu um Rei Momo tão espontâneo, carismático que nem ele. O poeta Rogaciano Leite sentenciou um dia: “No Ceará só existiram dois reis: Luisão e Cirão. O resto é palhaço.”
Eu acho que o melhor mesmo foi o Cirão Primeiro e Único. Que Deus o tenha.

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