segunda-feira, 8 de junho de 2015

GUERRA & FAZ (DE CONTA)

 
 
Ronan Soares
 
As minhas relações com o militarismo não são nada exemplares, pelo contrário, são muito engraçadas. Em 1957, em São Paulo, trabalhava no Banco Brasileiro de Descontos, futuro Bradesco, quando fui procurado por um coronel corrupto que me pediu um dinheiro pra me liberar do serviço militar. Estava feliz da vida, quando descobriram o golpe -- nada a ver com os tempos modernos -- e a única saída que tive foi ligar pra Araxá e pedir ao meu irmão pra simular um pedido meu de inscrição no serviço militar, com data anterior ao processo de corrupção em São Paulo. Isso me obrigou a ir de verdade pra Araxá, e me alistar no chamado Tiro de Guerra. Com um detalhe: pra ir de São Paulo até Araxá, sem dinheiro, um amigo que tinha uma transportadora me colocou num caminhão com dois motoristas que levavam um trator pro triângulo mineiro; pra economizar dormíamos no chão, debaixo do caminhão, e eles pagavam meu lanche. Dois dias e meio depois, chegaria em Araxá.
 
Boêmio e indisciplinado, foi o maior castigo que poderia ter. Mas me apresentei, comprei minha farda verde e comecei o batente. Como era comunicativo, o sargento logo me colocou como comandante de um grupo. O pior pra mim era levantar às 4h da manhã e estar lá super animado às 6h.
 
E começou a luta: treino com tiro de fuzil, corrida pelo mato, a busca pelo inimigo invisível, e eu no comando. Para segurar esta barra, ia pra boemia à noite; às 4h da madrugada passava em casa, calçava os coturnos, vestia a farda, e atravessava a cidade inteira para servir à pátria.
 
Semanas depois, exausto, propus aos meus comandados que a gente simulasse um exercício: pisar com o coturno na lama de um riacho, sujar o uniforme, deitar e relaxar por uma hora. Virei um herói. Eles diziam para o Sgt. que eu era um chefe muito rigoroso, e assim foi. Depois, eu ia para um banco trabalhar como funcionário.
 
Quanto ao tiro ao alvo, alguém, um experiente cínico, disse que eu não poderia ser bom de pontaria porque corria o risco de ser convocado para o front num caso de uma guerra. Então aprendi a atirar perto do alvo, o que se mostrou mais difícil do que acertar na mosca. No final do ano, fui elogiado pela minha liderança, e ficou como ponto negativo a minha falta de precisão no tiro. Tudo que eu precisava. A pátria não perdeu grande coisa com isso. Eu faria por ela melhor na minha carreira de jornalista.
 
(a foto, na verdade, é da turma do meu irmão Dirceu Alves Ferreira. O 'Alves', o sétimo da esq. pra dir., na primeira fila)
 
 

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