quinta-feira, 25 de junho de 2015

ERA UMA VEZ UM AUGUSTO CEARENSE NUM CHICO BRASILIENSE


 


Vanira da Silva Foster
Bolsa de ombro, como essas que hoje facilmente identifica um paulistano. Circulava pelos corredores do departamento de comunicação da Universidade de Brasília. E pelos teatros amadores da cidade. Era Augusto para os mais íntimos e Chico Pontes para os demais. Para mim, Chico.
Acho que me aproximei dele por meio do Clodo que na época terminava o curso de comunicação e de quem eu tinha sido auxiliar no curso de publicidade do colégio pré­universitário. Nunca era fácil os encontros com ele. Sempre me instigando, dizendo coisas muitas vezes incompreensíveis, insinuações indecifráveis. Eu, perdida nos meus 19 anos, recém ­universitária, aluna de publicidade (o jornalismo foi por acaso) e atriz amadora, às vezes fugia dele. Chico me bagunçava a cabeça e muitas vezes me irritava. Os que o cercavam já faziam pilhéria das histórias da mãe que morava num areal e da sua “proposital” falta de dentes.
Ficou claro que de alguma maneira me acompanhava. Levou Ednardo para ouvir a gravação do programa de rádio que eu tinha feito sobre poesia. Eles gostaram do tema e do programa. Ednardo pediu cópia. Depois, foram Rodger e Teti que o queriam tanto bem que me acolheram como a uma velha amiga.
Passou a conviver com meus amigos. De alguns era crítico severo. Foram muitas noites no Beirute, cantorias sem fim em bares e casas de amigos. Cantávamos Carneiro, O lago e outras composições dele e de Rodger, O relacionamento foi ficando mais próximo.
Um dia numa dessas cantorias, para minha surpresa, um amigo comum anunciou que cantaria a música que Chico havia feito para mim:”feito de conta este olhar/faz de conta que é pra mim/abra o seu sorriso mais que possa/quero entrar nessa festa de riso e olhar/meu coração está de novo aberto, pode entrar/eu estou só com os meus momentos /e uma saudade clara sua/festa de corpo e alma nua/meu coração com mil tormentos”. Era Folia ou Pressa.
Nunca consegui entender o que tivemos. Anos depois fui visitá­lo no Ceará. Eu já era divorciada e ele viúvo de Cristina Borracha. Foi bom rever Fortaleza ao lado dele. Depois de ouvirmos Rodger em um dos bares da cidade, em outro bar ouvimos gravação de uma cantora que ora parecia cantar em português ora não. Era Cesárea Évora. Ele sabia bastante sobre ela.
Foi noite de muitas conversas, inclusive sobre o livro que publicaria. E sobre o qual conversamos com um outro amigo dele daqui que encontramos em Fortaleza – agora me foge o nome. Peti? Talvez. Falamos até sobre nós. Disse que aos 19 anos não consegui entendê­lo. E que agora(lá em Fortaleza) aquilo não mais fazia sentido.
Nos falamos pelo telefone algumas poucas vezes depois da tal viagem. Vê­lo, nunca mais. Soube meses depois da morte dele que havia morrido. Fiquei triste porque não tinha mais dúvida de que gostava dele. De que todas as vezes que ouvisse Cesárea Évora me lembraria dele. De que o guardaria sempre num lugar especial, no limbo das emoções, no cantinho da certeza dos bons afetos, nos voos sem turbulência. Vez por outra canto Folia ou Pressa, na incerteza se é pra mim.

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